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quarta-feira, outubro 26, 2022

UTOPIA DAS ISOTOPIAS PARA KARINE - ERIC PONTY

Apesar não seja versada estrelas,
Presumo tu saber astronomia,
Não trazer sorte, Karine má ou boa,
Nem prever fome outro infortúnio.

Não lhe anuncio a sorte qualquer detalhe,
Nem em cada vento, chuva ou trovão;
Nem consigo lhe prever os avatares,
Decifrar lhe firmamento duma urbe.

Teus olhares, estrelas obstinadas,
Que são da fonte da minha ciência,
Dizem-me, se semeares tua linhagem.

Do triunfo da verdade e da beleza,
Por outro lado, se desistir, prevejo,
De que o teu final será o teu fim.


ll

Se é causa deste amor produtivo,
De uma diversidade destes afetos,
Karine, que, produzindo todos eles,
Sê te aperfeiçoar assim si mesma.

Natural é a inveja adora ser perfeita?
São eles, que há amor, pois só podem dar,
Humidade da água qual fumo do fogo,
Não são, dizem, de amor, pois só podem dar.

Da metade do preço justo? Assim,
à própria conveniência, tão grosseira,
Não são, dizem, de amor bastardos filhos.

Porque a finura, que é em regra, tesoureiro,
Faltou o instrumento tal assunto ou peão?
Tal discurso sem alusões teu empenho.

lll 

Amor chorou e eu com ela por vezes,
Dos quais nunca que estive mais longe,
Apontar pra efeito acerbos e estranhos,
Da sua alma dos seus nós desatar;

Cá, quando a porta reta Deus transformou,
Com coração içando ambas as mãos pra o céu,
Agradeço-lhe apenas orações humanas,
Benigna, o seu mérito ouviu à voz.

E se regressar à vida amorosa,
Pra o belo desejo lhe vire costas,
Achados no caminho, valas, cômoros.

Foi pra mostrar como é espinhosa a rua,
E como a subida é íngreme e dura,
Onde o vero valor concorda o homem.


lV

A propriedade real, Ó Karine,
Dos gritos que dão, são, mas de tormentos,
Por lhe faltar razão, carece instrumento,
De fingir, só é não bem irracional.

Dos frenéticos que, no exterior chamam,
Caem por terra, não há ninguém que clame,
Se despedaçar, não há quem lhe chame,
À prova verdade todos os exemplos.

Com outra cor, estes provam de si próprios,
Se já não têm pai esse amor, depois são eles,
Doutras demonstrações, por mui bem olho;

Da febre ardente seu vero delírio;
Aquele que não lhe sente, amoroso,
Do menor vestígio, gozar bonanças.

V

Vós, buscais faceirar velo com louro,
De estilo, pra belo descanso ao monte,
E com quantos passos firmes, Karine,
D´almas sábias, cultas e peregrinas.

Neste mar, que não tem fundo ou final,
Velas largas diante de mim navegam,
E, Honras e graças a duma cantata,
Minha senhora tão rara e divina:

Porquê sujeita tão sublime e só,
Sem qualquer outra ajuda de engenho,
Podes para si elevar-nos ao céu!

Só eu venho para provar de amores,
Quanto eu a amo, o quanto eu a amo;
Mas dos seus elogios não alcanço alvo.

V.l.

Se eu achar que da perfeição perdura,
Apenas um instante que está a crescer;
Que nesta imensa vida perpetuem,
De estrelas, os interesses arcanos;

Se eu vir que dos homens e das plantas,
Florescer à mercê do próprio céu,
Dos jovens gabam-se desta sua seiva,
Diminuir quando chegam ao seu apogeu;

Que então, embora inconstante vida,
Vendo a vossa juventude, que é ótimo,
Sei que do tempo e da ruína conspiram.

Por dar gorjeta durante o dia, à tarde,
Em nome do meu amor, luto contratempo:
Do que ele lhe tirar, eu reintegrarei.


VII

Quem crerá amanhã nos meus poemas,
Sê apenas jazerem cheios das graças?
E ainda assim, feito um tumba, ensinam mortos,
Mal metade e do resto é feito silêncio.

Pudesse descrever os vossos olhos,
Enumere uma a uma as suas belezas,
Lhe diriam: "O poeta mente; sem rosto,
Reúne em ti tais dotes celestiais".

Riam-se do papel amarelado,
Onde há mais mentiras do que palavras,
É produto do fervor de um velho poeta.

Que atestou suas estrofes pouco usuais,
Tendo um filho vivo, você viveria,
Duas vezes: Uma vez minhas rimas.


VIII

É oferecido aos olhos vitrais face,
Sendo Ilustrada a tanto sol, tua chama,
Quanto aspirar, consagrado altar,
Referente teus pés, alargará!

Da justiça divina admirava ali,
Estava cativo, que aí apenas Tudo,
Deste rigor, como se reluz: céu,
Que detestar quem me ama, aparta flor.

Para ambos atormentar meu sentido:
Deste, com que pedir um que não tenho;
E este, não ter o que lhe peço faça.

Não se trata de correio de amor;
Das causas tendo as superiores:
Ou gerar perfeições que tratam rima.

IX

Sim, medida prova novo deleite,
No meu amor, alegrias não usadas tais,
Ver naquele cinturão angelical,
De milagres e efeitos sempre novos.

Por isso gostaria de ter conceitos,
Palavras certas a tanto trabalho,
Fossem escritas, cantadas por mim,
Feitos pra mil intelectos altos.

E escutar os outros que virão ecos,
Com quanta inveja se vangloriam tais,
Do meu amoroso do meu feliz dano;

Veria a minha verdadeira glória,
Quanto luz e força têm os belos olhos,
Fazer outros felizes, mui embora!
X

Porém entorno em doce face, o tom,
Teu dizer me relembre quando aparta,
E mais não dizer sendo mais respondo,
Torna-se oblíquo olho direto expresso.

Olhar-me um pouco abaixa à luz face,
Dentre cegueira de onde era egresso,
É minha musa ao som do angélico clarim,
Quando poder opositor lhe desponte.

Todos relembrarão a Musa, assim,
Tornando à carne e tornando efígie,
Da sentença escultaram um não fim.

Das sombras desta chuva tais passos lentos,
Aos mais do que atos urdiram benignos,
Falando um pouco da vida vivida.


XI

Brincar, o meu olho, ser pintor, pintado,
Sobre o meu Lenheiro a sua bela efígie;
Meu corpo fixou a moldura e o pintor,
Dando-lhe perspectiva, pondo à arte.

Se de olhar através do seu talento,
Verá bancada a sua cópia de vera,
Para sempre no sótão do meu peito,
Que fez seus olhos destas janelas.

Os olhos que entregam-se uns aos outros:
Desta minha esboçou-o a si e aos seus,
Janelas do meu peito, deixar entrar.

Sol para se deleitar com seu desenho,
Mas apesar da sua arte, o meu olho é,
Desenhar o que vês, não que escondes.

XII

Tenho frequente o sonho tão estranho,
Dum estranha que eu amo, de que me ama,
E de que não é sempre a mesma coisa,
Nem diferente, e ela ama-me e compreende.

É porque ela compreende-me a mim,
É só para ela que ela deixa enigmas,
Pra ela. E suor na minha face pálida,
Só ela, sozinha com choro, que pode.

Seu cabelo é loiro, vermelho ou negro,
Não sei. Nem o seu nome, que é doce tom,
Como dos entes prezados que a Vida alça.

Seu olhar é como olhar duma estátua,
E a sua voz, tão distante, tão profunda,
Deixei aqueles que amava e fui morto.
ERIC PONTY

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