Pesquisar este blog

sexta-feira, junho 17, 2022

Charles Baudelaire - Les fleurs du mal - 1861 - Trad. Eric Ponty - Dois Poemas

CORRESPONDÊNCIA

Natureza é um templo onde os pilares vivos,
Por vezes surgem palavras vezes confusas,
Homem passar por florestas entre os símbolos,
Que nos observam com olhares familiares.

Como longos ecos que de longe se fundem
Numa unidade profunda e já tão sombria,
Vastos como da noite e como dessa luz,
Perfumes, cores, sons respondem uns aos outros.

Há perfumes tão frescos quais carne das crianças,
Tão suaves como oboés, verdes como dos prados,
- E outros, corruptos, ricos e de tão triunfantes.

Ao terem expansão de coisas infinitas,
Tais o âmbar, tais almíscar, benjoim, de incensos,
Cantam transportes do espírito, dos sentidos.

A SERPENTE QUE DANÇA

Quão eu adoro ver, prezada apática,
Do seu belo corpo,
Quão um pano cintilante,
Ao brilhar na pele!
Seu cabelo profundo
Com perfumes pungentes,
Mar perfumado e vagueaste
Com ondas azuis e castanhas,
Como o despertar dum navio,
No vento da manhã,
A minha alma sonhadora zarpa
Para um céu distante.
Os teus olhos, onde nada é revelado
De doçura ou amargura,
São duas joias frias em que se permutam,
Qual ouro com ferro.
Vê-la percorrer em cadência,
Da linda renúncia,
Parecer uma serpente dançarina,
No fim de uma bandeira,
Sob o peso da tua preguiça
A tua cabeça infantil,
Balança com a suavidade
De um elefante jovem,
E o teu corpo dobra, e estica-se,
Como um belo exemplar
Que roda dum lado para o outro, 
mergulhar teus pátios na água.
Como uma onda de cheia 
briosa pela fusão
Dos glaciares que nos roncam,
Quando a água da tua boca sobe,
À beira dos teus dentes,
Acho estou a beber vinho da Boémia,
Amargo e vencedor,
Um céu líquido que se espalha
Tais estrelas no meu coração.
Charles Baudelaire -Trad. Eric Ponty

Nenhum comentário: