encerra o silêncio de nossas esperanças,
que encantados com o brilho lunar nos refaz.
O que somos afinal sobre a lua que cheia,
floresce nossos ensejos, e frutifica nossos mitos,
que desiludidos com o solar ofuscamento nos reluz.
Lúgubre como é lúgubre o canto que nasce
que jorra límpida nas outras fontes d’água,
silêncios que encerram nossa imagem
de um refletido mito surdo no Lenheiro;
Irrigada voz que descanta o pássaro,
que com asas de brancas nuvens
interroga-se sobre a matéria tempo,
fúnebre como o paladar do sino a obrar.
Olhos de prata, murmúrios de ouro,
interrogações que se abrumaram,
rudes questionamentos que não se esvaem;
acumulados e dissimulados
nesta consciência incerta, perdida.
Sol e Lua dentro da noite adentram do dia,
dúbia conversa entre astros que não ponderam
se circunferencial numa rota imutável,
rotineira como o tempo irrefutável.
Despir, rubro significado altivo,
máscara que não tateia simulacro inteiro,
Lívia pele, tenra mentira fluida n’água,
paixão que se encadeia, mas não queima,
límpido abismo simulado de realidade.
Entrecortadas vozes que se dissecam,
o vento, o que diz o vento ao vento
que ventila a própria sentença
de outros apagados tempos invernais?
Sim, a paixão é rubra lavra de vulcão,
espessa e fluida e sufocada nuvem,
que dilui a consciência e o logos.
Resistir na verde margem relva,
com o retrato entrecortado n’água,
tingido pelas toscas luzes do prisma,
para que o branco não seja preto,
para que o preto não seja branco,
simulada visão do natural tempo,
arquitetado.
O que somos, àquilo que nós fomos,
dentro de poucos instantes, iremos,
a questão inquestionável que aglutina,
súplice e suplicado que ateia,
ruge o instante dentro de um infinito.
Driblar uma consciência outra, gesto possível,
e a si mesmo, improvável ato que desfigura,
como a cera de uma face resplandecente,
que desfalece na contraluz do tempo.
Um eclipse é uma imagem de pena,
rápido encontro, infindável espera,
que se perde como amantes por acaso,
que desfalecem após o orgasmo.
Admira-se trágica cena de um enamorado,
que enluarado pela límpida água refletida,
soltos suspiros como se outra natureza,
sua máscara fosse esculpida e terminada.
Rogado por tal imagem quer ser altivo,
buscar dentro de si próprio outros gemidos,
que a faça entreter de seus alaridos,
dissimulado como está de si na margem.
Perdido, quer encontrar um pedido, só suspiro,
melodiar, uma canção suave, só grunhido,
entreter ao outro, e a si mesmo, só que entretido.
Desfazer-se de sua própria figura espectral,
sem tal companheira, voar altivo no azul céu,
pintando o que lhe resta da Augusta miséria.
ERIC PONTY

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