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domingo, outubro 30, 2022

DANTE DA MAIANO E A VOZ DO METRO - TRADUÇÃO E ENSAIO - ERIC PONTY

O lírico não pretende ser uma representação dum evento, mas para ser ele, o próprio um evento, por isso é necessário conceder um relato lírico de primazia sobre o que acontece em e por meio da letra, os acontecimentos distintivos do discurso lírico, o que torna o ritmo e a repetição centrais.

Muito para além da ligação histórica da letra à recitação cantada e do uso moderno que se enfatiza a estreita ligação com o ritmo, chamando "letra" às palavras das canções, não é o ritmo acima de tudo que faz da lírica atraente, sedutora e memorável? Se a letra é uma linguagem aprazível, uma linguagem que dá prazer, os seus ritmos e padrões sonoros podem ser largamente responsáveis. Se a letra é memorável, a linguagem que pede para ser aprendida de cor e repetido, recitado - isto não é também por causa dos seus ritmos? Ritmo dá ao lírico uma qualidade somática que rompe em outras formas alargadas carecem - da experiência visceral do ritmo que o liga ao corpo e, muitas vezes de forma bastante duvidosa, aos ritmos de vários processos naturais - e assim contribui para um tipo de prazer difuso dos promovidos pelos romances e um sentido de alteridade sendo como se alguém estivesse a fazer uso da minha máquina para viver".

Embora o nosso corpo tenha os seus próprios ritmos, de respiração e de batimentos cardíacos, nossa competência rítmica a maioria das vezes responde ao ritmo como algo exterior que, no entanto, nos envolve, atrai-nos a bater no tempo com ele, pressentir um padrão, em ruídos, movimentos, ação no mundo. O ritmo é uma das principais forças através das quais os poemas nos assombram, apenas uma vez que os próprios poemas são assombrados por ritmos de outros poemas. A tenacidade com que os ritmos podem alojar-se na nossa memória, como a melodia de uma canção força, encoraja o pensamento de forças ocultas, como se os esforços potentes devessem ter causas misteriosas ausentes.

Se o ritmo é fundamental para o apelo da lírica, é largamente negligenciado por crítica, em parte porque a escansão tradicional dos pés apenas limitou acesso aos ritmos. "Como variar livremente o medidor iâmbico? Como contador trosquio livre? Como alternância entre o iâmbico e o troqueu"? São diferenças entre a letra e os padrões de prosódia do pé implicam que é rítmica altamente complexa e cheia de incertezas. Este é o ritmo de muitas canções e de verso popular e também momentos altamente ritmados de verso literário. Num divertido levantamento de outras introduções à poesia, se observa como frequente em discussões que podem quebrar ou tornar-se excessiva elaborado quando confrontado com poemas deste tipo, com um ritmo pronunciado que é fácil de apreender pelos leitores.

Este é o ritmo é o aspecto dominante do poema. Do que nós fazemos do poema quando aplicamos pressão interpretativa, colocá-lo em um ou outro contexto temático ou mítico ou histórico, a fim de obter um significado, passa a ser relevante, certamente, mas pode-se perguntar se estes esforços interpretativos não são, em certa medida, o produto de um desejo de justificar que o porão que sequências rítmicas tão estranhas, mas profundamente familiares, têm sobre nós.

Este é o ritmo é o aspecto dominante do poema. Do que nós fazemos o poema quando aplicamos pressão interpretativa, colocá-lo em um ou outro contexto temático ou mítico ou histórico, a fim de obter um significado, é relevante, certo, mas pode-se perguntar se estes esforços interpretativos não são, em certa medida, o produto de um desejo de justificar o porão que sequências rítmicas tão estranhas, mas profunda familiares, têm sobre nós.

Tais versos têm o poder de se fixar-se na memória mecânica independente de qualquer tentativa de os recordar, e em vez de nos considerarmos vítimas de alguma susceptibilidade jejuada ao ritmo independente do significado, vítimas da sua "temível simetria", dedicamo-nos a intrincadas explorações temáticas, que contam para nós como uma resposta ao poema, mas na realidade deixam o poder rítmico inexplicável, por exemplo como neste soneto de Dante da Maiano do qual partimos em uma ideia isotópica:

Non canoscendo, amico, vostro nomo,
De onde se move quem fala comigo,
Sei bem que é a ciência dum grande homem,
Pra de quantos, conheço ninguém tenha.

E, pois, pode-se conhecer bem um homem,
Casco, se ele tiver juízo, que bem parece,
Convença, então elogiar-se sem fazer,
A minha língua é forte do que fala.

Amigo (certas sondas, pra que a amada,
Per amore aggio), sacci ben, chi ama,
Se não for amada, a maior boneca.

Pra tal tristeza ele mantém no quarto,
Todos outros, chama-se chefe em cada um:
Resulta a coleção em dor que o amor dá.

A maior parte das discussões sobre o ritmo foca-se de fato no metro, e isso pode muito bem parecer ser o lugar a começar, uma vez que a característica mais saliente deste ritmo é vigorosa linha de quatro batimentos destas quadras. O problema da relação entre o ritmo e o metro é de longa data: entre os gregos já havia uma divisão entre o rhythmikoi e o metrikoi; do qual o primeiro via o ritmo poético como pertinente com a música, uma arte temporal, e esta última tratou-a feito uma estrutura de tipos de sílabas. Mas o vasto corpo do trabalho na linha de verso centra-se no contador, que há muito é visto como o base do ritmo, e durante a maior parte da história da lírica, foram escritos poemas em relação a molduras métricas específicas, padrões específicos de sílabas por que ritmo? De tipos particulares, em uma ideia isotópica. 

Em termos mais simples, a prosódia tradicional descreve os contadores ingleses, em termos tirado do grego, pelo tipo de pé dominante (iâmbico, troqueu, afásicos, dáctilo) e pelo número de pés por linha, mas o artefato do pé não corresponde a unidades de línguas modernas, e os analistas devem multiplicar as variações, em infinitas pequenas alterações, para captar o real padrão de tensões em verso acentual-silábico.

TRAD. ERIC PONTY
POETA,TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

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