As aves do espaço aéreo do Poeta Eric Ponty bicam a órbita do silêncio, logo
que saltam do colo do amanhecer. O escuro da noite, já sangrante de aurora,
bocejava na cadeira de balanço, começando o dia em estado de assovio. A
monotonia foi a um labiríntico patíbulo, mas sem a corda de Ariadne: Eric Ponty
sacode a monotonia pendurada ao badalo de um sino. Sino de perplexidade e
anunciação. Os gritos da noite desbotam, ainda ecoam por seus abismos, enquanto
o poema de Eric sacode o mercúrio de um Sol vermelho. É aí que o cravo sangra o
seu rubro, enquanto se lança à lança do Poeta. E assim o dia rouba o sangue
para o vermelho das madrugadas, e para a já anunciada transparência do dia. A
lança do mestre-maestro Poeta é a batuta que rege a pauta das manhãs.
Dia claro. Face a face, o Poeta abre os braços. A mão consome as palavras e
dilui os espelhos do exílio, derrete os relógios de Dali. No espanto de
existir, o grito de não saber. De não estar, estando. O Poeta vive em estado de
palavra, mas é ele quem põe o sobretudo e visita o cemitério da lua, mesmo que
esteja apagada para alguns. Entre as ferramentas que Eric Ponty leva em seu
bolso e suas mangas há um sextante para o mar das idéias e uma bússola que
aponta o norte, mesmo que o norte não seja aquele da ciência. Não importa: no
final da estrada, nossas entranhas e mais nada. Eric Ponty é o poeta que
alucina no porão de sua própria oficina. Onde o rosto do delírio se recompõe e
se refaz. Foi então que percebeu o drama de um errante: Narciso nunca viu
espelho algum, apenas o próprio rosto envelhecido e triste.
Quando Ariel sentou-se, a mesa abriu uma clareira para o salmo do silêncio.
Eric veio em seguida. Chegou ao mundo das páginas nascido do ventre da luz.
Conversou com Ariel e com o silêncio. E rascunhou um manuscrito durante a ceia
de pão e água. Não há fome, o poema não receia. A noite vem e murmura. Às
vezes, sopra às flautas da tempestade. Serão nelas que os anjos anunciam as
milícias do Senhor?
O infinito é uma espera sem prazo. Seja terna ou não, forja no Poeta a palavra
eterna que o habita. E o infinito. A poesia de Eric não usa máscaras. Fim e
início, espaço e tempo. Para ele, a brandura da morte é tão eterna quanto um
sorriso infantil. Basta uma praia e um poeta como ele para que, no oitavo dia,
seja criado infinito. Quantas partículas de areia cabem no metro quadrado do
existir? No vidro do tempo, o verbo se inscreve por outros modos. Poeta é
alguém que, como Eric Ponty, põe venda nos olhos e viaja do início ao
precipício.
O paraíso e seus enigmas metaforizam o dia da inauguração do mundo. Creio que
Eric estava por lá. Ele, em substância e na humildade de não saber de caos e
trevas. Do escuro à luz - seu ventre - renasceu, para escrever nos lábios da
existência. Depois foi brincar no pátio do paraíso. Mas é ele quem nos avisa:
para entrar na relva do poema, cuidado com a cegueira do mundo, há que não
pisar em serpentes rasteiras que se clonam.
O livro de Eric Ponty é um presente para todos os que amam poesia. Poesia
verdadeira. Eric escreve com segurança e maestria. Rege o verso com rigor e
ternura. E rega o poema como quem molha uma flor do campo nascida no meio
asfalto.
Jaime
Vaz Brasil
Jaime Vaz Brasil – Poeta e medico além de ser diretor e prof. Titular do
Curso de formação em Psicoterapia do Instituto Fernando Pessoa, em Porto
Alegre. Caderno de Espelhos (1993) Editora Tchê; Punhais do Minuano (1998) WS
editor;Os Olhos de Borges(1999) WS editor(indicado ao prêmio Açorianos de
Literatura);Livro dos amores(1999) WS editor
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