Pesquisar este blog

segunda-feira, fevereiro 10, 2020

O FAZER POÉTICO DE ORPHEU E DE SUAS VOZES SUSSURRANTES:Amélia Pinto Pais

Para o Eric Ponty

Lutar com palavras
É a luta mais vã.
Entanto lutamos
Mal rompe a manhã
Algumas, tão fortes
Como um javali.
Não me julgo louco.
..................
Carlos Drummond de Andrade, O Lutador, in José
É esta a dura tarefa do poeta e do fazer poético: Lutar insistentemente com a palavra indescoberta, incriada, porque de seu labor árduo recolhe novos sentidos e a transfigura ganhando, "fingindo-a". É esta a luta de Orpheu: encontrar a palavra primordial e única que lhe faça reencontrar Eurídice e trazê-la de volta depois de sua longa caminhada iniciática:

Orpheu, Orpheu, Eurídice está ao lado,
,e, sussurra as vozes dos adormecidos,
daqueles que se perderam no granito,
nas inscrições onde datas nada dizem.

Orpheu, Orpheu, Eurídice está ao lado,
,e,tem a face branca de um modelo,
talvez, de Laura, que se perdeu solitária
ou de Najda de André Breton que fascina.

Orpheu, Orpheu, Eurídice está ao lado,
,e, os olhos são como fagulhas da tarde
de quando este a viu, absoluta e uma,
alheio aos dados do destino lhe traçado.

Orpheu, Orpheu, Eurídice está ao lado,
,e, as mãos delicadas como duas fontes,
que lhe cantam sortilégios. Nuvens pairam
no céu azul, enquanto fluem como um rio

Aí começa o labor do leitor. Ele completa o poema, captando-lhe o sentido, recuperando com o poeta um saber das origens, simultaneamente longínquo e reencontrado. Ler um poema será então este reencontro com a palavra do poeta  (que vai do coração para a cabeça, como dizia Almada Negreiros num texto muito bonito, intitulado "A flor"), o contacto com modos de dizer,  produzindo sentidos 'outros' ,(estamos no domínio da 'transcendência', dado que na base da criação poética está a metáfora, criadora de realidades 'outras'; sendo assim o texto uma ficção, um fingimento em que nos reconhecemos - ou não...).
Ora, sabemos, o acesso ao transcendente faz-se pela via da iniciação e por degraus - iniciando-se, no caso vertente, pela emoção ( o coração que, como no poema de Pessoa, é um combóio de corda que «gira a entreter a razão»).Mistério órfico por excelência, é a essa via iniciática que nos convidam os poetas, os fazedores de sentidos. É também essa a função do Eric na sua poesia e, desde já, neste seu novo livro-recolha de vozes sussurrantes que soube tão bem captar. Excelente leitor, é - o também Eric. Nestes seus poemas cruzam-se leituras de imagens vindas da pintura–Poema para Uma Iluminura Colhida ao Acaso, Fronte de Frida Kahlo:
Lendo o caderno de Frida,

percebo que me lembram desenhos egípcios
são as memórias dos maias impressos,
,e, que haverá alem de um triangulo isômeres
de cuja tumba ainda enterra a memória,
a ergueu-se formoso palácio?

Estava dito, que um dia, viriam por mar,
e morreram no conflito entre duas civilizações
um só homem e um exercito do imperador espanhol
para aniquilar uma civilização de homens,
que cometiam também mesma barbárie ao seu modo
em homenagem aos Deuses,enquanto estes
há um Deus que não lhes pediu Shoahs.

Da música - veja-se, por exemplo, Quatro Romanças Populares – do diálogo com outros poetas –Joyce, Jorge de Lima, Jaime Vaz Brasil – Fernando Pessoa – Borges...- De múltiplas leituras se entretece então o poeta, que assim vai, por óbvios caminhos, re - cruzando mares e palavras.

Também de amor –desde já na evocação de Orpheu e Eurídice, mas também em O Amor e o tempo («O amor, não detém o tempo,/ Somente quem ama conhece a eternidade /este se saber inteiro num segundo / e se olvidar para sempre:». Ou em Do amor a das tessituras,.De outras tessituras (que é o texto senão tecido?) poderíamos falar, como o velho motivo romântico da lua em Admirando a Lua, ou o motivo dos descobrimentos em Amor desconhece as fronteiras do prado:

I

Acaso não estava no final da tarde de Lisboa
ouvindo Hector Berlioz quando de súbito pensaste
na vã eternidade dos seres vivos?

O que te moveu a ler Borges, não foi esta ilusão,
que nós chamamos, por esperança, de eternidade,
mas não bastava, se lembrar, daquelas caravelas,
que rumo, e, na certeza, de cumprir-se descobridores
inauguraram esta que era para cumprir-se um destino.

Não estavam estes homens, aos seus serviços,
por isto mesmo agora em Lisboa, quiçá em Coimbra
poderá avistá-los de janela, mesmo que o mar distante
por isto tenha cuidado, são as magoas deste litoral,
cujo sentido desconheceu os limites.

À descoberta do universo original nos convida este poeta. Sigamo-lo em sua caminhada de lutador de ‘escutador’[1] também dos murmúrios e vozes do mundo. Só assim, numa linguagem densa e só aparentemente cerebral que é a sua, poderemos ter direito a alcançar o «vôo sem pássaro dentro» que é a descoberta do real mais profundo, «o autêntico real absoluto» de que falavam  respectivamente dois outros poetas, Adolfo Casais Monteiro e Novalis na sua definição de poesia.

Leiria, Portugal, 16.06.01


[1] «o poeta é um escutador»-Sophia Breyner Andresen
Amélia Pinto Pais – Doutora e Professora de Literatura francesa e portuguesa em Portugal. Autora dos livros Para Compreender Fernando Pessoa, Para se Compreender os Lusíadas , Les Lusiades en Prose(em Francês),Lusíadas em Prosa, Ser em Português, 11B Areal Editores – Portugal dentre outros. PADRE ANTÔNIO VIEIRA (Companhia das Letras) - FERNANDO PESSOA O MENINO DA SUA MÃE (Companhia das Letras)

Nenhum comentário: