D´alma minha lide, que te quebraste
Tão soturna está grafia tão polida,
Samira em eira tão falsa, poluída,
E anda lá pauta nunca resiste.
Se na letra humana em que a escrita
Desenha desta gente nos consente,
Não te escapes senhora rumor jazente
Que foi nos braços meus cantos perita.
Senhora não sei que possa acudir-me
Dessa dor que dizes que então te cegou
Dá pena, sem degredo, deste ouvir-me,
Rezo a Zeus, meus dias lhe dilatou,
Que tão credo não te prendam meus pulsos,
Que por bem de claros olhos me roubou.
II
Graça minha sutil, que te falaste
Tão vera nesta verve então tingida,
Sepulta em dor eterna, dolorida,
E desce lá na fala nunca triste.
Se no álveo erróneo em seio a treta
Samira que desta nau nos desmente,
Não te salves daquela dor que ausente
Se foi nos olhos meus viva desdita.
Daqui não sei de que posso amparar-me
Dessa luz que falas que te içou
Sem réstia, sem Samira, de escrever-me.
Berro a Deus, que meus zelos aumentou,
Que tão credo não te rezem meus cílios,
Que por bem de teus velos me levou.
III
D´Alma que está ausente, que lhe partiste
Tão longa desta lide negligente,
Samira lá no Céu liricamente
E fique eu cá na roca, nunca assiste.
Se cá no espanto etéreo, onde gostaste,
Na memória da história se consente,
Não te olvides daquele amor candente
Já nos braços meu fio intenso existe.
E se volta que pode ofender-te
Samira cousa a luz que me rogou
Da graça, sem dilema, de usar-te.
Rogo ao Sol, luz teus olhos limitou
Que tão cedo de cá me traga a crer-te,
Quão ledos de meus braços te furtou.
IV
Dama minha servil, que te cansaste
Tão verde nesta fauna tão florida,
Já sepulta em lar de doce, ofendida,
E troca lá na meta nunca viste.
Se leito eterno em que lhe pinta
Veraz tão desta era nos consente,
Não te olvides daquele amor temente
Que foi nos olhos meus viva visita.
Distante não sei que possa usar-me
Essa luz que lume que te citou
ausência, sem segredo, de reler-me,
Imponho a Deus, que meus velos dilatou,
Que Samira não te soem meus braços,
Que por bem de teus anos me furtou.
V
Dama minha gentil, que me olvidaste
Tão cedo desta lide indolente,
Repousa lá no Céu suavemente
Fique eu cá no catre tão sempre triste.
Se lá no branco eterno, onde sorriste
Desprezo desta era que desmente,
Não te isentes naquele amor cadente
Que já nos lábios meus tão vivo existe.
E se então vires poder acender-te
Alguma cousa a flor que me ficou
Dá Dó, que sem remédio, de querer-te,
Gritei a Deus, que meus dias limitou,
Que tão longe de cá me leve a ter-te,
Quão ledo de meus braços te levou.
VI
Chama minha febril, que te calaste
Tão logo aterra terra tão punida,
Relaxa em zelo seca, dolorida,
Sofrendo lá na escrita jamais riste.
Se no repouso eterno em que a escrita
Memória criva à vida nos desmente,
Não te livres Samira amor ausente
Que foi nos olhos meus dura visita.
Porém não sei de que possa ajudar-me
Sendo dor que dizes que te burlou
Da mágoa, sem emenda, de olvidar-me.
Berro então a Deus, meus anos encurtou,
Que tão falhos não te escrevam meus olhos,
Que por bem de laço e braços me tirou.
VII
Coisa minha febril, eu te driblaste
Tão logo nesta sonora temida,
Enfada em rixa forma, dolorida,
E privar lá na pauta em flauta triste.
Se no leito erróneo em que finta,
Dizeres desta fauna nos desmente,
Não te lembres daquela verve ausente
Que foi nas rezas meus plena mesquita.
Porém não sei de que possa custar-me
Flama em luz que dizes que te gozou
Da mágoa, sem remédio, de rever-me,
Rogo a Deus, que meus verdes alongou,
Que tão tarde não te queime meus olhos,
Que por bem de teus olhos me brotou.
VIII
Arma minha Dama, que te faliste
Tão recente da terra imprudente,
Mover-se lá no Léu impaciente
E curta eu cá a tocar cana triste.
Se lá no álveo erróneo, agora fugiste,
Desleixo puro à fauna se pressente,
Não te safes daquele louvor dormente
Que já nos lábios trago tão pleno urdiste.
E se fores que pôde comover-te
Alguma chispa a luz que me rogou
Só plena, sem saída, deste ouvir-te,
Impõe a Deus, que teus olhos limitou,
Que tão longe de cá me leve a ser-te,
Quão verve de meus lábios te furtou.
IX
Dama minha foste hostil, que feriste
Tão cedo ainda vida imprudente,
Sossega lá no Céu finitamente
E cante eu cá na cana sempre triste.
Se lá na flama etéreo, onde surgiste,
Samira foste a terra se pressente,
Não te olvides música ardor fervente
Que já nas vozes minha tão aberto existe.
E se vires poderá abater-te
Alguma lauda a voz que me falou
De louvor, sem ajuda, de ganhar-te.
Grita então Zeus, que teus tetos limitou,
Que tão crente de cá me leve a crer-te,
Quão lerdo de meus braços te levou.
X
Dama minha civil, que te cansaste
De tão credo nesta era tão polida,
Serena em cela terna, abrigada,
Vive a tocar lá na flauta sempre triste.
Se no registro etéreo em que a ida,
Só Samira da pena nos consente,
Não te olvides daquele pudor jazente
Que foi nos laços meus pura vertida.
Longe não sei de que traga convir-me
Foi essa luz que dizes que te fixou
Sulamita, sem acerto, de ouvir-me,
Prego a Deus, que meus rogos sossegou,
Que distante não te criem meus cílios,
Que por bem de teus laços me roubou.
XI
Porém Dama meu ardil, que te fundiste
Tão tarde Samira de negligente,
Repousa lá no céu finitamente
E teça eu cá na flauta sempre triste.
Se lá na madre eterna, onde subiste,
História verve a vida se desmente,
Não te escapes daquela dor carente
Que já olhares meus tão intenso ouviste.
E se fores que pôde reviver-te
Alguma coisa a luz passou e safou
Graça tua, sem saída, de rever-te,
Prega a roca, que teus fios sossegou,
Que tão fortes de cá me leve a ter-te,
Quão força meus lábios te serenou.
XII
Dama minha gentil, que me salvaste
Tão logo dores vida tão punida,
Repousa em olhos frio, escondida,
Priva lá grafia de contínuo triste.
Se no álveo etéreo em que a grafia
História verve vida nos pressente,
Não olvides daquele louvor ausente
Que foi nos olhos meus pura que fia.
Porém não sei de que diga assistir-me
Dessa dor que dizes então ficou
Da fala, sem amparo, de perder-me,
Peço a Deus, que meus danos aumentou,
Que tão tarde não vejam meus olhos,
Que por bem de teus olhares apartou.
ERIC PONTY
POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA
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