Quando eu conto relógio que diz tempo
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
Prata a preta têmpora assedia, tampa;
Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia a sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir no carro, a barba hirsuta e anca;
Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono
Morrem ao ver nascendo a graça cova.
Contra a foice do Tempo é vão combate,
Salvo a prole, que o enfrentou se te abate.
Outra isotopia:
Quando eu conto relógio que diz tempo
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou fria
Prata a preta têmpora assedia, tampa;
Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia a sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir no carro, a barba hirsuta e anca;
Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono
Morrem ao ver nascendo a graça cova.
Contra a foice do Tempo é vão combate,
Salvo a prole, que o enfrentou se te abate.
I
Dos seres sem igual ansiamos prole
Para nasça do Belo não se extinga,
E se na flor madura o Tempo colhe,
Afresco botão sua memória vinga.
Mas tu, só com olhos teus contrais,
Nutres paixão com as próprias energias
Que causando fome onde a fartura jaz,
Cruel rival, que próprio ser crucias.
Tu, que do mundo és hoje o galardão,
Tu arauto da alegre Natureza,
Matas flor teu prazer inda em botão
E, avaro, esperdiças na avareza.
Piedade, senão irá, tu e do fundo
Chão, tragar o que é carecido ao mundo.
II
Quando no assédio em quarenta invernos
Se escavarem as linhas de teu rosto,
Da primavera os teus galões supernos
Pobres andrajos se tiverem posto,
Se então te pesquisarem pelo fausto
De teus dias na glória e beleza,
Falar que tudo jaz no olhar exausto,
Opróbrio fora, encômio sem grandeza.
Mais mérito terias que nessa usança
Se pudesses dizer-nos: “Meu filho há-de
Saldar-me a dívida, exculpar-me a idade”,
Confirmando que a beleza é tua herança.
Fora tornar antigas as coisas velhas
E ver o sangue quente enquanto engelhas.
14
Dos astros não retiro entendimento
Conduto eu tenha cá de astronomia,
Mas não para prever a morte, o intento
Das ocasiões, ou fome, epidemia;
Mas sei dizer o que será do instante,
Prever a alguém quer chuva, ou vento, ou raio;
Se tudo há-de risada ao governante
Segundo os presságios que aos céus extraio.
De olhos emanam meus atributos
E, astros tão fidos, leio ali tal arte:
“Que do fato e a beleza darão frutos
Se em ti deixas de tanto reservar-te”;
Ou um vaticínio sobre ti revelo:
“Teu fim põe termo ao correto e ao belo.”
15
Quando observo que tudo quanto cresce
Desfruta a perfeição de um só momento,
Que neste palco imenso se obedece
Desta á secreta influição do firmamento;
Quando percebo que ao homem, como à planta,
Esmaga o mesmo céu que lhe deu glória,
Que se ergue em seiva e, no ápice, aquebranta
E um dia enfim se apaga dessa memória:
Esse conceito da inconstante sina
Que mais jovem faz-te ao meu olhar agora,
Quando o Tempo se alia com tua Ruína
Para se tornar em noite a tua aurora.
Desta crua guerra contra o Tempo enfrento,
Pois tudo te toma eu te acrescento.
17
Um dia crer nos versos meus quem há-de
Se neles derramar teus dons mais puros?
No entanto sabe o céu que eles são muros
De que a tua vida oculta por metade
Que dissera o que de teu olhar emana,
Teu dom em nova métrica medira
Que acharia do porvir então: “Mentira!
Tais tratos não retratam face humana.”
Que mofem pois deste papel fanado
Qual de velhos loquazes, e a teu ente
Chamem de pura exaltação da mente
E a meu verso exageros do passado,
Mas se chegar a tua estirpe que tanto,
Em dobro hás-de viver: nela e em meu canto.
18
Devo igualar-te a um dia de verão?
Mais afável e belo é o teu semblante:
O vento esfolha Maio inda em botão,
Dura o termo estival um breve instante.
Muitas vezes a luz do céu calcina,
Mas o áureo tom também perde a clareza:
De seu belo a beleza enfim declina,
Ao léu ou pelas leis da Natureza.
