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terça-feira, outubro 11, 2022

CEMITÉRIO MARINHO - PAUL VALÉRY - Trad. - ERIC PONTY

Μή, φίλα ψυχά, βίον ἀθάνατον 
σπεῦδε, τὰν δ' ἔμπρακτον ἄντλει μαχανάν. 
Pindare, Pythiques, III.
Teto calmo onde marcham pombas idas,
Entre palpitar pinho, entre jazidos,
Meio-dia justo compôs fogo estar.
Ô mar, ô mar do sempre reiniciar!
Ô laurel após pensamento olhar
Calmo na demora deuses resguardar! 

Qual lide pura fim chispa consuma,
Diamante imperceptível mui escuma
Que desta paz sempre se mantiver
Quando no abismo sol que se repousa
Faz Obra pura duma eterna causa
Tempo cintila, sonho é saber.

Templo tempo, só anseio resume,
Ascender ponto puro me acostume,
Me abarcar desse meu olhar oceano,
Deuses minha oferta suprema aleia,
Cintilação serena que semeia,
Sobre altura desdém soberano.

Eterno ouro templo simples Minerva,
Massa da calma e visível reserva
Água impassível olho vigiar certo
Tanto sono sob véu flâmula calmo
Ô silêncio meu!... Edifício dessa alma
Saturam teto mil telhas! Teto!

Que da fruta fundida do prazer,
Como delícia troco ausência ter,
A Boca onde forma assassina dar
Fumo cá minha futura fumaça
Céu canta alma consumir minha farsa
Mutação rumor margem ao trocar.

Belo céu, vero céu meu olhar tocar,
Após tanto orgulho, tanto estranhar 
Ócio mais plena possibilidade
Me desamparo este brilhante espaço,
Casas dos mortos minha sombra passo
Domar frágil móvel igualdade!

Exposta alma solstício desse archote,
Justiça admirável, sustenta corte
Luz das armas de sem piedade arde!
Me rendo puro espaço primeira tarde,
Olhar-me! Entrego-te luz que me farde
Suposta sombra morta meio alarde!

Me abdico minha solidão mim mesmo
Perto imo, fonte poema afim mesma
Entre evento oco me traço tão puro 
Acatando ao meu tão grande eco interno
Amargor sombra sonora cisterna
E daqui sempre eu recrio um futuro!

Fôreis vós cativas infiéis folhagens,
Golfo comilão tísicas ramagens,
Sobre meu olhar cerros tão secretos,
Meu corpo puxe lerdo fim metade
Rosto atire a carcaça terra igualdade
Chispar penso meus ausentes retos!

Cerro, sacro, cheio ardor sem matéria,
Fragmento terrestre oferta à luz féria
Este lugar pleno dominado facho
Compôs ouro, pedra árvores sombrias
Onde tal mármo vibrou sombra´ egrégias,
Mar fiel dormir sobre tumba ancho.

Cã esplêndida me afaste os idolatras,
Quanto só pastor Sorriso andrólatra 
Apascento misteriosos carneiros 
Alvo rebanho das calmas das tumbas
Afastem-se ajuizadas dessas pombas
Sonhos vãos, anjos curiosos herdeiros.

Aqui vindo a preguiça é futura,
Do claro inseto raspou a secura,
Tudo inflamar desmuda asila ar
E não sei qual a sua ríspida essência
Vida é larga, está livre de ausência,
Azedume doce, d´alma aclarar.

Estes Mortos jazidos cá da terra,
Que aquecer seca mistério enterra
Alto do Meio-Dia dia sem movimentos
Se pensa persuadir para si feito
Rosto findo com diadema perfeito
Eu sou o mais abstruso movimento.

Não tem só a mim refrear os medos
Lamentos, dúvidas, constrições credos
Seu absurdo que de seu grão do diamante...
Mas seu ocaso é duns ásperos mármores,
Povo vagar entre estirpes das árvores
Já tomaram partido já lentamente.

Fundiram cerrada ausência do ter
Barro rubro bebeu alva casta do ser
Dom Vida passou às flores alento!
Onde estão mortos, frases familiares
Pessoal arte, almas singulares 
A Laroz fia onde formada em lamentos.

Gritos argutos moças aborrecidas,
Dente, olho as pálpebras umedecidas,
Aprazíveis seios bulir com fogo
Sangue fulgir dos lábios se renderam
Extrema oblação, dedos defenderam
Tudo vai sob a terra fundiu ao jogo.

Vós grande alma esperas sonho dar,
Não tenham cores calúnia soar, 
Olhos carne faz cá fonte ouro sim,
Cantarás ainda fores vaporosa,
Vá! Fugir de tudo! Aspecto é poroso,
Santa sofreguidão morreu assim.

Magra eternidade breu doirada,
Consoladora horrível laureada,
Da morte fez um seio maternal,
Belo embuste que devota artimanha 
Quem não conhece não recusa sanha
O Crânio vazio este riso eternal.

Pais profundos, cabeça inabitada,
Que já são peso de tantas pazadas
Terra confundir seus passos largos
Vero roedor um verme esmagador
Não mais hão dormir taboa calor,
Vital a vida não quita mais amargos!

Amor talvez mesmo mim raiva certo
Seu Secreto dente está tão por perto
Que algum nome venha lhe convir!
Que implica! Vê! Almeja! Sonha! Toca! 
Minha carne manta espera leito oco
Ao vivente escravizado caibo vir!

Zenão cruel eleito Zenão d´Eléia!
Mas tu sentes via desta seta ideia,
Vibrar voeja e não voa mais seus laços  
O som renasceu seta mata rusga
Ah! O sol... Qual a sombra de tartaruga
Alma Aquiles inerte grandes passos!

Não! Não!... De pé em eras consecutivas!
Arder meu corpo formas pensativas!
Beber meu seio renascido do vento,
Dum fresco dum mar de tão abismado 
Chega minha alma... ô pujança salgada! 
Correr onda irromper que viva alento.

Sim! Grande mar delírios ambíguos,
Tez pantera clâmide poro exíguos
Quilíades mil ídolos mar do sol!
Hidra total livre azul dessa carne 
Morder sua cauda chamejar do farne 
Tumulto silêncio igual feito sal!

Vento se alçar!...Breve viver tentar
Abrir e refechar meu livro imenso ar,
Pó tentou desmudar rocha aduelas,
Voejem páginas das quais ofuscadas
Rompam vagas! Se rompam d´águas guardas,
Teto tranquilo onde picam as velas!

PAUL VALÉRY - Trad. RENOVADA - ERIC PONTY
POETA, TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY

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