Escavamos dia e noite com ferramentas de chumbo,
Amontoamos a terra e a moldamos em forma de anel,
E lançamos a terra por cima. E César disse:
“Ora, está excelente. Gosto disso.”
Nós, que estamos mortos,
Construímos, trabalhamos, e César gostou disso.
E aqui nos esforçamos, e aqui sentimos cada veia
Congelada, cada membro solidificado, durante toda a noite.
E aqui nos unimos à chuva
Que nos transformou em homens com seu chicote,
Purificando-nos através da dor.
E o vento nos visitou e nos tornou fortes.
Surgindo ao nosso redor, figuras sem nome,
Homens fortes e nus, imponentes, de ambos os lados,
Apertando-nos, eles vieram. E veio o vento,
E a chuva amarga, tornando toda a terra cinzenta.
Esse era o nosso desafio,
Lutar contra homens e tempestades, e era grandioso.
Por muitos dias lutamos contra eles, e nosso suor
Regou a grama, fazendo-a brotar verde,
Florescendo para nós. E, se o vento estava úmido,
Nosso sangue umedeceu o vento, tornando-o cortante
Com o ódio,
A ira e a coragem que nosso sangue representava.
Assim, lutando contra homens, ventos e tempestades, inflamados
De alegria, ódio e ânsia de batalha, caímos
No local onde lutávamos. E Deus disse: “Mortos, então, por fim? O quê!
Vós, que sois fortes demais para o céu, puros demais para o inferno,
(disse Deus) não vos movais.
Este será o vosso céu ou, se preferirdes, o vosso inferno.”
Então, mais uma vez lutamos e nos debatemos, e mais uma vez
Arremessamos a terra para cima e a lançamos em um círculo.
Mas quando o vento se levanta, trazendo a chuva
(cada gota de chuva, um corcel flamejante), e as névoas subindo
Da planície,
Essa procissão selvagem, essa coisa impetuosa,
Deixe-nos maravilhados. Subimos nas carruagens do vento, então
Aceleramos os corcéis e percorremos o mundo inteiro,
Em busca de algum lugar onde encontrarmos irmãos,
Filhos dos ventos e das águas do mundo.
Nós, que éramos homens,
Procuramos, mas não encontramos nenhum homem em todo este mundo.
Vento, que sempre soprou aqui incessantemente,
Trazendo, se é que alguém pode compreender,
Poder aos poderosos, liberdade aos livres;
Vento, que nos envolveu, nos purificou, nos tornou grandiosos,
Vento que somos nós
(Nós que éramos homens) — faze homens em toda esta terra,
Que vivam, lutem e odeiem de tal forma que, quando, por fim,
caírem exultantes, como nós caímos,
e chegarem a Deus, Deus possa dizer: “Vocês vêm, então,
perguntando com mansidão: ‘É o céu ou o inferno?’
Ora! Vocês eram homens!
Voltem para seus ventos e chuvas. Que estes sejam o seu céu e o seu inferno!”
24 de março de 1913
Charles Sorley - TRAD. ERIC PONTY

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