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sexta-feira, setembro 02, 2022

AZUL BABEL - A ESCRITA E OS MUNDOS -- RODRIGO PETRONIO - ED LARANJA ORIGINAL

 V. A Escrita da Poesia: Eric Ponty e a Poesia em Tradução

O presente trabalho de seleção e tradução de poetas de línguas e nacionalidades diversas, levado a cabo pelo poeta e tradutor Eric Ponty, amplia o horizonte da poesia brasileira e da poesia de língua portuguesa em diversos sentidos. Em primeiro lugar, embora alguns dos poetas traduzidos sejam conhecidos do público, parte destes poemas nunca fora traduzida ao português ou encontra-se há muito fora de circulação. 

É o caso de Paul Èluard, Petrarca, Shakespeare, John Keats, Ezra Pound, Soror Juana Inés de la Cruz, George Seferis e Paul Verlaine. Os poemas selecionados por Ponty se somam ao repertório de traduções destes poetas realizadas por Onestaldo de Pennafort, Péricles Eugenio da Silva Ramos, Jamil Almansur Haddad, Guilherme de Almeida, Josely Vianna Baptista, José Paulo Paes, Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Dirceu Villa, entre outros poetas-tradutores, antigos e atuais. Desse modo, este trabalho de Ponty contribui não apenas para a formação de um cânone nacional da poesia de língua portuguesa, mas para a formação de um cânone transnacional de poesia em língua portuguesa. 

Em outros casos, a seleção mesma dos poetas produz uma leitura da tradição e um diálogo crítico com as respectivas literaturas e línguas às quais esses poetas pertencem. Ao lançar luzes sobre a poesia de Juan Boscán, François de Malherbe, Luis de Góngora y Argote e Julio Herrera y Reissing, embora cada um deles seja clássico a seu modo, além de traduzi-los, Ponty ressalta o ato mesmo da seleção. Nesse aspecto, destaca-se a escolha da poeta renascentista Gaspara Stampa, cujos belos poemas lançam luzes sobre uma voz feminina italiana do século XVI.

Os recursos de tradução utilizados por Ponty precisariam ser analisados caso a caso, conforme a língua, a forma, o gênero, a dicção e a prosódia de cada poema, de cada língua e de cada poeta. O que chama a atenção em toda obra é a ênfase conferida ao ritmo, mais do que à rima. Nesse sentido, mesmo sendo a maior parte desta antologia feita de poemas de formas fixas, com esquemas de rimas regulares, como sonetos e canções, Ponty optou por traduzi-los utilizando versos brancos (sem rima). Em outros momentos, vale-se de rimas toantes (dissonantes embora convergentes) ou assonantes (semelhantes embora de sons distintos) para sanar os insolúveis impasses entre forma e sentido, impasses estes que sempre se oferecem aos tradutores. 

Tendo isso em vista, está antologia contribui para nos mostrar novas facetas da tradução de poetas e poemas conhecidos. Ao mesmo tempo, apresenta-nos um ato crítico e criativo de organização. Ponty nos oferece assim alguns modos de abordar a poesia escrita nas respectivas línguas dos poetas. E, mais do que isso, convida-nos à infinita tarefa de criação de um cânone transnacional de poesia em língua portuguesa. Tarefa essa que tantos tradutores e tantos antologistas do passado não se cansam de nos sinalizar. Talvez esse seja o desejo, subterrâneo e compartilhado, de todos os poetas, independente das línguas e das pátrias nas quais inscreveram suas vozes. 

Rodrigo Petronio
Rodrigo Petronio nasceu em 1975, em São Paulo. Escritor e filósofo, atua na fronteira entre literatura, semiologia, narratividade e filosofia. Professor Titular da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Álvares Penteado [FAAP]. Pesquisador associado do Centro de Tecnologias da Inteligência e Design Digital [TIDD|PUC-SP], sob a supervisão de Lucia Santaella desenvolveu uma pesquisa de pós-doutorado sobre a obra de Alfred North Whitehead e as ontologias e cosmologias contemporâneas [2018-2019]. Autor, organizador e editor de diversas obras. Doutor em Literatura Comparada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro [UERJ]. Desenvolveu doutorado sanduíche como bolsista Capes na Stanford University, sob orientação de Hans Ulrich Gumbrecht. Formado em Letras Clássicas [USP], tem dois Mestrados: em Ciência da Religião [PUC-SP], sobre o filósofo contemporâneo Peter Sloterdijk, e em Literatura Comparada [UERJ], sobre literatura e filosofia na Renascença. Atualmente atua na FAAP como professor-coordenador de dois cursos de pós-graduação: Escrita Criativa e Roteiro para Cinema e Televisão. Criou e ministrou durante dois anos o Curso Livre de Filosofia [2015-2017] e ministra desde 2014 a Oficina de Escrita Criativa Casa Contemporânea. Há quinze anos ministra oficinas e cursos livres em diversas instituições como a Casa do Saber, a Fundação Ema Klabin, o Sesc e o Museu da Imagem e do Som [MIS], onde criou e coordenou o Centro Interdisciplinar de Narratividade [2012-2014]. Atua no mercado editorial há 24 anos [1995-2019], tendo trabalhado em para dezenas de editoras em centenas de livros como editor, preparador, revisor, copidesque, redator, tradutor e autor. Tem poemas, contos e ensaios publicados em revistas nacionais e estrangeiras. Organizador dos três volumes das Obras Completas do filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva [Editora É, 2010-2012]. Coorganizador com Rosa Alice Branco do livro Animal Olhar [Escrituras, 2005], primeira antologia do poeta português António Ramos Rosa publicada no Brasil. Divide com Rodrigo Maltez Novaes a coordenação editorial das Obras Completas do filósofo Vilém Flusser pela Editora É que prevê a publicação dos primeiros vinte títulos entre 2018-2020. O livro Pedra de Luz foi finalista do Prêmio Jabuti 2006. A obra Venho de um País Selvagem recebeu o Prêmio Nacional ALB/Braskem de 2007, além de ser contemplada com o Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional. 

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