I
No deserto de Samira,
espaço silencioso, eco de Dakar,
há uma sulamita, um mistério,
papiros ainda indecifráveis
areias selvagens, sussurros débeis
útero de Saara terra
estéril sonha fina delicadeza
fontes expostos seios
do mel e do mais puro leite
dessas dunas alvas areias.
No deserto Samira,
espaço silencioso, eco de Dakar,
no candeeiro a luz de uma virgem
no ato da espera das amargas ervas
possam-se celebrar a cerimônia
o amado gozando em paradisos
longas entranhas a que seja única
somente a una das amadas.
No deserto de Samira,
espaço silencioso, eco de Dakar,
a explicação intrínseca de Deus a Jó,
flácido silêncio tecido, fonte deságua,
a semente fez-se alvorecer o poente
destituídas folhas de outonos,
ninho de pássaros de voz de sonhos.
No deserto de Samira,
espaço silencioso, eco de Dakar,
eco nas alcovas tem seu riso,
movidas vestes da dançarina,
rangendo sombras noturnas, o gozo
sagrado, lágrimas guardadas, desvão
pálidas virgens ao gozo dos eleitos.
No deserto de Samira,
espaço silencioso, eco de Dakar,
fios ouro reluzentes dos cabelos,
são braceletes sem diamantes,
presos quando mexe com os dedos
quando inclinada ao vento me sonha.
II
- Ouve o sussurro deste poema?
Agora, encosta cabelo no ombro
neste meu porto sem mares,
neste meu porto sem despedidas,
neste meu porto está tatuado
vestes de seda, e de alva prata.
- Ouve o sussurro deste poema?
Agora, encosta cabelo no ombro
escute a explicação dos sábios:
O da esquerda é o de Constantinopla
empreendeu longa viagem no mar,
abarcou monstros e Tordesilhas,
tolerou blasfêmias e descrenças, salvou-se
agora analisa os caules da efígie;
O da direita é o do Império de Adriano,
das terras andarilho dos longos desertos,
monge dos castelos dos templários,
diziam ser mito, apenas vestido,
capa iluminada sem sentido alfarrábio,
presente analisa os caules da efígie.
- Ouve o sussurro deste poema?
Agora, encosta cabelo no ombro,
escuta a explicação desses eruditos,
não faça nenhum conceito errado,
glosam entre eles somente de ti
meditaram os pentagramas, os raios
dos dilúvios nos últimos séculos,
achegaram o vácuo vôo dos pássaros,
tentam entender de que é constituído,
de que elemento sagrado não se fala,
de que elemento não se pode traduzir.
- Ouve o sussurro deste poema?
Agora, encosta cabelo no ombro
esses fios de ouro bordado de anjo,
incompreensíveis a esse jardim,
a luz existe e não se mitiga,
ilumina-me na minha solidão,
luzindo alva no candeeiro.
III
Chegaram emanados de navio
agora dispersos por essas minas,
alegam consigo sussurros mouros,
vendiam ícones dos santos
porque Alá, o misericordioso,
transcende-lhes o coração,
ainda nas minas sem mesquita
fizeram versos do Alcorão,
escritos por uma donzela fosse
do mineiro dessas estreitas vias.
Samira intensa asa de borboleta,
frágeis dedos, qual o significado
da dor me doendo, e, não se silencia,
fios loiros desse cabelo iluminado
raios sol apagá-los a que não incendeiem
às fronhas desse travesseiro?
Eco deserto de Dakar ressoe em Minas,
fazei-a indicar de nosso compromisso
matrimônio por nós acertado, quando
impossibilitados no século IV
sermos pai e filha de nos desposarmos.
Talvez ouvindo a voz de minha lira
minhas canções de mero compasso
a celebrizar enfim me eternize.
Eric Ponty
POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA
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