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sexta-feira, agosto 18, 2023

AOS MEUS PREZADOS LEITORES - ERIC PONTY

Segundo Walter Benjamin na Tarefa do Tradutor é que O fato da traduzibilidade ser própria de certas obras não significa que a sua tradução lhes seja imperativa e ativa, mas sim que um determinado significado, existente na essência do original, se expressa por meio da sua traduzibilidade. É evidente que uma tradução, por muito boa que seja, nunca consegue afetar ou mesmo ter um significado positivo para o original. Ela mantém, no entanto, com o original uma estreita conexão por meio da traduzibilidade. E esta conexão é tanto mais acanha e íntima por não afetar o original, podendo ser denominada como conexão natural, ou mesmo, num sentido mais rigoroso, como relação vital. Do mesmo modo que as exteriorizações vitais se mantêm intimamente pertinentes com os seres viventes, sem, todavia, os afetar, a tradução nasce também do original, derivando neste caso não tanto da vida como antes da “sobrevivente” da obra. Isto porque a tradução é posterior ao inédito, e, como os tradutores predestinados nunca as descobrem na época da sua formação e nascimento, a tradução adverte, no caso das obras admiráveis. 

De acordo com Benjamin, uma vida no meio de multidões urbanas é de modo inerente traumática porque somos repetidamente confrontados com olhos que não nos devolvem o olhar: "O que está aqui em causa é que a expetativa suscitada pelo olhar humano não se cumpre. Baudelaire descreve olhos dos quais se pode dizer que perderam a capacidade de olhar. "O choque da desumanidade crónica de tais olhos contrasta, com SPLEEN E IDEAL.

Baudelaire imaginou leitores para os quais a leitura da poesia lírica apresentaria dificuldades. O poema introdutório de Les Fleurs du mal é dirigido a esses leitores. A força de vontade e a capacidade de concentração não são os seus pontos fortes. O que eles preferem é o prazer sensual; conhecem o "baço" que mata o interesse e receptividade. É estranho encontrar um poeta lírico que se dirija a si mesmo aos tais leitores a esses leitores - o tipo de público menos gratificante.

Há, naturalmente, uma explicação pronta para este facto. Baudelaire queria ser compreendido; dedica o seu livro àqueles que são como ele. O poema dirigido ao leitor termina com a saudação: "Hipócrita lecteur,-mon semblable,-mon frere!" Talvez fosse mais proveitoso colocar a questão de outra forma e dizer: Baudelaire escreveu um livro que, desde o início, tinha poucas perspectivas de se tornar um sucesso popular chegado. O tipo de leitor que ele imaginava é descrito no poema introdutório, e este acabou por ser um julgamento clarividente.

Acabaria por encontrar o leitor a que se destinava a sua obra, e, esta situação - ou seja, o fato das condições de recepção da poesia lírica se ter tornado cada vez mais desfavorável, é confirmada por três fatores particulares, entre outros.

Em primeiro lugar, o poeta lírico deixou de representar o poeta per se. Já não é um "trovador", como Lamartine ainda era; ele se tornou o representante de um género (Verlaine é um exemplo concreto desta especialização; Rimbaud já deve ser considerado como uma figura esotérica, um poeta que, ex officio, manteve uma distância entre o seu público e a sua obra.) Segundo, não houve sucesso em grande escala na poesia lírica desde Baudelaire. (A poesia lírica de Victor Hugo ainda era capaz de evocar poderosas reverberações quando apareceu pela primeira vez. Na Alemanha, o Buch der Lieder de Heine marca um ponto de virada.) 

O terceiro fator decorre deste - nomeadamente, a maior frieza do público, mesmo em relação à poesia lírica que foi transmitida como parte do seu próprio património cultural. O período em causa remonta, grosso modo, a meados do século XIX. Ao longo deste período, a fama de Les Fleurs du mal não parou de crescer. Este livro que o autor esperava que fosse lido pelos leitores menos indulgentes e que foi e que, no início, foi lido apenas por alguns indulgentes, adquiriu, ao longo das décadas, de um clássico e se tornou um dos livros mais impressos.

Se as condições para uma recepção positiva da poesia lírica se tornaram menos favoráveis, é razoável supor que só em raros casos que poesia lírica está de acordo com a experiência dos seus leitores. Isso pode ser devido a uma mudança na estrutura da sua experiência. 

Meus 57.100 custosos Leitores, devo dizer-lhes que não sigo nenhuma vertente brasileira além das elencadas por Mário Faustino de quem só distingo pela ideologia. E se eu estiver auxiliando, algum aluno numa escola sem biblioteca, ou professor estarei construindo um melhor amanhã para o Brasil.
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

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