I
Quando nasci você ainda não existia,
eu era um desses que se despiram
ao ficar com a alma nas sombras
enquanto o corpo secava no varal.
A tarde observa a musa
correndo atrás das dores cotidianas.
A tarde talvez não fosse tão bela,
não houvesse nela tanto crepúsculos.
Homens caminham tão entregues
há o não ser urbano. Onde vão?
O impulsionar deste movimento
move, porém estáticos perpetuam?
Quem é aquele homem atrás dos óculos,
ouvindo gruído e escuta os murmúrios
que pensa a solidão como não pensasse
a dimensão da solidão da tarde.
Amada, por que não nasceu no instante
que eu nasci? Não sabia que estaria só,
não sabia dos lobos no portão?
Oriundos são os murmúrios do mar,
distantes muitos vastos do arquipélago
entoam sempre marulhos vagos no ar.
II
Perdi a visão do crepúsculo à tarde,
o que nela estava escrito se evade,
chego pálido com o poema nas mãos.
A densidade das coisas inexpressivas,
é o som do inseto batendo à janela.
Lento adentro na ladeira dos sonhos,
em que as imagens sós se bifurcam.
Todas efígies levam à imensa solidão,
final de todas narrativas ensaiadas.
Não sei o que estou percebendo
ou se tem alguém olhando por trás
das minhas mãos. Escassa a visão.
Entre mim e você nos gritamos sós,
investigamos insondáveis vazios,
burlamos a fronteira da eternidade.
III
Nesta cidade há um homem
que se inventa pássaro
corre sozinho em volta
da solidão seca do quarto.
Me encontrarei sozinho?
Agora há pouco um som
se desprendeu da luz
tocando melodias do mar.
O que a gente não inventa?
Nesta cidade há um homem
que se inventa herói
se salva sozinho
não ganha medalhas,
não desperdiça esmolas,
mas possui um riso como poucos,
sabe que medindo o tempo gasto
com coisas pouco essenciais,
viajará por infinitos ocultos a Buda.
Me encontrarei sozinho?
Agora há pouco me olhei no espelho,
tinha um outro perto de mim
parecido comigo; não era triste, não era,
era apenas um outro que por ali passava.
Nesta cidade há um homem
que se senta e escreve o poema
cercado de mãos, as palavras fluem,
parece que fluem na foz do poeta,
não era. Era você ali que as sussurrava,
o riso iluminava com a vastidão da metáfora
enquanto se desprendia da luz.
IV
E você?
Até quando se abastecerá,
colherá palavras como perolas
olhará-se no espelho imaginando rainhas,
tecerá tapetes para Ulisses inexplicáveis,
parirá castas mais nobres da existência,
colecionará bonecas como filhos,
fará planos para invadir as Normandas,
construirá o ego em volta de ilusões.
Neste instante
que você sonhou a delicadeza da tarde,
viu se evadir o frágil levitar dos pássaros,
a pronúncia fatigada e o exaurir dos verbos,
a sombra do amado ao se fazer crepúsculo.
Este cabelo
possuí ramificações que lembram fios,
principalmente o fio de maior comprimento,
percebe o quanto de fio nele já vem descrito?
Olhe com atenção para que não se perca
aquele fio que a conduzia através do destino,
e não foi por descuido que o deste ao Minotauro?
Esta mulher
aflita olha a janela por olhar; percebe o que não
fala aos seus dias morredouros? E se cantasse
para aliviar este peito que retumba como mar?
Se lhe compusessem mais perfeito dos sonetos
não poderiam os sons das palavras soar mais
falso que as perolas de águas do armarinho?
E você?
Até quando se abastecerá,
colherá palavras como perolas
olhará-se no espelho imaginando rainhas,
tecerá tapetes como Penélopes inexeqüíveis,
parirá castas mais nobres da existência,
colecionará bonecas como filhos,
fará planos para invadir as Normandas,
construirá o ego em volta de Ulisses.
V
Preso a minha condição e a palavra,
vou em busca daquela que se principia
que constrói ponto a ponto a metáfora,
com melancolias ao raiar do meio dia.
Posso, sem asas, transformar-me em vôo?
Olhos exaustos no crepúsculo da tarde:
O sol não iluminou ao meio dia a completa
ansiedade. Tempo é silêncio. Alucinações esperam,
há detalhes das sombras, o sucumbir das dores.
Em vão me tento conceber através do cotidiano,
sob a pele das coisas urbanas se escondem detalhes,
a imensidão da nuvem cobrindo o pequeno chafariz,
no muro de adobe há cifras subterrâneas da sina
daqueles que caíram por serem vitimas do tédio.
O sol exaure os aflitos que não nem mesmo falas,
renovando a possibilidades daqueles que eternos
desfazem-se e passam inexeqüíveis pela vida.
No meio dos restos do cotidiano há uma palavra,
palavra há no meio dos restos, mas ela, foi
sequer colocada. Ninguém se deu por ela, olvidada,
no meio dos restos, uma palavra há; é código
que não se transubstancia ou se evade à tarde.
Seu significado não se percebe.
Suas silabas não se pronunciam.
Seu sentido não se encontra nos dicionários.
É estranha. Realmente é a mais bela das palavras.
Amada, meu amor! Sol exaure os aflitos ao meio dia,
no meio dos restos do cotidiano há palavra,
palavra há no meio dos restos, mas você, foi sequer
colocada.
VI
Meus olhos te espiam
sós e elididos na sombra.
