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sábado, junho 25, 2022

ELEGER MINHA PAISAGEM - MARIO BENEDETTI - TRAD. ERIC PONTY

Se pudera eleger minha paisagem
de coisas memoráveis, minha paisagem
do outono desolado,
elegeria, roubaria está rua
que é anterior a mim e a todos.

Ela devolve minha observação inservível,
Já que fazem apenas quinze ou vinte anos
quando a casa verde envenenada aos céus.
Por isso é cruel deixá-la recém entardecida 
com tantos balcões como só ninhos,
E tantos passos dos quais nunca esperados.

Aqui estarão sempre, aqui, os inimigos,
Esses os espiões na solidão,
Que em pernas de mulher que arrastaram aos meus olhos
cheios da equação de dois incógnitos.

Aqui há pássaros, chuva, alguma morte,
folhas secas, buzinas e nomes desolados,
nuvens que vão crescendo em minha janela,
contudo a humidade trai lamentos e moscas.

Sem embargo existe também o passado
com suas súbitas rosas e modestos escândalos
com seus duros sons de uma ansiedade qualquer
Em sua insignificante começam de recordação.

Ah sim pudera eleger minha paisagem,
Elegeria, roubaria está rua,
Está rua recém entardecidas
E na que encarniçadamente revivo
E dela que sei com estrita nostalgia
O número e o nome de suas setenta árvores.

Mario Benedetti, 1980 – Trad. Eric Ponty

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