P/ Andrea Neves da Cunha
Foste uma sombra que passou... mais nada.
Como outras muitas, esvoaçaste neste
Vendaval, e na frívola lufada
Com elas todas desapareceste.
Na minha alucinada idolatria,
Na minha adoração extraordinária,
Outra que tu eu não compreenderia
Consolando-me a vida solitária.
No sonha em que eu te engrinaldei de rosas,
Tu foste a santa de cabelos louros,
Em cujas mãos ebúrneas e nervosas
Eu deporia todos os tesouros.
Agora vejo, ao doce luar nevoento,
O termo ansioso dos meus pesadelos
E os meus castelos no ar, soltos ao vento,
E apenas presos pelos teus cabelos.
Do amplo amphilheatro dos meus desenganos,
Olho, extasiado, o ermo que me circunda:
Nada mais resta dos meus verdes anos,
Nem a dor amaríssima e profunda,
Com este foram-se as antigas penas
Na mesma louca e célere revoada.
Descansa, ingênua criatura, apenas
Foste uma sombra que passou... mais nada.
JOSÉ SEVERIANO DE REZENDE
Do triste destino soturno dum Ícaro,
do canto do plácido sul deste véu,
flertado na foz que desta água da lua,
da noite desfez em silêncio do céu.
A sombra sem norte se fez deste dia,
vivido do zoom que tarde mitiga,
na sorte à seiva do cedro partido,
na sarça abrigada no brio da urtiga.
Luzindo-se sol desta cheia do mar,
das asas ocultas da nuvem dos prados,
estio deste filho vigor deste fio,
desta urbe mirar desvario destes astros.
Do pálido do amor dos prantos dos chãos,
rezadas lamúrias nos campos dos hortos,
da brisa tocar nessa suave oração,
na sorte rezada nos ombros dos portos.
No pranto do bosque do rio do mel,
brancura desta ave negrume da cela,
do manto carpido da morte à maré,
dorida da manta da pena da cena.
Dum Ícaro dobre da cera do púbere,
do qual se prostrando tão só se condena,
quiçá desvaneça de ornar desta pena,
carpindo das asas à cera tão célere.
II
Da renúncia das sôfregas melodias,
terras, signos obscenos, sinos das cãs,
enquanto pronunciava dos dobres dias,
surdos suspiros relvas destas manhãs.
No silêncio tarde, da paz da açucena,
verdadeira na lide verve estrelas,
assoprados jardins desta cantilena.
ainda que fosse alvoroço às das penas.
Voz se prediz quase inconcluso do mito,
do frio do mármore boca ecoava
estátua passar traduzira da cena.
Nas dores suspiradas sinos da rua,
dos anos perfazem dos dobres do rito,
sacrário do céu gris sissó dessa arena.
III
Auréola do terno cantar-se dum Ícaro,
do campo terreno tangido do manto,
que não padeceu deste mar desse aparo.
Avesso das penas de Minos foi par,
dum sol que se alume que alçando-se pranto,
das asas eternas do zôo do mar.
Crepúsculo verve da luz desta estrela,
vestir da atingida leveza desta áscua
brotada do tom que desta água que anela.
Aurora do vão desta voz do crepúsculo,
da cena deserta vertida da murta
dum triste fadário marmóreo do opúsculo.
Do pálido sol destes mantos da légua,
dum céu do carpido azul do carpina,
silêncio se fiando nas vestes das águas.
Do astro do véu revestido da mácula,
clamando-se à luz dos sublimes da sina,
nas trevas da sorte no sol desta árcula
Nenhum comentário:
Postar um comentário