Elegias percorrem a
primaveril nudez.
flores se desbotam
exauridas de cotidiano.
Seu sono possui densidades,
nublado quando quase chega à manhã
talvez por coisas deixadas nelas ali
escritas com o suor dos cavalos
correndo por esta outra língua,
de modo perfeito, que não se encontra
na forma original.
Meus olhos te espiam
sós e elididos na sombra.
Há música que escapa do murmúrio,
melodias escritas em língua moderna
e vertidas para ária mais antiga.
(Sei que me indaga se isto é paráfrase,
conseguir traduzi-la como um todo.)
E nada o capta, traduzir não é um exercício de
essência tão casta... Deveria saber que o
murmúrio não se traduz apesar de não pequenas
violências. Como sua boca, mais ágil para receber
o delicado golpe de minha homenagem.
Envaidecida me fala que ficou contente
de tê-la recebido. Então emocionada me indaga
se sou um poeta.
Meus olhos te espiam
sós e elididos na sombra.
Elegias percorrem a
primaveril nudez.
flores se desbotam
exauridas e cotidianas.
Não deveria nunca ter feito tal pergunta minha amada,
agora se desfaça...
VII
Quando a manhã chegou arrastando o sol
eu abri o meu peito do que restou da noite
olhei através da minha memória o seu rosto
era o rosto pálido colhido entre as nuanças.
A angústia que habitava a noite não tinha
semeado a ilusão que passava pelos mares,
tinha florescido nos olhares vagos do dia,
quando de regresso trazia os seus olhos.
Estava tremula sua mão e tão silenciosa,
que os primeiros raios solares era música,
que pareciam consolar esta solidão noturna,
este destino que parecia se esvair em olhares.
Quis me afastar do fardo que é sua carne,
este imenso arquipélago recheado de memórias,
mas quando sua boca pronunciou os murmúrios,
percebi haver uma ancora ancorada no seu rosto.
VIII
Tenho saudade de te inventar na eternidade,
invenção sob o contexto de fazer conceber,
por exemplo, a cor do seu olhar, de captar,
cada filigrana nele contido: Verdes estepes.
De tanta e tanta vontade que tenho de fazer,
de tanto que deixei de pesquisar, por exemplo,
a aparência que tem ausência na manhã,
no contexto, de sua profunda dimensão.
Tenho terror das mulheres artificiais, que fazem
tudo; o esforço para parecer natural. Vôo de um
cardume de peixes em um mar poluído. Você é
vário, por ser diversa, traduz as águas do Ser.
Todo inventário é um simulacro de enganos.
Um se esquivar de objetos perdidos e outros
a se inventar; por exemplo, o que se reconstituiu
do que aqui foi lhe exposto ficou após seu olhar.
IX
A primeira Estrofe é dedicada à inauguração
do seu ser, aquele orgasmo, pacto do cosmo
e do infinito. È sempre a presença daquele eu
margeando os outros sentimentos em pânico.
A segunda Estrofe é dedicada à sua face,
este geográfico desenho pelas manhãs,
sendo a face vária e só. È sempre aceno,
que dá sentido na perda que nós sentimos.
A terceira Estrofe é dedicada à abstração
dos seus cabelos diante do sol, que exaustos
se esquivam dos inventários na correria de se
fazer manhã solar, refúgio de plantas e aves.
X
Algum tempo vivi a margem seu ser.
Basicamente nasci entre mim e você.
Por isto a metido. Sou foz de palavra.
Oitenta por cento feitos das margens da página.
Vinte por cento esculpidos na espera da alma
Do que na vida somente dá sentido: coisas e palavras.
Este sentido cósmico que me faz perdido no tempo
é anterior a mim enquanto ainda eu era molécula
ainda sem consciência do pecado iria fundir o ser,
legatário das coisas indefinidas.
Do tempo misturado nas neblinas do meu ego lhe dou:
Minhas mãos que para com ela componha uma elegia.
Meus olhos para com eles vejam novas paisagens.
Minha boca para com ela pronuncie os segredos.
Meu sexo para com ele funde novas dinastias.
Hoje espero a manhã
para que juntos renasçamos
entre mim e você fundemos
aquela margem anterior à palavra.
XI
Mais que todas maneiras
perdemos ao nosso modo
esta delicadeza de musa.
Um menino ainda não nascido
sonha manhãs ensolaradas de azul
com você de fita de cabelo na praça
maior da cidade que dizia saber de cor.
E em nossa rica memória plantávamos
pássaros que dialogavam com a noite
que lentos e leves dormitavam a tarde,
que juntos a sua porta confessam melodias,
trazidas com desvelo das viagens migratórias
por Áfricas, Alasca ou por Kuala Lunpur.
Frágil e ágil à tarde balança as tranças turvas
feitas das nuvens que intangíveis passeiam
nas almas dos homens taciturnos.
XII
Esta imagem que guardamos de você
é como secreto pensamento da tarde
é o alvoroçar de pássaros dormidos
súbitos entoaram-se a cantilena solar.
Esta imagem que guardamos de você
é dedilhar de surdos ao piano tentando
reconstituir os primevos sons do sonho
que súbitos entoaram a cantilena solar.
Esta imagem que guardamos de você
é como delírio onde o que queremos
é o ordinário do extrafardo. Elogio dos
que súbitos entoaram a cantilena solar.
Esta imagem que guardamos de você
é como uma ânfora que jorra o mel,
composto do equilíbrio do vinho e leite
que súbitos entoaram a cantilena solar.
ERIC PONTY
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA

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