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sexta-feira, julho 14, 2023

Under Milk Wood - (A Play for Voices) - DYLAN THOMAS - PREF. E PRIMEIRA VOZ INICIAL - TRAD. ERIC PONTY

Durante os seus últimos dias em Nova Iorque, em novembro de 1953, enquanto fazia cortes no roteiro de Under Milk Wood para a sua aparição no elegante revista americana Mademoiselle, Dylan Thomas disse a Elizabeth Reitell que esperava ansiosamente pela altura em que pudesse preparar uma "versão literária para Três anos antes, tinha feito a mesma observação numa carta a Marguerite Caetani: "Agora, estou a escrever uma longa peça de rádio, que irá, estou certo que, estou certo, ganhará vida também na página impressa".

A morte prematura do poeta deixou-nos com um Under Milk Wood, que foi BBC, e transmitida postumamente como tal em 25 de janeiro de 1954. No mesmo ano, foi o roteiro da emissão que foi apresentado ao público leitor sob a direção de Daniel Jones, com o subtítulo "A Play for Voices". À medida que os atuais editores prosseguiram com a tarefa de examinar os manuscritos de Thomas para confirmar ou ajustar o texto padrão de Jones, não puderam deixar de ouvir Jones, não as referências do poeta a uma "versão literária" como um apelo a ser atendido.

Por conseguinte, a presente edição foi concebida para ser uma versão mais legível versão da peça para a página impressa. Tornou-se claro que o objetivo da divisão da narração numa primeira Voz e numa segunda Voz era aliviar o fardo dos atores que tomam esses papéis e conseguir efeitos limitados de variação através do timbre diferente das suas vozes. Numa emissão ou numa atuação em palco, o público poderia tirar algum proveito deste dispositivo.

Mas os leitores da edição publicada de Jones de Under Milk Wood são, pela existência desta divisão na narração, um problema - o de ter de ler as palavras "Primeira Voz" precisamente 110 vezes e as palavras da "Segunda Voz" exatamente 77 vezes. Não é como se Tomás tivesse distinguido a Primeira, e a Segunda Voz através de traços de discurso, de personalidade ou profundidade de alma.3 Ao libertar o leitor dos 187 interruptores a que o olho tinha anteriormente de prestar atenção, a presente edição liberta o ouvido do leitor de prestar atenção, a presente edição liberta o ouvido leitor para ouvir o que é na realidade um guia narrativo para a ação da peça. É também deve ser notado que quando o produtor original da BBC, Douglas Cleverdon, veio preparar uma Acting Version para J. M. Dent em 1958, ele decidira-se por um narrador.

De fato, Thomas começou a peça com a ideia de um único narrador. Quando John Malcolm Brinnin visitou Laugharne no verão de 1951 e Thomas leu-lhe partes do que na altura se chamava "Llareggub Hill", a obra deveria consistir num "entrelaçamento de muitas vozes", mas "com a forte voz central de um narrador para fornecer as unidades de tempo, lugar e situação".

Quando Thomas terminou cerca de metade da peça, enviou-a para publicação ao italiano Botteghe Oscure em outubro de 1951, e escreveu sobre ela numa carta à editora, Marguerite Caetani: "À medida que a peça avança, duas vozes dominantes: a do pregador, que só fala em verso, e a do expositor e cronista anónimo expositor e cronista chamado, simplesmente, 1ª Voz" (Collected Cartas, 814). Embora a Segunda Voz já estivesse nesta "peça para talvez" que estava a oferecer a Botteghe Oscure, Thomas preferiu optou por falar apenas da Primeira Voz, como de um único narrador: "a 1ª Voz, e o poeta pregador, nunca julgam nem condenam, mas explicam e, tornam inexplicável simples e meramente estranho". A peça confirma o que aqui podemos deduzir das próprias palavras do poeta: que não existe de fato um papel distinto para a Segunda voz na ação ou no significado da obra. Por conseguinte, a presente edição emprega, por isso, uma narração de uma só voz, em itálico, como formato mais adequado para introduzir e conduzir-nos aos vários prazeres da peça.

PREF. - TRAD. ERIC PONTY

Under Milk Wood - (A Play for Voices)

