Uma procissão fúnebre MUITO pequena passou por um cemitério muito pequeno na costa rochosa, levando um caixão para a seu jazigo sob o muro baixo e ventoso. O caixão era bastante formal e discreto; mas o grupo de pescadores e operários olhava-o com os olhos oblíquos da superstição; quase como se fosse o caixão deformado da lenda, que se dizia conter um monstro. Porque nele se encontrava o corpo de um vizinho próximo, que vivia a dois passos deles e que nunca tinham visto.
Para se protegerem. Taparam os ouvidos com cera. Naturalmente, todo e qualquer viajante antes dele poderia ter feito o mesmo, exceto aqueles a quem as atraíam mesmo a grande distância; mas era sabido por todo o mundo que tais coisas não ajudavam em nada. O canto e o desejo dos que seduziam não podiam deixar de ser e o desejo daqueles que seduziam teriam quebrado laços muito mais fortes do que correntes e mastros das carruagens. Mas embora possível já tenha ouvido falar. Confiava definitivamente e, num júbilo inocente pelo seu pequeno e, com uma alegria inocente pelo seu pequeno estratagema, partiram ao encontro do funeral recitando poema de Safo:
O que devemos fazer, Chéreau?
O adorável Adônis está a morrer.
Ah, mas nós choramo-lo!
Voltará quando o outono
Púrpura a terra, e a luz do sol
Dormido na vinha?
Voltará quando o inverno
Reúne as ovelhas, e Orion
Vai para a tua caça?
Ah, mas a tua beleza, adônis,
Com a suave buganvília ao vento sul,
Amor e desejo!
(Vincennes,1783)
Velhos lacaios dos vendedores de atum de Aix, baixos e infames servos de torturadores, inventem então para meu tormento outras torturas das quais pelo menos algum bem possa resultar. Qual é o efeito da inação em que a vossa cegueira espiritual me mantém, a não ser para amaldiçoar e dilacerar a indigna procuradora que tão mesquinhamente
que tão maldosamente me vendeu a vós? Como já não sei ler nem escrever esta é a centésima décima primeira tortura que estou a que estou a inventar para ela. Esta manhã, enquanto sofria, vi-a, a esfolada viva, arrastada sobre cardos e depois atirado para um barril de vinagre. E eu disse-lhe:
Criatura execrável, que vendeste o teu genro aos carrascos! Aos carrascos! Toma lá, procuradora, por teres alugado as tuas duas filhas!
Toma isto por teres arruinado e desonrado o teu genro!
Toma lá pôr o teres feito odiar as crianças por quem supostamente sacrificou-o!
Aceita isso por ter destruído os melhores anos da vida dele quando só a vós cabia ajudá-lo depois da sentença!
Aceitai isso por terdes preferido a vil e detestável descendência da vossa filha a ele!
Tomai isso por toda a maldade com que o dominastes durante treze anos!
Treze anos, para o fazer pagar pelas vossas estupidezes!
E eu aumentei as suas torturas e insultei-a na sua dor e esqueci-me da minha.
A minha pena cai-me da mão. Tenho de sofrer. Adeus, torturadores,
Devo amaldiçoar-vos!
. Mas o que eu quero saber é o que pensas de toda a história."
"O voto foi bem bastante afoito", disse ela. "Durante todo esse tempo podias ter estado a pintar quadros e a fazer todo o tipo de coisas boas. Não me parece correto que um génio esteja ligado a um lunático por algumas palavras."
Ele sentou-se de repente. "Por amor de Deus, não diz isso!", gritou.
"Não diga que não se deve ser partidário a um lunático por algumas palavras! Não diga que isso é errado, imploro-lhe, diga o que disser! Um pensamento chocante! Uma ideia perfeitamente imunda!"
"O que queres dizer com isso?", perguntou ela. "Porque não?"
"Porque", disse ele, "quero que faças um voto afoito. Quero que amarres com algumas palavras de um lunático".
Houve um silêncio, no fim do qual ela sorriu de repente e pôs a mão no braço dele.
"Não," disse ela, "apenas um tolo... Sempre gostei de ti, mesmo que quando pensei que eras mesmo um lunático, naquele dia em que ficaste na tumba do Senhor de Sade levando uma tulipa na mão. Mas agora acho que o meu voto não vai ser tão afoito.... Que raio está a fazer agora?... Oh, eu digo... por amor de Deus...."
As crianças que estavam no canto do pequeno jardim olhavam com interesse para um senhor em traje fúnebre que se comportava de uma forma algo invulgar, que honesto homem de Deus não tardou a regressar a Paris com de cada uma destas várias catástrofes. Ninguém lamentou a morte, o único sentimento que despertou foi o de indignação pela sua vida. Mas a sua mulher foi lamentada, amargamente lamentada. Porque, de fato, que criatura mais preciosa, mais louvável aos olhos dos homens do que esta mulher, que tinha estimado, respeitado e cultivado todas as virtudes deste mundo para descobrir a desventura e amarguras em cada angústia?
ERIC PONTY
ERIC PONY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA
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