I
Quando imagino meus breves dias,
Aos mui que ao tirano Amor me atreve,
E em meu cabelo antecipar a neve,
Mais que os anos, as tristezas minhas.
Vejo que são suas falsas alegrias
Veneno no cristal da razão bebe,
Por quem o apetite voraz se atreve
Vestido de mil doces fantasias.
Que ervas do olvido há dado gosto,
Da razão, que, sem fazer seu artificio
Quer contrarrazão satisfazer-te?
Mas consolar-lhe pode meu desgosto,
Que es desejo do remédio indicio,
Remédio de amor querer encher-lhe!
II
Ó minha musa, apaixonada por palácios,
Tu, quando é janeiro lança seus ventos,
No tédio negro das noites de neve, busque
toras meias queimadas a aquecer os pés roxos?
Seus ombros manchados, eles ficarão quentes
Raios lua deslizam no vidro da nossa janela?
Sabendo que a bolsa e o paladar estão secos,
Tu vais colher ouro dos cofres azuis dos bosques?
Tu deves, a ganhar seu escasso pão da noite
qual menino de altar tédio balançar incensários,
vocais a os deuses nunca presentes Te Deums,
Agora, morrer de fome, deite seus encantos à venda,
Teu mergulho em choros pelos olhos de ninguém,
Para trazer diversão para à multidão vulgar.
III
Como o que escuta, a musa e conselheiro,
Está, porque não tinha olhado ao largo,
Naquele ar névoa e tenso nevoeiro,
Jamais de lá degrau primeiro de aquém.
E eu vi que ele cobria em novo aparte,
Mas tarda chegar está espera, amarga,
Pensa em ser sem esperanças lá punido,
Palavras de distante entendimento.
Dos raios que ministrou, como ajuda,
Qual vivo que estou mesmo finado,
Sob o fuzil, reduplicada a flor.
Flamas que em terrestre arder prosseguia,
Flocos de chamas como que traziam,
E muitos já jaziam pelas janelas!
IV
Aprovem bem o bem que um de vós fala,
E ainda mais, que cada homem é abarbado,
sejais desonrado de todo o vosso louvor;
Pois nesse lugar o seu valor é o descanso,
Próprio homem não o pode contar:
Mas que vero elogio ao vosso estado,
Pensa que falando ousado, eu digo ainda,
Dos prazeres que ainda chegam tardia.
Dizer que de amar e não ser amado,
Sendo boneco que mais sofre de amor,
Mantos dizem quanto mais há de Maio,
Por isso, humilde, rezo pra que não sejais,
Um homem cuja vida é viver desonrado,
Quer seja vero, quer não, isso mostra-me sábio.
ERIC PONTY
POETA-TRADUTOR-LIBRETISTA ERIC PONTY


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