P/ Andrea Neves da Cunha
Este é o leão, vindo lá de onde os leões, juba ao vento,
Fazem fremir em torno a água, o bosque, o ermo, o monte,
Certo, enchendo as encruzilhadas de espavento,
Ele alto ergueu por onde andou a egrégia fronte.
Hierarca senhoril do sertão, fulvo archote
Do pampa airoso o porte, o passo lesto ou lento,
O seu faro inquiria as nevoas e o horizonte,
O eco ao longe calava ao seu mais tênue alento,
Este é o leão que ora vês neste gradil. Quem há de
Compreender a sombria amargura € à saudade
Esparsas nesse olhar que de furor se embruma?
E quando o rosmaninho o ar estival perfuma,
Com que giganteo ululo o leão, da jaula infame,
O estribilho feroz da sua mágoa brame!
JOSÉ SEVERIANO DE REZENDE
AS QUATRO ESTAÇÕES
(Temas de Vivaldi)
Para Alexandre Schubert
PRIMAVERA
I – A Primavera regressa
A vida que alastra das flores da relva,
cordeiro mugindo-se só da ramagem,
das flores florentes na aragem da selva,
no aroma da jovem história da aragem.
Ausente da sépia da serra do fardo
aragem amarga no escuro sonurno,
em dengos do morno dilúvio do prado,
azuis se perfazem bramido soturno.
O prado arrefece-se silvo da relva,
no canto do grilo passar-se da tarde,
pastando dos alvos cordeiros da malva.
A vida lastreia neste prado da relva,
cordeiro pascido tão só sem alarde,
no sol que precata-se douro da salva.
ERIC PONTY
E tem mais, uai: correndo por fora, vindo das encruzilhadas de São João del Rey, pede passagem o jovem Eric Ponty, poeta multifacetado, dodecafônico, sorumbático e minimalista. Eric se expressa numa linguagem que às vezes parece um idioma estrangeiro, dada a sua aversão pelo termo usual ou pela sintaxe vigente. Para provar que conhece o metier, abandonou por uns tempos o verso livre, que é seu laboratório habitual, para mostrar aos circunstantes que está por dentro das intrincâncias métricas da poesia tradicional, e tome decassílabos com acento na 5ª e 10ª, versos heróicos, órficos, hendecassílabos, dodecassílabos com cesura e sem cesura, com coda e sem coda — arrojos de quem se deixa descabelar pela musa. Depois de publicar algumas plaquetes pela editora local, A voz do Lenheiro, logo alçou voo para a modernidade e emplacou um e-book editado em PDF pela Virtual Books, O sacerdócio da poesia, homenagem ao seu patrono na Academia de Letras local, o Pe. José Severiano de Rezende. E atingiu as prateleiras das livrarias metropolitanas com seu Menino retirante vai ao circo de Brodowski, editado pela Musa, de SP, em 2003, em que dialoga liricamente com os quadros de Portinari, daí resultando um belíssimo livro (a partir da capa) que transcende a leitura infantil e juvenil. Participante da coleção A Voz do Poeta, CDs editados pela Drum Estúdio, acaba de lançar na Academia Brasileira de Letras seus 50 poemas escolhidos pelo autor, da prestigiosa editora Galo Branco, de Waldir Ribeiro du Val.
IVO BARROSO
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