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terça-feira, novembro 01, 2022

ludovico Ariosto e a Lírica do Soneto I - Trad. Eric Ponty

A literatura é uma instituição paradoxal porque criar literatura é escrever de acordo com as fórmulas existentes - para produzir algo que pareça um soneto ou que segue as convenções do romance - mas é também para desrespeitar essas convenções, para ir além delas. A literatura é uma instituição que vive expondo e criticando os seus próprios limites, por meio de testes o que acontecerá se se escrever de forma diferente.

A Poética que defini como a tentativa de contabilizar os efeitos literários por descrever as convenções e as operações de leitura que as tornam possível. Está intimamente ligado à retórica, que desde os tempos clássicos tem foi o estudo dos recursos persuasivos e expressivos da língua: das técnicas da linguagem e do pensamento que podem ser utilizadas para construir discursos eficazes. Aristóteles separou a retórica da poética, tratando da retórica como a arte da persuasão e poética como a arte da imitação ou representação. Tradições medievais e renascentistas, no entanto, assimilou as duas: a retórica tornou-se a arte da eloquência, e a poesia (uma vez que procura ensinar, encantar e mover-se) era um superior exemplo desta arte.

A poesia está relacionada com a retórica: a poesia é uma linguagem que torna abundante na utilização de figuras de fala e linguagem que pretendem ser poderosas, e, persuasiva. E, desde que Platão excluiu os poetas da sua república ideal, quando a poesia tem sido atacada ou denegrida, tem sido tão enganosa ou retórica frívola que induz em erro os cidadãos e chama extravagante os desejos. Aristóteles afirmou o valor da poesia ao concentrar-se na imitação (mimesis) em vez de retórica.  Argumentou que a poesia proporciona um seguro de saída para a libertação de emoções intensas. E alegou que modelos de poesia a valiosa experiência de passar da ignorância ao conhecimento. (Assim, no momento chave do 'reconhecimento' em trágico drama, o herói percebeu o seu erro e os espectadores percebem também.

A poética, como um relato dos recursos e estratégias da literatura, não é redutível a uma conta de figuras retóricas, mas a poética pode ser vista como parte de uma retórica alargada que estuda os recursos para os atos linguísticos de todos os tipos.

A Teoria literária que se concentra em debates de poesia, entre outras coisas dá importância relativa das diferentes formas de ver os poemas: um poema é tanto uma estrutura feita de palavras (um texto) como um acontecimento (um ato do poeta, uma experiência do leitor, um acontecimento da história literária). Para o poema concebido como construção verbal, uma questão importante é a relação entre o significado e as características não-semânticas da língua, tais como som e ritmo. Como fazer as características não-semânticas da linguagem trabalhar? Que efeitos, conscientes e inconscientes, têm eles? O que tipos de interação entre características semânticas e não-semânticas podem ser esperado?

Para o poema como ato, uma questão-chave tem sido a relação entre o ato do autor que escreve o poema e o do orador ou "voz que aí fala. Este é um assunto complicado. O autor não fala o poema; para o escrever, o autor imagina-se a ele próprio ou outra voz que o diga como por exemplo esse soneto de número I de Ludovico Ariosto: 

Porque, Fortuna, o que o Amor me deu,
Contender: marfim e ouro forneceram,
Ostra as pérolas e outro belo tesouro,
Quem me achava rico e tão abençoado?

Era para você eu estou proibido,
Não, eu me alegre, e na pobreza eu morro;
Não com mais guarda foi na costa moura,
Desta maçã de Hespérides servida.

Quem estava na preciosa madeira,
Centena custódia pra em riquezas são,
Esse Amor já me fez digno em fruição.

Sendo ele eu culpo; ele me deu o presente;
Que poder é dele, que se no seu reino,
O que me dá não é defender bem?

O poema parece ser um enunciado, mas é o enunciado de uma voz de estatuto indeterminado.  Ao Ler as suas palavras é colocar-se na posição de as dizer ou então imaginar outra voz a dizê-las - a voz, dizemos muitas vezes, de um narrador ou orador construído pelo autor. Intermediário entre essas duas figuras é outra figura: a imagem de uma voz poética que emerge do estudo de uma série de poemas de um único poeta. A importância destes diferentes números varia de um poeta para outro e de um tipo de estudo crítico para outro. Mas em pensando no lírico, é crucial começar com uma distinção entre a voz que fala e o poeta que fez o poema, criando assim está figura de voz.

A poesia lírica, de acordo com um ditado bem conhecido de John Stuart Mill, é enunciado ouvido por acaso. Agora, quando ouvimos uma afirmação que envolve a nossa atenção, o que nós caracteristicamente fazemos é imaginar ou reconstruir um orador e um contexto: identificando um tom de voz, inferimos a postura, situações, preocupações e atitudes de um orador (por vezes coincidentes com o que sabemos do autor, mas muitas vezes não). Este tem sido a abordagem dominante da lírica no século XX, e uma sucinta pode justificar que as obras literárias sejam imitações fictícias de 'reais afirmações do "mundo". As letras, então, são imitações fictícias de um enunciado. O que pode levar alguém a falar assim? O modo dominante de apreciação da poesia nas escolas e universidades tem estado em foco sobre as complexidades da atitude do orador, sobre o poema como da dramatização dos pensamentos e sentimentos de um orador a quem se reconstitui.
TRAD. ERIC PONTY
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

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