Livro III – I – Capítulo -
A Grande Dançarina
As facas da dançarina
- principio e fim –
gumes fluidos no ar,
perpetuam instantes.
Cortando fatias do ar,
apara lamentos e gritos,
sonhos das realidades,
o mover incessante.
As facas da dançarina
- Forma e conteúdo –
construídos linguagens,
funda outros Merus.
A dançarina nos sonhos,
a águia a segue fluindo:
É água ou sonho
da dançarina. tramando
o encantado passo.
As facas da dançarina
roer os ecos da memória.
Bela é a imagem oferecida.
Livro III – II – Capítulo -
Dançarina do sonho
A dançarina corta a textura do infinito. Move os braços no ritmo do vôo da águia a sobrevoar o cerimonial. Que tanto lhe agradou nessa lembrança?
O pássaro não seria tolo em cobiçá-la, apenas aproximar-se-ia.
Feche os olhos. Quando sonolento adentrar-vos as ruínas onde a dançarina fez o espetáculo...! Aviso que, antes entrar – vós; é preciso que tenhais cuidado com as lâminas da dançarina.
As lâminas não são mortais por apenas ferirem a humana espécie. Suas lâminas ainda são piores que a morte. Os seres incautos, que não pode defrontar-se com a escarninha lâmina da ilusão, voltarão ao mundo como sombra.
Para isso não lhe ocorreis é preciso que sejas mais fluido que as lâminas. Ao entrares nas ruínas abrivos os olhos do espírito.
Livro III – III – Capítulo -
Epigrama a Íbis
Leve e veloz sustentando a leveza de ser.
Sem território ou arquipélago, migra no espaço.
Tudo pode ser quando não vê e não se altera.
Ensinou aos homens que haveria terras,
ao medi-las que se inventassem os limites.
Em sua forma estranha e gloriosa,
da manhã, anunciado fim da noite:
Talvez os dias se passem em vôos;
O Tempo de apagar as lâmpadas.
Livro III – IV – Capítulo -
Temível Premonição
Ao cair da tarde as Íbis estavam postadas à margem da grande escadaria. Estas, em homenagem à dançarina, curvando-lhe as asas, menos a pequena Íbis assustada que voou.
Dançarina de facas de cortar a textura do infinito desce correndo a escadaria ao contemplar sua face melancólica e se entrega ao sono.
Suspira, ao arfar-lhe a face de medo. A dançarina se aproxima, deixando rastros nas derradeiras brisas do sono.
Olha as hostes da pequena Íbis, observa ela pairar sobre o mar tempestuoso, e as asas exaustas, ficam postadas. A pequena Íbis fecha-se aos sentidos à cruel heresia da ilusão.
Seu Semblante se parece a com a face da dançarina. A dançarina cheira à macieira, tem a mesma placidez da face da lua.
- Ó morte tende piedade de minha amada. Sou aquele que foi escolhido a contemplá-la dormindo. Perceber-lhe as imperfeições do tempo, as incongruências das horas. Sou o sofredor que, ao esperá-la, e viu-a gerar outros frutos. Com minha sapiência aguardo-a para dormir em meu leito. Sou aquele que lhe atendeu a prece intima.
Livro III – V – Capítulo -
A confirmação de Ka
Essa águia não a encontra na praia
num templo olvidado da savana.
Achei-a encima do monte de terra
talvez voando pelo mar.
O mar se evadiu há muito
os seus contornos
suas espécies marinhas.
É nela percebo os nascimentos,
os cânticos dos primeiros seres,
os lamentos dos elefantes,
o grito perpétuo de Ser Ka
solar e alada.
Livro III – VI – Capítulo -
A Invenção do Vôo
Súbito vôo de nuvem
no centro o cotidiano
esvaído em tédio.
Oração pronunciada!
Cálido vôo de menino
plantado e inerte.
Pálido vôo sem movimento
voraz silencio
estirado meio-dia.
Navegante interior,
metamorfoseado eu
em afogar silêncios.
Olhos fechados fluidos,
silêncio ecoados
das encarnações.
A serena boca não murmura,
o silêncio e a grandeza.
Súbito vôo de nuvem
concentrado eu.
Ressequida pronúncia
de forjar imagens
trincada asa de mito.
Asas de homem no corpo
sempre liberto. Acesa lâmpada
na sombra inútil da sombra.
Livro III - ERIC PONTY
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA
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