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quinta-feira, julho 13, 2023

ESTÁTUA DE TANCREDI COM A CONSTITUIÇÃO - 2021 - ERIC PONTY

 

I

Sob o céu azul profundo da sua terra natal,
Cansou-se e, desanimada, lamentou-se:
Morreu e passou, e por mim sinto-me muitas vezes,
A sua sombra juvenil paira carinhosa;
E, ao mesmo tempo, fosso enorme divide-nos a ambos.
Em vão quis acordar a minha dor:
De língua indiferente ouvi a notícia fatal,
Com um ouvido indiferente soube da sua morte.
E, no entanto, é verdade, amei-a outrora com alma ardente,
O meu coração dos corações envolto só nela;
Com toda a ternura do langor torturante,
Com todas as dores do desespero amoroso!
Onde está agora o meu amor, as minhas dores? 
Ai de mim, minha alma estéril envolta só nela;
Para ela, tão leve e fácil de crer no semblante,
Para a memória de dias que nada pode lembrar,
A canção ou as lamúrias estão agora mortas e sem voz.

II

A geada e o sol; um dia glorioso!
E tu, minha querida, ainda dormes:
É tempo, minha mais bela, de despertar:
Abre ligeira os teus olhos com o sono inerte,
E saudai com alegria a Manhã do Norte,
Brilha, tu mesma, a Estrela do Norte,
Ontem à noite, a chuva forte rodopiou e rugiu,
O céu estava escondido numa névoa branca;
A lua amarela espreitava fraco,
Os flancos espessos e sombrios da nuvem;
E sentaste-te aborrecido e mal à vontade,
Mas, querida, agora .... É olhar para fora!
Debaixo da teia ricamente tecida,
De um céu azul-escuro de cor profunda,
Sorvete brilha ao sol: densa floresta só é negra,
Os abetos estão verdes com a geada,
E, envolto em gelo, o rio está a brilhar,
E toda a sala com um brilho âmbar,
Acende-se. O fogo ardente de um tempo,
Subindo as chamas da chaminé com o estalar ledo,
É bom ficar na poltrona: Sabeis o quê? É melhor longe,
Para arrear em passo ligeiro a égua castanha.
E sobre a neblina da manhã o nosso corcel,
Com toda a vontade, com a impaciência quente,
Deve, ofegante, carregar-nos, querida, célere,
Pelos campos vazios vamos correr
Pelas florestas mais densas ninguém pode passar,
Ao longo da costa que me é tão cara.

III

As alegrias ruidosas de anos irrefletidos estão perdidas;
E tudo, a cabeça misturada com que bebes, ficou opaco.
Mas, como o vinho, o infortúnio de outrora
Com força mais forte do que os novos tormentos.
Um caminho triste está diante de mim. Tarefas frescas
Para me afogar num mar feito de problemas.
E entanto, valiosos amigos da juventude. Eu não quero morrer!
Desejo viver, para que possa refletir e trabalhar;
Sinto que a alegria se misturará com a minha dor,
Aliviará meus cuidados e curará minhas tristes dúvidas.
Mais uma vez, beberei a taça da harmonia,
E afogar meus pensamentos num dilúvio de lamúrias lenitivos;
E, porventura, na hora final da vida o sorriso 
De dispensada do amor "cintilará a penumbra".

IV

Nem a palha do molinete nem a erva pulsaram e vibraram;
De um bom e galante rapaz tremeu e estremeceu;
Duma camisa de linho tão fina que a sua estrutura investia,
Sobre a camisa estava esboçada uma peliça viva de escarlate
Com mangas dessa peliça estavam voltadas para trás,
De lapelas da frente estavam abotoadas para trás,
E foram manchados com o sangue dos descrentes;
Vede então o bom e galante jovem a tropicar,
Dos seus globos oculares destilam lamúrias ardentes e salgadas;
Sobre o seu arco dobrado a sua figura se sustenta,
Até que o seu arco dobrado tenha perdido o seu belo dourado;
Nem uma só alma o jovem bem descobriu,
Até que deparou a mãe querida que o deu à luz:
Ó meu rapaz, ó meu tesouro, e meu valioso!
Por que razão te tornaste tão bêbado?
Sendo que ao barro, que inclinaste a tua figura,
E a erva e os galhos do vento estão a agarrar?
Assim respondeu o jovem galante à tua mãe:
Não fui eu, ó mãe querida, que me embebedei,
Com três potentes e variadas poções de licores;
A primeira delas é o teu sabre de corte afiado;
O próximo deles é o teu facão que nunca falha;
O terceiro é a bala de chumbo da pistola.

V

Entre as faces de tudo a melhor parte
Foi a parte, em que Zeus pôs louvor tudo,
Se a parte da face o quis pôr tudo,
A face foi de tudo a melhor parte.

Parta-se, pois, de Zeus o corpo em parte,
Que a parte em que Zeus fiou amor tudo
Por mais partes, que façam deste tudo,
De tudo fica intacta essa só parte.

A face já foi parte entre as de tudo,
Que todos mais rasgaram parte a parte;
Hoje partem-se as partes deste tudo:

Sem que da face tudo rasguem parte,
Que lá quis dar por partes o amor tudo,
E agora o quis dar tudo nesta parte.

VI

Mandei erigir um MONUMENTO não feito à mão;
A passagem pra ele, bem trilhado, não arderá demais;
Mais alto se ergueu, de cabeça erguida de Tiradentes,
Do que o monumento de Tancredi instigar nos olhos, 
Não! Nem tudo de mim fenecerá! Minha alma em lira sagrada,
O meu pó sobreviverá, e escapará à destruição -
E famoso serei, enquanto na terra sublunar,
Pelo menos um bardo vivo conservar-se.
Que o meu nome viajará por todo o país,
E aí pronunciarei o meu nome em todas as línguas vivas:
O orgulhoso descendente de espanhóis, e o selvagem ainda,
E por muito tempo serei prezado pela nação:
Por despertar com a minha lira os nobres anseios,
Por exaltar a liberdade numa era cruel,
Por chamar a misericórdia sobre os caídos.
A ordem de Zeus, ó Musa, corresponde.
Não temer insultos, não pedir coroas:
Louvores e culpas recebem-nos com apatia,
E não controvertam com o insensato Zeus!

ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA

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