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sexta-feira, abril 10, 2026

Sibilas de Samira II - (Extratos) - Eric Ponty

 I 
 
No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
há uma sulamita, um mistério, 
papiros ainda indecifráveis 
areias selvagens, sussurros débeis 
útero de Saara terra 
estéril sonha fina delicadeza 
fontes expostos seios 
do mel e do mais puro leite 
dessas dunas alvas areias. 
 
No deserto Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
no candeeiro a luz de uma virgem 
no ato da espera das amargas ervas 
possam-se celebrar a cerimônia 
o amado gozando em paradisos 
longas entranhas a que seja única 
somente a una das amadas. 
 
No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
a explicação intrínseca de Deus a Jó, 
flácido silêncio tecido, fonte deságua, 
a semente fez-se alvorecer o poente 
destituídas folhas de outonos, 
ninho de pássaros de voz de sonhos. 
 
No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar,
eco nas alcovas tem seu riso, 
movidas vestes da dançarina, 
rangendo sombras noturnas, o gozo 
sagrado, lágrimas guardadas, desvão 
pálidas virgens ao gozo dos eleitos. 
 

No deserto de Samira, 
espaço silencioso, eco de Dakar, 
fios ouro reluzentes dos cabelos, 
são braceletes sem diamantes, 
presos quando mexe com os dedos 
quando inclinada ao vento me sonha. 
 
 II 
 
- Ouve o sussurro deste poema? 
Agora, encosta cabelo no ombro 
neste meu porto sem mares, 
neste meu porto sem despedidas, 
neste meu porto está tatuado 
vestes de seda, e de alva prata. 
 
- Ouve o sussurro deste poema? 
Agora, encosta cabelo no ombro 
escute a explicação dos sábios: 
O da esquerda é o de Constantinopla 
empreendeu longa viagem no mar, 
abarcou monstros e Tordesilhas, 
tolerou blasfêmias e descrenças, salvou-se 
agora analisa os caules da efígie; 
O da direita é o do Império de Adriano, 
das terras andarilho dos longos desertos, 
monge dos castelos dos templários, 
diziam ser mito, apenas vestido, 
capa iluminada sem sentido alfarrábio, 
presente analisa os caules da efígie.  
- Ouve o sussurro deste poema? 
 
Agora, encosta cabelo no ombro, 
escuta a explicação desses eruditos, 
não faça nenhum conceito errado, 
glosam entre eles somente de ti 
meditaram os pentagramas, os raios 
dos dilúvios nos últimos séculos, 
achegaram o vácuo vôo dos pássaros, 
tentam entender de que é constituído, 
de que elemento sagrado não se fala, 
de que elemento não se pode traduzir.  
- Ouve o sussurro deste poema? 
 
Agora, encosta cabelo no ombro 
esses fios de ouro bordado de anjo, 
incompreensíveis a esse jardim, 
a luz existe e não se mitiga, 
ilumina-me na minha solidão, 
luzindo alva no candeeiro. 
 
 III 
 
Chegaram emanados de navio 
agora dispersos por essas minas, 
alegam consigo sussurros mouros, 
vendiam ícones dos santos 
porque Alá, o misericordioso, 
transcende-lhes o coração, 
ainda nas minas sem mesquita 
fizeram versos do Alcorão, 
escritos por uma donzela fosse 
do mineiro dessas estreitas vias. 
 
Samira intensa asa de borboleta, 
frágeis dedos, qual o significado 
da dor me doendo, e, não se silencia, 
fios loiros desse cabelo iluminado
raios sol apagá-los a que não incendeiem 
às fronhas desse travesseiro? 
 
Eco deserto de Dakar ressoe em Minas, 
fazei-a indicar de nosso compromisso 
matrimônio por nós acertado, quando 
impossibilitados no século IV 
sermos pai e filha de nos desposarmos.
  
Talvez ouvindo a voz de minha lira 
minhas canções de mero compasso 
a celebrizar enfim me eternize. 

Eric Ponty

  

POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA   

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