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quarta-feira, outubro 26, 2022

ISOTOPIA OU TRASLAÇÃO E UMA VERDADE - ERIC PONTY

Esse seu modo habitual de ver os fatos eu só pondero imparcial no grau em que também creio que Leitor-Crítico não tem a menor dolo pelo nosso distanciamento. Mas eu também não tenho a menor dolo. Se pudesse levá-lo a conhecer isso, então seria admissível, não uma nova existência — para tanto nós dois estamos velhos demais nesse barco — mas sem imprecisão uma espécie de paz; não a cessação, mas certamente um abrandamento das suas intermináveis recriminações. Curioso Leitor-Crítico tem alguma percepção daquilo que eu quero falar. Assim, por exemplo, me disse há pouco tempo com essas traduções. Ora, no que me diz deferência, nunca oscilei da sua afeição, mas medito imperfeita esta advertência. Leitor-Crítico não sabe fingir, é verdade, mas querer afirmar só por esse pretexto que os outros fingem, é ou mera mania de ter razão e não se aventa mais, ou então — como de ocorrência acho — o aparecimento em vigília de que os casos entre nós não vão bem, e, de que Leitor-Crítico tem a ver com isso, porém sem dolo. Se verdadeiramente reflete assim, então estamos de ajuste, e, para tal aparecimento lhe demostro uma tradução de Francesco Petrarca que é mais ao menos assim o dê vinte dois: 

Para qualquer animal viva à terra,
Ao menos que alguns que odeiem o sol,
Tempo de trabalho é tão longo ao dia;
Mas quando o céu acende as estrelas sal,
Regressam casa, e que espreitam no ermo,
Deitar pelo menos até ao amanhecer.

E eu, desde o belo amanhecer,
Sacudir a sombra em torno da terra,
Acordar os animais em cada mata,
Nunca triguei os suspiros com sol;
Depois, quando vejo estrelas em chamas,
Vou chorando e desejando o dia.
Quando à noite expulsou o dia livre,

E da nossa escuridão faz nascer,
Olho penosa pra as cruéis estrelas,
Quem me fez desta terra sensível!
TRAD. ERIC PONTY
ERIC PONTY

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