Só teu verão eterno que não se acaba
Que nem a posse de tua formosura;
De impor-te a sombra a Morte não se gaba
Pois que esta estrofe eterna ao Tempo dura.
Enquanto houver viventes nesta lida,
Há-de viver meu verso e te dar vida.
19
Tempo voraz, ao leão cega as garras,
E à terra fazes devorar os genes;
Ao tigre as presas hórridas desgarras
E ardes no próprio sangue a eterna fênix.
Pelo caminho vão pés ligeiros
Alegres, tristes estações deixando;
Impões-te ao mundo aos gozos passageiros,
Mas proíbo-te dum crime mais nefando:
De meu amor não vinques o semblante
Nem nele imprimas o teu traço duro.
Oh! permite que intacto siga avante
Como padrão do belo no futuro.
Ou antes, velho Tempo, sê tão perverso:
Jovem sempre há-de o manter meu verso.
22
O espelho não me prova que envelheço
Enquanto andares par com mocidade;
Mas se de rugas vir teu rosto impresso,
Já sei que a Morte a minha vida invade.
Pois toda essa beleza que te veste
Vem de meu coração, que é este teu espelho;
O meu vive em teu peito, e o teu me deste:
Por isso como posso ser mais velho?
Portanto, amor, tenhas de ti cuidado
Que eu, não por mim, antes por ti, terei;
E Levar teu coração, tão desvelado,
Qual ama guarda o doce infante, eu hei.
E nem penses em volta, morto o meu,
Pois para sempre é que me deste o teu.
23
Como imperfeito ator que em meio à cena
O seu papel na indecisão recita,
Ou como o ser violento em fúria plena
A que o excesso de forças debilita;
Também eu, sem confiança em mim, me esqueço
No amor de os ritos próprios recitar,
E na força com que amo me enfraqueço
Rendido ao peso do poder de amar.
Oh! sejam, meus livros a eloquência,
Áugures mudos do expressivo peito,
Que amor implorem, peçam recompensa,
Mais do que a voz que muito mais tem feito.
Saibas ler o que o mudo amor escreve,
Que o fino amor ouvir com olhos deve.
24
Meus olhos, qual pintor, tua beleza
Retrataram no escrínio de meu peito;
Meu corpo é a moldura em que está presa:
Nesta arte da perspectiva fui perfeito.
Pois por meio do artista diligente
Vês onde jaz a tua imagem tão fina:
Na loja de meu peito está pendente
E teus olhos reluzem na vitrina,
Uma troca de olhares que bem faz:
Meus olhos te pintaram, são os teus
Janelas de meu peito onde se apraz
O sol a te espreitar nos antros meus.
Mas teus olhos têm sua restrição:
Pintam o que veem, não o coração.
27
Lanço-me ao leito, exausto da fadiga,
Repousa o corpo ao fim da caminhada;
Mais eis a outra jornada a mente obriga
Quando é do corpo a obrigação passada.
A ti meu pensamento — na distância —
Em santa romaria que então me leva,
E fico, as frouxas pálpebras em ânsia,
Olhando, como os cegos veem na treva.
E a vista de minh’alma ali desvenda
Aos olhos sem visão que tua figura
Que igual a joia erguida em noite horrenda,
Renova a velha face à noite escura.
Ai! que de dia deste corpo, à noite a alma,
Por tua e minha culpa não está têm calma.
152
Em te amando bem sabes fui perjuro,
Mas foste-o que em dobro por jurar-me amor;
Quebraste o voto de teu leito puro,
E novo ódio votaste ao novo ardor
Por que acusar-te a quebra de dois votos,
Se quebro vinte? Mais perjuro sou;
Fiz dos abusos juramentos rotos,
Desta honesta fé em ti nada restou.
Jurei que eras gentis a vida inteira,
Jurei por teu amor, por leal, constante;
Que clareando-te, dei olhos à cegueira:
Fi-los jurar contra o que era patente.
Jurei que eras honestas: falsa mira;
Jurar contra a verdade tal mentira.
William Shaskespeare - Trad. Eric Ponty
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA


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