Ora, foi dito sobre a Commedia, e a observação é igualmente verdadeira de Dante, que ela é como a Bíblia neste aspeto: cada um encontra nela o que ele próprio lhe traz. O poeta encontra poesia, o filósofo, a filosofia; o homem científico, a ciência como era conhecida em 1300; o político, a política; os hereges têm até a ciência como a ciência.
O poeta encontra a poesia, o filósofo a filosofia, o homem científico a ciência tal como era conhecida em 1300, o político a política, os hereges até encontraram a heresia. E isto não é muito nem é muito surpreendente, se considerarmos o ambiente em que o autor se encontrava.
Naturalmente, sem dúvida, um homem de estudo e de contemplação, a sua sorte foi lançada no seio de uma sociedade agitada e até turbulenta, onde dificilmente um indivíduo podia escapar à sua quota-parte nos encargos públicos.
Os homens saudáveis não podiam ser poupados quando, como era habitualmente o caso, a luta era para lutar; todos os homens com capacidade mental eram necessários no conselho ou na administração. E, afinal de contas, a área a ser administrada, o terreno a ser que o homem de letras podia cumprir o seu dever para com a comunidade e ter tempo de sobra para os seus estudos. Pode um dia, em Caprona ou Campaldino, e no outro, em casa, entre os seus livros no dia seguinte. Depois, mais uma vez, a sociedade era culta e de interesses múltiplos. As artes e as letras eram muito apreciadas, e, a eminência nelas era um caminho tão seguro para a fama como a proeza bélica ou a política. De tudo isto resulta claro que o florentino do século XIII tinha pontos de contacto com a vida de todos os lados, todas as portas do conhecimento, e podia explorar, se quisesse, cada um dos seus caminhos. Hoje em dia, foram levados mais longe, e uma vida é demasiado curta para um homem investigar a fundo mais do que um ou dois; mas naquele tempo, ainda era possível a um homem de inteligência aguçada, somada à de uma pessoa de inteligência aguçada, somada à diligência quase incrível, como nos parece, da Idade Média de um homem de inteligência aguçada, somada a uma diligência quase incrível, como nos parece, da Idade Média, para se familiarizar com tudo o que de melhor se tinha feito e dito no mundo.
É isto que constitui, ao mesmo tempo, o fascínio e a dificuldade da grande obra de Dante. É claro que, se nos contentarmos em lê-la apenas pelas suas “belezas”, pelo gozo estético de uma imagem aqui e de uma alusão ali, para a expressão incisiva de algum pensamento ou sentimento nas raízes da natureza humana, não haverá necessidade de um estudo mais aprofundado do que aquele que de uma tradução. De fato, dificilmente valerá a pena o original. O prazer, quase se poderia dizer o prazer físico, derivado da justaposição sonora de palavras, como a que obtemos
de Milton ou de Shelley, dificilmente pode ser genuinamente sentido no caso de uma das belezas da matéria, em contraste com as da forma, são as belezas da matéria, em distinção das da forma, são fielmente reproduzidas por Cary ou Longfellow.
No entanto, pode presumir-se com segurança que poucos estudantes inteligentes descansarão contentam-se com esta quantidade de estudo. Encontrará em cada esquina alusões que exigem explicações, doutrinas filosóficas que devem ser rastreadas até às suas fontes, julgamentos sobre pessoas e eventos contemporâneos a serem verificados. Em cada página, encontrarão problemas cuja solução ainda não foi tentada, ou foi ou apenas tentada da forma mais superficial. De geração em geração após geração, os leitores continuam a aceitar interpretações recebidas que só lhes dizem o que a sua própria inteligência poderia adivinhar sem outra ajuda que não seja a do próprio texto. Nenhum comentador parece ter ainda que, para compreender Dante a fundo, tem de se colocar ao seu ao nível de Dante no que respeita ao conhecimento de toda a literatura disponível.
As pedreiras mais óbvias de onde Dante obteve os materiais para a sua poderosa estrutura - a Bíblia, Virgílio, Agostinho, Aquino, Aristóteles – foram sem dúvida, foram muito bem examinadas, e muitas obscuridades que os comentários de Landino e outros apenas deixaram mais obscuras foram assim, mas ainda há muito a fazer. Se olharmos para a literatura que estava aberta a Dante, encontramos provas da sua universal. e encontrar o encontramos o bom bispo a moralizar assim a mutabilidade dos assuntos humanos, com especial referência à desagregação do Império em meados do século IX, "Não parece que a honra mundana dá voltas e mais voltas à maneira que a honra do mundo dá voltas e voltas à maneira de quem tem febre? Porque estes depositam a sua esperança de descanso numa mudança de postura, e por isso, quando têm dores, atiram-se de um lado para o outro, virando-se continuamente".
Não é demais dizer que não se pode folhear um par de páginas de qualquer livro que Dante possa ter lido, sem se deparar com uma passagem que se tem a certeza que ele leu ou, pelo menos, que contém ou, pelo menos, que contenha alguma informação que se tenha a certeza de que ele possuía. Uma verdadeira "biblioteca de Dante incluiria praticamente todos os livros em latim, italiano, francês ou Provençal, "publicados", se é que podemos usar o termo, até ao ano 1300. É claro que muitos livros em latim estavam (podemos dizer felizmente?) mas mesmo estes, seja, como foi sugerido, através de volumes como foi sugerido, por meio de volumes, agora perdidos, de "Extratos Elegantes", ou por qualquer outro meio, sabia-se evidentemente mais do que se pensa.
Devemos, no entanto, ter cuidado para não tratar Dante meramente como um repertório de curiosidades ou museu de bric-à-brac literário - um perigo quase tão grande como o de olhar para ele de um ponto de vista puramente estético. Ele tinha, sem mais do que qualquer outro homem da sua época, e é um dos meia dúzia dos maiores poetas de todos os tempos. Mas a sua reivindicação da nossa atenção assenta numa base ainda mais ampla do que essas duas qualidades permitiriam. Ele representa, por assim dizer a reabertura dos lábios da raça humana: "Enquanto eu estava a pensar, o fogo acendeu-se, e por fim falei com a minha língua." A velha literatura clássica tinha A última palavra foi dada com a morte de Cláudio; e embora continuassem e, embora continuassem a compor, muitas vezes com habilidade e inteligência, as histórias e crónicas que praticamente formavam os únicos escritos não teológicos da chamada "Idade das Trevas", as letras, no sentido pleno do termo, ficaram adormecidas por séculos.
ERIC PONTY
ERIC PONTY-POETA-MESTRE-TRADUTOR-LIBRETISTA
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