Para o Eric Ponty
Lutar
com palavras
É a
luta mais vã.
Entanto
lutamos
Mal
rompe a manhã
Algumas,
tão fortes
Como
um javali.
Não me
julgo louco.
..................
Carlos Drummond de Andrade, O Lutador, in José
É esta a dura tarefa do poeta e do fazer
poético: Lutar insistentemente com a palavra indescoberta, incriada, porque de
seu labor árduo recolhe novos sentidos e a transfigura ganhando,
"fingindo-a". É esta a luta de Orpheu: encontrar a palavra primordial
e única que lhe faça reencontrar Eurídice e trazê-la de volta depois de sua
longa caminhada iniciática:
Orpheu, Orpheu, Eurídice está ao lado,
,e, sussurra as vozes dos adormecidos,
daqueles que se perderam no granito,
nas inscrições onde datas nada dizem.
Orpheu, Orpheu, Eurídice está ao lado,
,e,tem a face branca de um modelo,
talvez, de Laura, que se perdeu solitária
ou de Najda de André Breton que fascina.
Orpheu, Orpheu, Eurídice está ao lado,
,e, os olhos são como fagulhas da tarde
de quando este a viu, absoluta e uma,
alheio aos dados do destino lhe traçado.
Orpheu, Orpheu, Eurídice está ao lado,
,e, as mãos delicadas como duas fontes,
que lhe cantam sortilégios. Nuvens pairam
no céu azul, enquanto fluem como um rio
Aí começa o labor do leitor. Ele completa o
poema, captando-lhe o sentido,
recuperando com o poeta um saber das origens, simultaneamente longínquo e
reencontrado. Ler um poema será então este reencontro com a palavra do
poeta (que vai do coração para a cabeça,
como dizia Almada Negreiros num texto muito bonito, intitulado "A
flor"), o contacto com modos de dizer,
produzindo sentidos 'outros' ,(estamos no domínio da 'transcendência',
dado que na base da criação poética está a metáfora, criadora de realidades
'outras'; sendo assim o texto uma ficção, um fingimento em que nos reconhecemos
- ou não...).
Ora, sabemos, o acesso ao transcendente faz-se pela via da iniciação e por degraus - iniciando-se, no caso vertente, pela emoção ( o coração
que, como no poema de Pessoa, é um combóio de corda que «gira a entreter a
razão»).Mistério órfico por excelência, é a essa via iniciática que nos
convidam os poetas, os fazedores de sentidos. É também essa a função do Eric na
sua poesia e, desde já, neste seu novo livro-recolha de vozes sussurrantes que
soube tão bem captar. Excelente leitor, é - o também Eric. Nestes seus poemas
cruzam-se leituras de imagens vindas da pintura–Poema para Uma Iluminura
Colhida ao Acaso, Fronte de Frida Kahlo:
Lendo o caderno de Frida,
percebo que me lembram desenhos
egípcios
são as memórias dos maias
impressos,
,e, que haverá alem de um
triangulo isômeres
de cuja tumba ainda enterra a
memória,
a ergueu-se formoso palácio?
Estava dito, que um dia, viriam
por mar,
e morreram no conflito entre duas
civilizações
um só homem e um exercito do
imperador espanhol
para aniquilar uma civilização de homens,
que cometiam também mesma barbárie ao seu
modo
em homenagem aos Deuses,enquanto estes
há um Deus que não
lhes pediu Shoahs.
Da música - veja-se, por exemplo, Quatro
Romanças Populares – do diálogo com outros poetas –Joyce, Jorge de Lima,
Jaime Vaz Brasil – Fernando Pessoa – Borges...- De múltiplas leituras se
entretece então o poeta, que assim vai, por óbvios caminhos, re - cruzando
mares e palavras.
Também de amor –desde já na evocação de Orpheu e Eurídice, mas também em O Amor e o tempo («O amor, não detém o tempo,/ Somente quem ama conhece a eternidade /este se saber inteiro num segundo / e se olvidar para sempre:». Ou em Do amor a das tessituras,.De outras tessituras (que é o texto senão tecido?) poderíamos falar, como o velho motivo romântico da lua em Admirando a Lua, ou o motivo dos descobrimentos em Amor desconhece as fronteiras do prado:
I
À descoberta do
universo original nos convida este poeta. Sigamo-lo em sua caminhada de lutador
de ‘escutador’[1]
também dos murmúrios e vozes do mundo. Só assim, numa linguagem densa e só
aparentemente cerebral que é a sua, poderemos ter direito a alcançar o «vôo
sem pássaro dentro» que é a descoberta do real mais profundo,
«o autêntico real absoluto» de que falavam respectivamente dois outros poetas, Adolfo
Casais Monteiro e Novalis na sua definição de poesia.
Leiria, Portugal, 16.06.01
Amélia Pinto Pais – Doutora e Professora de Literatura francesa e portuguesa
em Portugal. Autora dos livros
Para Compreender Fernando Pessoa, Para se Compreender os Lusíadas , Les Lusiades en Prose(em
Francês),Lusíadas em Prosa, Ser em Português, 11B Areal Editores – Portugal dentre outros. PADRE ANTÔNIO VIEIRA (Companhia
das Letras) - FERNANDO PESSOA O MENINO DA SUA MÃE (Companhia das Letras)
Nenhum comentário:
Postar um comentário