Gilberto Mendonça Teles[1]
De vez em quando aparece alguém que me diz: “Por que você não escreve conto, novela, romance?”. Costumo responder: A vida me levou a me especializar na poesia e, para isso, li muita crítica e comecei a gostar da crítica. Não sobrou mais tempo para nada. Sou o Poeta-Crítico, como escreveu Alceu Amoroso Lima, num belo ensaio publicado em O Jornal do Brasil (22.06.78). Mas não tem faltado também quem me cobra: “Por que você não faz tradução? É coisa da moda. Veja o Haroldo de Campos”. Respondo sempre: Já tentei traduzir Apollinaire, não gostei dos poemas que traduzi: prefiro lê-los no original. Para o livro Defesa da poesia, no prelo, fiz pequenas traduções, mas, como se dizia em Goiás: Fiz para o gasto. Nunca fui tocado por aquele enthusiasmós de que fala Demócrito e que encontro na grande atividade intelectual de alguns amigos, que leio e admiro.
É o caso de ÉRIC PONTY (1968), o Poeta-Tradutor que reside em São João del Rei, e que, para o seu pseudônimo literário, soube combinar o nome próprio, tirado de algum ancestral escandinavo com o sobrenome de um dos filósofos da fenomenologia, Merleau-Ponty que, no livro inacabado Le visible et l’invisible (1964), tenta escapar da visão tradicional de sujeito-objeto para mostrar que “o visível se dobra sempre no invisível”, paradoxo que lhe permitia evitar só um tipo de subjetividade. Apesar da possível herança francesa, penso eu que a pronúncia do sobrenome do Éric é mesmo Pônty (paroxítona) e não Pontý, à maneira francesa. Pelo menos eu o trato assim, e nunca me corrigiram.
Sinto que a filosofia que o inspirou no pseudônimo tem muito a ver com a personalidade de ÉRIC TIRADO VIEGAS, o verdadeiro nome desse autêntico poeta-músico-tradutor que não se contenta com a face visível da leitura dos grandes, dos melhores autores universais, deseja ir além, buscar o invisível que se expressa na linguagem, na escrita de autores, que ele tem traduzido, como um alucinado em prol da Beleza. Nomes como Paul Valéry, Malherbe, Donne, Paul Verlaine, Juan Boscán, Calderón, Pablo Neruda, James Joyce, John Keats, Petrarca, Luis de Góngora y Argote , Mallarmé, Juan Ramon Jimenez, Lope da Vega, Pound, Joyce, Elisabeth Browning, Sóror Juana Inés de la Cruz, Julio Herrera y Reissig, Emilly Dickinson, Garcilaso de La Veja e Shakespeare, formam a mais alta galeria de notáveis poetas que tem sido alcançada pelo estilete tradutor de Éric Ponty, ansioso de os ler também em português, de os apresentar no idioma de Jorge de Lima, o da Invenção de Orfeu, num surrealismo poético que os nivela e os deixa à disposição do leitor paciente, e obstinado.
Um livro como Vinte e Seis Grandes Poetas, que leio em pdf, mostra bem o labor incansável de Éric Ponty como tradutor: nele estão quase todos os poetas acima mencionados. Pode-se discutir a seleção e a tradução: seleção dos poetas e dos poemas e discutir também a linguagem da tradução. Mas não se pode discutir a importância da reunião dessa antologia no mercado do livro brasileiro e, principalmente, no âmbito universitário, nos cursos de letras, na cultura literária dos novos poetas às voltas com as novidades, antes mesmo de se solidificarem no melhor da tradição ocidental. Veja-se o sentido do trágico na simplicidade do poema “Soneto II”, do crítico poeta , WALTER BENJAMIN, do século XX:
É o caso de ÉRIC PONTY (1968), o Poeta-Tradutor que reside em São João del Rei, e que, para o seu pseudônimo literário, soube combinar o nome próprio, tirado de algum ancestral escandinavo com o sobrenome de um dos filósofos da fenomenologia, Merleau-Ponty que, no livro inacabado Le visible et l’invisible (1964), tenta escapar da visão tradicional de sujeito-objeto para mostrar que “o visível se dobra sempre no invisível”, paradoxo que lhe permitia evitar só um tipo de subjetividade. Apesar da possível herança francesa, penso eu que a pronúncia do sobrenome do Éric é mesmo Pônty (paroxítona) e não Pontý, à maneira francesa. Pelo menos eu o trato assim, e nunca me corrigiram.
Sinto que a filosofia que o inspirou no pseudônimo tem muito a ver com a personalidade de ÉRIC TIRADO VIEGAS, o verdadeiro nome desse autêntico poeta-músico-tradutor que não se contenta com a face visível da leitura dos grandes, dos melhores autores universais, deseja ir além, buscar o invisível que se expressa na linguagem, na escrita de autores, que ele tem traduzido, como um alucinado em prol da Beleza. Nomes como Paul Valéry, Malherbe, Donne, Paul Verlaine, Juan Boscán, Calderón, Pablo Neruda, James Joyce, John Keats, Petrarca, Luis de Góngora y Argote , Mallarmé, Juan Ramon Jimenez, Lope da Vega, Pound, Joyce, Elisabeth Browning, Sóror Juana Inés de la Cruz, Julio Herrera y Reissig, Emilly Dickinson, Garcilaso de La Veja e Shakespeare, formam a mais alta galeria de notáveis poetas que tem sido alcançada pelo estilete tradutor de Éric Ponty, ansioso de os ler também em português, de os apresentar no idioma de Jorge de Lima, o da Invenção de Orfeu, num surrealismo poético que os nivela e os deixa à disposição do leitor paciente, e obstinado.
Um livro como Vinte e Seis Grandes Poetas, que leio em pdf, mostra bem o labor incansável de Éric Ponty como tradutor: nele estão quase todos os poetas acima mencionados. Pode-se discutir a seleção e a tradução: seleção dos poetas e dos poemas e discutir também a linguagem da tradução. Mas não se pode discutir a importância da reunião dessa antologia no mercado do livro brasileiro e, principalmente, no âmbito universitário, nos cursos de letras, na cultura literária dos novos poetas às voltas com as novidades, antes mesmo de se solidificarem no melhor da tradição ocidental. Veja-se o sentido do trágico na simplicidade do poema “Soneto II”, do crítico poeta , WALTER BENJAMIN, do século XX:
2
Se tivesse profetizado sua morte para o mundo
A natureza o teria precedido na morte
Retornado com um comando inexorável
Estando no esquecimento eterno.
No céu havia suaves auroras da alvorada,
Na hora em que seu manto se esvaiu
As florestas estavam todas coloridas pela tristeza negra
A noite cobriu o mar em um barco silencioso.
Das estrelas formou-se uma tristeza sem nome
O monumento de seu olhar no arco celestial
E a escuridão com sua espessa parede nega.
A luz da nova primavera está se formando
A estação vê no estado silencioso das estrelas
Dessa cisterna refletora de sua morte.
Se tivesse profetizado sua morte para o mundo
A natureza o teria precedido na morte
Retornado com um comando inexorável
Estando no esquecimento eterno.
No céu havia suaves auroras da alvorada,
Na hora em que seu manto se esvaiu
As florestas estavam todas coloridas pela tristeza negra
A noite cobriu o mar em um barco silencioso.
Das estrelas formou-se uma tristeza sem nome
O monumento de seu olhar no arco celestial
E a escuridão com sua espessa parede nega.
A luz da nova primavera está se formando
A estação vê no estado silencioso das estrelas
Dessa cisterna refletora de sua morte.
Esse exercício incansável o leva a estar continuamente às voltas com problemas de métrica, tentando dar ao texto em português o sentido retórico do poema estrangeiro, assunto na imensa maioria das vezes “esquecido” pelos tradutores de poesia que só pensam transpor a forma do conteúdo. Gente tida como importante, mas que não “ligam” para o ritmo do poema na língua original, como já demonstrei certa vez em O Jornal do Brasil ou em O Globo, já não me lembro bem.
Não é certamente o caso do poeta-tradutor (e músico) de São João del Rei que se esforça para recompor em português a harmonia rítmica dos Sonnets from the Portuguese, publicados em 1850, com quarenta e quatro poemas, ao contrário da primeira edição, de 1847, Sonnets of E.B.B., com quarenta e três. No soneto XLIII, a poetisa da Inglaterra, que terminou os seus dias na Itália, expressa no mais sublime lirismo a plenitude do sentimento amoroso pelo seu marido poeta. Leia-se o último soneto da série original, na tradução de Eric Ponty:
Não é certamente o caso do poeta-tradutor (e músico) de São João del Rei que se esforça para recompor em português a harmonia rítmica dos Sonnets from the Portuguese, publicados em 1850, com quarenta e quatro poemas, ao contrário da primeira edição, de 1847, Sonnets of E.B.B., com quarenta e três. No soneto XLIII, a poetisa da Inglaterra, que terminou os seus dias na Itália, expressa no mais sublime lirismo a plenitude do sentimento amoroso pelo seu marido poeta. Leia-se o último soneto da série original, na tradução de Eric Ponty:
XLIII
Quão te amo? Deixe-me contar todos
motivos
Amo-te na fundura no ancho na elevação Minha alma consegue, quando se sente ausente
Aos fins Sermos do ideal da Remissão.
Te amo no parâmetro existido de cada dia
Mais tranquilos, ao sol dão luz destas
velas
te amando tão franca, homens lidam à
direita.
Amar-te apenas, amor, transformam
louvores.
Eu te amo com paixão posta de todo
jeito,
Minhas antigas dores, fé que há minha
infância
Te amo com um
amor parecia-lhe perder-.
Meus santos perdidos, - Eu amo-te com fôlego
risos, prantos, minha vida! - E, se Deus
fez
te amando, mas ainda melhor após à
morte.
Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 2016.
[1] Professor Titular
Emérito da PUC do Rio de Janeiro e da Universidade Federal de Goiás.
Professor Honoris Causa da Universidade Federal do Ceará e da PUC de
Goiás. Foi professor de literatura nos seguintes países: Uruguai (Instituto
de Cultura Uruguaio-Brasileiro), Portugal (Universidade Clássica de
Lisboa), França (Universidade de Rennes e de Nantes), Estados Unidos (Universidade
de Chicago) e Espanha (Universidade de Salamanca). Conferencista em
várias universidades, nacionais e estrangeiras. / É poeta e crítico, Prêmio
“Machado de Assis” da Academia Brasileira de Letras; e Prêmio “Juca Pato”
(Intelectual do Ano) da União Brasileira dos Escritores de São Paulo. Seus
Poemas se encontram reunidos em Hora aberta (Editora Vozes, 2003, 4ª
edição). Entre seus livros de ensaios e de crítica se destacam Drummond: A
estilística da repetição (4ª. ed.) e Vanguarda europeia e modernismo
brasileiro (20ª ed.).
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