P/Samira Agostine
onde deixaste a tua voz
macia de capim e veludo
semeada de estrelas
Ana Paula Ribeiro Tavares - Angola
Amor, encontrar esses olhos,
sedutores de outras terras,
sussurros do deserto
pronúncia de Saara
a boca fluente água
me alimenta, e, ainda
lápida minha fala.
Amor,
te encontrar esses olhos,
ainda chegará esse dia, que sós,
sós viremos nos perguntar:
De qual Paradiso, poeta e esposa,
foram tão bem esculpidos
não se percebe-se o abatido,
não há musa, apenas complemento,
homem e mulher sem intervalos
ressoado gozo,
o vôo dos pássaros.
Amor,
te encontrar esses olhos,
mistério de sulamita, cabelos loiros,
o corpo de curvas densas
conduzidas linhas da curvatura
retira do meu centro na intensa luta
contra os sentidos interiores
a qual mulher sempre término
enfim de joelhos.
Sibilas de Samira III ou Paráfrase da Lira XXII de Gonzaga
Transvertido de Gonzaga adentro o poema
a celebrá-la lira ante aos homens ocos
comporei brancura da face de leite puro
exaltarei olhos e nenhuma luz aplaca,
os seios pães mais frescos da padaria,
o singular peça de ar das mandonas:
Muito embora, Samira, muito embora,
outra madona, que não tenha essa tez,
traços do nascimento Vênus, a sua face
silencia a amarga palavra.
As paredes da sua sala,
Não lhe fazem jus tal é a espessura infinita;
Pendam pobres cortinas, penda a lâmpada
do teto inútil não a aclara.
Não habita qualquer sofisticação,
Nem está alienada a moda dessa passagem;
Porém terá a mim que discorra, que te vide,
componha o poema à existência.
O tempo não respeita a desejos da moda;
E da pálida morte a mão tirana a lume
Fazendo perder um a um desses atributos,
Que instantes foram eternos na urbe.
Quantas modas, Samira, padeceram na aurora,
Essa luta sempre se mostrou inútil e inglória!
Só podendo conservar um nome eterno
O seu, assinalando novas esperanças
Nem mesmo o rude pássaro se ufana.
Se não houvesse Tasso, nem Petrarca,
Por mais que qualquer delas fosse linda,
Não saberiam o mundo, se duraram
Nem Laura, nem Clarinda, nem Marília
Nenhuma possuía unos atributos Samira.
É melhor, minha Bela, eu me emudecer.
Pode algum deus lendo-me a vide e a almeje.
Não sabem nada os homens se ufanam
Os cabelos, as vestes, os títulos, a riqueza
irão então fenecer pela aurora tardia.
ERIC PONTY
POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA
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