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terça-feira, fevereiro 04, 2020

ERIC PONTY - UM POETA SÃO - JOANENSE


Mariluze Ferreira de Andrade e Silva
Departamento das Filosofias e Métodos-FUNREI


Segundo Assis Brasil (A Poesia Mineira no Século XX. Rio de Janeiro: Imago. 1998) Eric Tirado Viegas  é um dos representantes da mais nova geração de poetas de Minas Gerais. Ele nasceu em São João del-Rei no dia 27 de abril de 1968 e fez os seus estudos em São João del-Rei. Fez o primário no Grupo Estadual Maria Teresa, o primeiro grau no Colégio Nossa Senhora das Dores e na Escola Técnica de Comércio Tiradentes e o segundo grau na mesma escola. Não completou o curso porque resolveu dedicar-se "às leituras". Foi ouvinte, por um ano e meio no Curso de Letras da FUNREI de 1991 a 1992.
            Eric Ponty faz parte da geração "multimídia", isto é, a geração de poetas que busca outras formas de expressão como o poema visual, o teatro e a composição musical. Eric Ponty, além de ter livros de poesia e ensaios, é teatrólogo em São João del-Rei, libretista de ópera, autor de romances e novelas, literatura infanto-juvenil e traduziu a obra de Paul Valéry  O cemitério marinho, publicada em São João del-Rei.
            A carreira literária de Eric Ponty iniciou aos 16 anos quando escreveu a sua primeira peça teatral. Aos 18 anos encenou uma nova peça no Teatro Municipal de São João del-Rei e no Teatro da Reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais.
Dos muitos trabalhos poéticos publicados por Eric Ponty, Assis Brasil incluiu, em sua Antologia dos poetas mineiros do século XX, algumas amostras dos livros de poesia Livro sobre tudo (A Voz do Lenheiro. São João del-Rei: 1997) e Melancolia para uma tarde de domingo. Além desses, Eric Ponty publicou Homo-imagens (A Voz do Lenheiro Editora. São João del-Rei: 1996).
            Um dos poemas incluído em Livro sobre tudo/1977 e destacado por Assis Brasil para publicação na Antologia dos poetas mineiros do século XX é o Os sinos da perplexidade, que transcrevemos e analisamos, a seguir.
1. Os sinos da perplexidade/ Os sinos da anunciação/ Os sinos que são hinos ...//
2. Carro que passa, boi que fica, solitário e morto no pasto,/ após o gesto que configura/ na soturna surdina ....//
3. As torres resplandecem o céu./ a arquitetura sobreposta da janela,/ que ao invés de abrir; resseca.//
4. As falas são muitas ao amanhecer,/ ainda haverá o que já ocorreu,/ todas aquelas/ todos aqueles/ tudo aquilo...//
5. Os sinos da Ave-maria/ os sinos femininos/ os sinos assassinos...///
Como vemos, Eric Ponty segue o método do construtivismo poético moderno. Seus versos são soltos, isto é, não há rimas, nem a métrica rigorosa das poesias clássicas. O tema tratado predomina o do cotidiano da cidade de São João del Rei dando ênfase, nas estrofes 1. e 4. a um fato histórico-cultural da cidade que é o da linguagem dos sinos e o fato de ter havido um "sino assassino". Na estrofe 2., Eric Ponty relembra, em uma visão de presente, a vida rural de São João del-Rei, implicitamente substituída pela vida urbana, uma vez que o carro (de boi) passa(ou) e o boi volta(ou) para o pasto para morrer. Na estrofe 3. Fala da arquitetura das igrejas "As torres que resplandecem o céu" e do adorno sobre a janela que envelhece. No verso 4. Eric Ponty fala do despertar da cidade "As falas são muitas ao amanhecer" e expressa o seu saudosismo desejando resgatar o que já passou - "ainda haverá o que já passou". 
            Na simplicidade da linguagem, Eric Ponty pinta um retrato da cidade - como é e como foi - nos seus aspectos artístico-culturais mais importantes, impregnando, na construção da poesia, o real observado e o imaginado emocional.



            Outro poema destacado por Assis Brasil, que faz parte do livro Melancolia para uma tarde de domingo, leva o título "É o meu tédio uma canção passageira" que transcrevemos e analisamos.
1.     É o meu tédio uma canção passageira/ que não cai em desuso/Que não perde sua folhagem ferrugem/que se distrai, que se retrai no tosco grito//
2.     É o meu tédio uma canção passageira/ que solta as flâmulas da bandeira/ deixar cair tombada no espaço/ que me busco e não me acho.//
3.     É o meu tédio uma canção passageira/ acorde de todas as manhãs/ usuais verbos de defuntos/ que a si recitam versos/ quando tombam no solo seu último delírio.
4.     É o meu delírio uma canção passageira/ que leva e traz notícias alvideiras?/
5.     Eu te escuto tédio meu, singelo martírio/ dissecado e nu de presságios...//
Esse segundo poema segue por uma temática romântica existencial. O objeto do fazer poético, apesar de ser o tédio, não desemboca nem no niilismo nem em outros estados irreversíveis da alma, pois o tédio "é uma canção passageira" reafirmada nos primeiros versos de 1., 2. e 3. e "nu de presságios". Eric Ponty tem consciência do momento "de morte" mas o entende como "um delírio" passageiro. Embora o tema deste poema seja construído em torno de um elemento existencial - tédio -, o autor não apresenta características de um existencialista, porém de um romântico existencial porque o - "singelo martírio" - do tédio não é um estado permanente da sua alma, senão, provisório. O tema é apresentado de forma linear, isto é, de forma aberta, possibilitando o retorno ao estado de equilíbrio, o reencontro consigo, e não de forma circular, ou labiríntica, aprisionando-se no próprio tema, como, de modo geral, ocorre com a maioria dos existencialistas.
Eric Ponty é membro da Academia de Letras de São João del-Rei ocupando a cadeira cujo patrono é o poeta José Severiano de Resende.
 

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