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quinta-feira, outubro 29, 2026

HOMO-IMAGENS - ERIC PONTY

 DISSECAÇÃO PARA O GRITO

 I

E se inesperadamente diante do cotidiano
entre as ruas e avenidas e transeuntes
abríssemos a nossa boca num ato seco
sem quaisquer melodias expansivas?

Como num gesto que se configura o hoje
esta expressão de nós tão latente, iria 
fazer sucumbir esta realidade tão crua?

O que somos nós senão sombras de nós
do ainda ontem que nós existimos claros,
e hoje, no existir do ontem, somos fátuos,
memória que criou-se em nós e se desfez.

Se soluçando nesta passagem tão brusca
de que somos nós por nós desfeitos de nós
descemos por fim, exaustos, um grito.

  
II

O depois de nós desfiguramos em som,
nós somos mais inteiros neste gesto dado,
desfiguramos aquilo que estava figurado
como naquela imagem ruim que se verteu 
numa reflexão de uma onda acústica.

O cotidiano por nós vivido é um enfado
numa estranha selva de almas brancas
onde nossos pictóricos gestos se findam.

Para nós talvez reste, uma lembrança,
para este obstáculo de nosso enfado,
como animais últimos deste universo
que se acolhe e si mesmo se destrói.

Como o cosmo; somos apenas um eco,
e de que valerá este nosso reflexo tosco
quando tudo se contrair no som que foi?

III

Abatidos seguimos solitários pelas ruas
levando as réstias de nossas memórias
que se decompõe sobre a tábua tosca
do sol.

Aquele homem embaixo daquela árvore
mera ilusão de um reflexo fundido a luz,
será que pulsa o coração ou lhe cogita?

Solitários não, seres de condição, ecos
deste nosso soluçante espetáculo de
degredados, secos como o solo, áridos.

IV

É noite que se adensa n´alma tarda,
cuja existência mais sólida perece,
pois a alma não é senão conjectura
do qual vemos em nós mesmos eus
para não dissiparmos nas auroras.

Quando a lua assustada nos reluz
raios de doirada grinalda alva,
e nós olhamos enfim no espelho;
é agora senão um fantasma de si.

Este rosto refletido entre raios,
o que pode-nos dizer de novo,
se embaixo desta pele serena
estrutura de um crânio tosco
quando dissecado pelo tempo
não se despe deste eterno riso.

V

Quando adentramos a consciência
nos lançamos nas interrogações
dentro dos espaços vazios dos eus
estas escadas que levam ao nada
de portas abertas às paredes cruas
que exibissem nos tijolos de rebocos.

Talvez aquele eco que nos ouvimos
ao nascer se faça ainda se ouvido
entre os pássaros migrados do olvido
é na realidade aquele grito florido
entre as estrelas do qual foi advindo.

VI

Esta dor ardente onde quer abrigá-la
quantos sonhos já foram passados,
e aquele mensageiro vindo ontem;
era senão uma ilusão desta noite
em que sonhaste consigo em si
num dialogo fraterno e amigo que
tem quando te sussurras à tarde.

Esta dor que sempre dói e renova,
a cada passagem brusca do dia,
são estações´almas do tempo,
tuas angustias fenecem em folhas
ressecadas pelas réstias de outono.

VII

Fugir?! De que adianta tal coisa,
já pensou por um acaso na sina
de um herói e de seu nascimento,
terá sido porque ficou ou fugiu,
embora toda sina seja a mesma.

Onde quer se esconder afinal,
embora à noite te proporcione
estes ávidos abrigos do olvido;
aonde se move com este eu
por entre labirintos das sombras
delineadas pelas réstias do dia.

 VIII

Solidão esta é a tua verdade
que tem de carregar n´alma
na memória canta verdades
estes feixes tão carregados
de relativas perspectivas.

Olha a tua volta. O que vê,
senão pássaros dissecados
que migraram dentro da noite
e seus cantos decompostos
no olvido deste transeunte.

