Soneto I
Quando me paro comtemplar meu espaço,
E ao ver os passos, porém do que hão traído,
Falo, segundo pôr de onde andar perdido,
Que o maior mal pudera haver chegado.
Mas quando do caminho isto olvidado,
A tanto mal que não sei por hei chegado,
Sei que me acabo e mais eu sentido,
Ver acabar comigo do meu cuidado.
Eu acabarei, que me entreguei sem arte,
A quem saberá perdesse e acabar-se,
Se quiser e há um saberá querê-lo.
Que, pois, minha vontade pode matar-me,
A sua, que não és tanto de minha parte,
Podendo, que fará, porém, fazê-lo.
Soneto III
Mar em meio as terras hei desejado,
De quando bem, cuidado eu que tinha,
E indo me aleijando de cada dia
Gentes, costumes, línguas do passado.
Já de desandar estou desconfiado,
Penso remédios em minha fantasia,
E que mais certo espero é aquele dia,
Que acabará a vida e deste cuidado.
De qualquer mal poderá socorrer-me,
Com veros eu, senhora, que o esperá-lo-ei
Se esperá-lo pudera sem percebê-lo.
Mas de não veros já para valer-me,
Se não é morrer nenhum remédio falo,
Si, isto é, tampouco poderei fazê-lo.
Garcilaso de La Vega - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA
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