(SILÊNCIO)
PRIMEIRA VOZ

Para começar pelo princípio:
É primavera, noite sem lua na pequena cidade, sem estrelas e negra como a Bíblia, as ruas de paralelepípedos silenciosas e o bosque de cortesãos e coelhos, coxeando invisível até ao mar negro, lento, negro, negro de corvo, de barcos de pesca do mar. As casas são cegas como toupeiras (embora as toupeiras vejam bem esta noite de veludo) ou cegas como o Capitão Cat ali no meio abafado junto à bomba e ao relógio da cidade, as lojas de luto, de viúvas. E toda a gente da cidade, condição e aturdida estão a dormir agora.
Silêncio, os bebés estão a dormir, os agricultores, os pescadores, os comerciantes, e os reformados, o sapateiro, o professor, o carteiro e o publicano, o cangalheiro e a mulher elegante, o bêbado, a costureira, o pregador, polícia, as amas de galo e as esposas arrumadas. As moças deitam-se em camas macias ou deslizando nos seus sonhos, com anéis e enxovais por vermes formosos pelos corredores do bosque que toca órgão. Os rapazes estão sonhar malvados ou com os ranchos da noite e com o mar. E as estátuas de antracite dos cavalos dormem nos campos, e as vacas nos celeiros, e os cães nos pátios de nariz molhado; e os Cats dormem a sesta nos cantos enviesados ou a passear sorrateiramente, a correr e a agulhar, na única nuvem dos telhados.

Ouve-se o orvalho a cair e a respiração silenciosa da cidade.

Apenas os seus olhos estão abertos para ver a cidade negra e dobrada, célere e lenta, dormida.

E só tu podes ouvir o invisível cair das estrelas, o mais escuro antes do alvorecer o agitar-se minucioso do mar negro e cheio de borbulhas onde a Arethusa, o maçarico e a cotovia, Zanzibar, Rhiannon, o Rover, o corvo-marinho e, a Estrela de Gales se inclina e cavalga. Escute. É noite movendo-se nas ruas, o sal processional brando vento musical em Coronation Street e Cockle Row, é a relva a crescer em Llareggub Hill, o cair do orvalho, o cair das estrelas, o sono dos pássaros em Milk Wood.

Escute. É noite na capela fria e atarracada, cantando de touca e broche e bombazine preta, gargantilha de borboleta e laço de bota, tossindo como cabras amas, chupando os dedos dos pés, quarenta piscando aleluia; noite no fourale, silenciosa como um dominó; nos lofts do Ocky Milkman como um rato com luvas; na padaria de Dai Bread voando como farinha preta. É de noite na Rua do Burro, trotando silenciosamente, com algas nos cascos, ao longo dos paralelepípedos de galo, passando fernão cortinado, texto e quinquilharia, harmónio, cómoda sagrada, aquarelas feitas à mão, cão de porcelana e chávena de chá de lata rosada. É a noite a passar entre os aconchegos dos bebés.

Olhe. É noite, burra, majestosa, a serpentear pela cereja da Coroação árvores; atravancando o cemitério de Bethesda com os ventos, e o orvalho, e a cair nos braços dos marinheiros.
O tempo passa. Ouve. O tempo passa.
Aproxima-te mais agora.

Só tu podes ouvir as casas dormindo nas ruas na lenta e profunda salgada e silenciosa noite negra e enfaixada. Só tu podes ver, nos quartos cegos, os pentes e os saiotes sobre as cadeiras, os jarros e as bacias, os copos de copos de dentes, o "Não farás" na parede, e as fotos amareladas dos mortos.

Só tu podes ouvir e ver, por detrás dos olhos dos adormecidos, os movimentos e países e labirintos e cores e, desânimos e arco-íris e melodias e desejos e fuga e queda e desesperos, e,
e os grandes mares dos seus sonhos.

De onde estiveres, podes ouvir os teus sonhos.

Capitão Cat, o capitão de mar cego reformado, a dormir no seu beliche na melhor cabine da Casa da Escuna, em forma de navio, sonha de nunca mais mares como os que inundaram os conveses do seu S.S. Kidwelly, que se espreguiça por cima da roupa de cama e que as alforrecas escorregadias o sugam, e o peixe vem a morder e mordisca-o até à espinha, e os afogados há muito se aconchegam a ele.

BALADA DE MR. WALDO

Em Pembroke City, quando era jovem,
Eu vivia junto à Torre de Menagem,
O meu salário era de seis pence por semana,
Por trabalhar para o limpa-chaminés.

Seis tostões frios que ele me deu,
Nem um cêntimo a mais nem a menos
E tudo o que eu podia pagar,
Era gin de pastinaca e agrião.

Não precisei de faca e nem garfo,
Ou um babete até ao queixo
Para comer um prato de agriões,
E um jarro de gin de pastinaga.

Alguma vez ouviste um rapaz em aumento
Viver tão cruelmente barato,
Com comida que não tem carne nem ossos
E bebidas que vos fazeis chorar?

Varrer, varrendo, varrer, varrendo, 
eu chorei Pembroke City
Pobre e descalço na neve
Até que uma jovem bondosa teve pena.

Pobre varredor de chimpanzés, disse ela,
Preto como o ás de espadas
O ninguém varreu a minha chaminé
Desde que o meu marido se foi embora.

Vem varrer a minha chaminé,
Vem varrer a minha chaminé,
Suspirou para mim com um rubor,
Vem varrer a minha chaminé,
Vem varrer a minha chaminé,
Traga a sua escova de chaminé!
DYLAN THOMAS - TRAD. ERIC PONTY

ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

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