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sábado, outubro 11, 2025

AS AVES - VICTOR HUGO - TRAD.ERIC PONTY

 Sonhei em um grande cemitério deserto;
Ouvi o concerto de minha alma e dos mortos,
Entre as flores da grama e as cruzes do jazigo.
Deus quer que o que nasce saia do que rui.
E a sombra me encheu.

Ao meu redor, muitos,
Alegres, sem se importar com minha testa abrumada,
Neste campo, leito fatal da última sesta,
Francisco pardal estava enfeitando.

Era a ultravida incitada pelo momento.
Eles iam e vinham cantando, voando, pulando,
arranhando a morte com as garras afiadas,
alisando bicos nos narizes tristes das estátuas,
Batendo nos jazigos, aqueles grãos misteriosos;
Levei a sério esses barulhentos alados;
Gritei: "Paz aos mortos! Vós são harpias.
- Nós somos pardais", disseram pessoas ímpias.
- Silêncio! Vão embora!", repeti, não muito caritativo.
Fugiram; eu era o mais forte. Eu era o mais forte,
Um deles ficou para trás e, com música,
Ergueu cauda e disse: - O que é esse velho clássico?

Todos foram embora, furiosos, xingando,
Gritando e fazendo cara feia para o gigante,
Um azevinho negro que ponderava em um jazigo, 
um homem sábio,
Parou-me de repente pela manga quando eu passava,
E me disse: - Essas aves estão fazendo seus afazeres.
Deixe-os em paz. Precisamos desse raio.
Deus os envia. Eles trazem vida ao cemitério.
Homem, eles são a alegria de toda a natureza;
Eles tiram seu murmúrio do riacho, seu brilho
Da estrela, sorriso da manhã enlevada;
Onde quer homem sábio ria, elas levam alegria,
E trazem para nós; sombras ardem quando as veem;
Eles enchem bicos com gritos de crianças escolar;
Por meio do homem e da grama, e da onda, e dos prados,
Saqueiam a alegria no imenso universo.
Eles têm essa razão que parece doidice para ti.
Eles têm pena de nós que definhamos longe delas;
E quando estão cheios de jogos e canções,
Églogas, beijos e todas as fofocas
Que os ninhos em abril fazem sob sombras verdes,
Vêm correndo, alegres, atraentes, leves e barulhentos,
Jogamos tudo em nossos buracos assustadores;
E viemos, de palácios, de bosques, de chalés de palha,
Para evacuar toda essa luz em nossa noite!
Quando maio as traz de volta para nós, ó sonhador, dizemos:
"Tudo se moveu, pedras, montes, gramados;
O menor arbusto fala, e a grama fica em êxtase;
O salgueiro-chorão canta ao concluir sua sentença;
Confessam os teixos, agora tagarelas;
Falam da vida com os carros funerários;
Das mortalhas supino pomposas retiram o fecho;
Eles não se importam com o mármore; sabem soletrar;
E eu, o velho cardo mal-humorado,
Diante de quem as mentiras mostram sua feiura,
E não se importa em me tratar qual um convidado,
Acho certo, amigo, que ao ler em voz alta
O epitáfio do morto é sempre bom e belo,
Fazem o jazigo explodir em gargalhadas.

VICTOR HUGO - TRAD.ERIC PONTY

    ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

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