Do passado, nada advém,
senão estas suposições
do aqui.  

IX

P/ Vicent Van Gogh


Abissal mundo que não transfigura
forma dos humanos sentimentos
a visão
ramifica-se num auto-retrato
da desfiguração do eu.

Numa família que come batatas
ali não há manifestos ou estéticas
de um retrato singular dissipador
de movimentos.
 
Girassóis dos campos
dos desnudos vales
amarelos
esquizofrênica é a expressão
mimética.


X

P/ James Ensor


Na grande praça há sempre um festival
são as máscaras deste cerimonial
revestidas de caricaturas
as faces enfim se decompõem.

O espírito encarnou-se
e a exterior forma desfez
denunciando o que antes se ocultara
pelo impressionismo.

Festival de escárnios na entrada
onde as palavras não passam mais de
singelos murmúrios e silêncios
há uma intriga e uma farsa na praça de Bruxelas
Cristo terá reencarnado para retornar
ser recrucificado com a tez de teatro Nô.


XI

P/Paul Gaugin

Prisioneiro da angustiante rotina
lúcido teve de trair a alma de europeu
para lhe ser fiel,
amotinou-se contra a família
e do mundo.

Jacó de estranho mundo de formas
debate-se contra o anjo de Deus
até que este lhe abençoasse
Num paradiso taitiano
revelou-se
que o pecado coberto não havia
estava, porém incrustado na sensibilidade
contra os contrates
da alma de europeu
descobriu que num ninho de palhas o habitat
e a pintou a Cistina capela e a incendiou
consagrando-a ao tempo e espaço.

XII

P/ Gustav Klint

Sofisticado é adorno dos contornos
Inexplicável labirinto de detalhes
que se aprofundam
ao olhar.

Não tão furtiva é a mensagem imagem
há toda uma captação
dissimulada
entre matizes e cores.

O tempo não corrói adornos
que a se circundam inteiros
há uma rebelião
infundida
aqui nesta mandala
um ataque vienense
contra este mundo de adornos e de mídias.

XIII

P/Francis Bacon
Dilacerada carne crua encerra
um Inocêncio transfigurado
de papa
inocente
que berra
a catequese de
um einsenteiano
grito
onde boca a redecompõe
maquiavélica a essência dos crimes.

Os golpes contra o corpo nu de Cristo
são as marcas do tempo
de um Estudo da Violência
contra a face
da insurreição da mimesis
contra o próprio
pincel.


XIV

P/Edward Hopper


Nossas almas expressam a solidão
mundo nos margeia com os murmúrios
dizem coisas alheias de falas mui estranhas
soníferas que não se findam tão soturnas.

Teu pincel pinta toda decadência deste mundo,
nós redomados seres de nosso exílio inerente
que não se expressa mais em horizontes.

o teu realismo kitsch, mas real retrato
clássico na era dos pops e abstratos
pode demonstrar aos olhos concentrados
no vazio mais absorto de um báculo imutável,
cujo pincel é o instante imóvel deste instante:
Nadie more... Nadie more... Nadie more...

Aqui mesmo bem perto de nossos vazios
mesmo quando não estamos acostumados
(não é somente quando a solidão rufar o tambor
quando o nosso corpo alçar o necrotério)
cujo relógio sem expulsar os presentes
sobrepor as glórias no ritmo do pêndulo 
nas efígies pictóricas deste tempo: 


XV

P/ Frida Kahlo


Minhas retinas retumbam ainda
sinto uma angústia e vontade
de exaurir minha voz atônita
que singra pela soberba visão
de imagens que irão jamais.
 
Esta caricatura do rosto
como se cada instante
as linhas se decompõem
como se a cada momento
este eu magnífico de mulher
este desenho que segue
metamorfoseando num homem.

Este sonho ou pesadelo prematuro
talvez um prenúncio de um Calderon
alguns séculos e arquipélagos latos
cuja primeira dor foi o nascimento
tudo ali mesmo reunido e natimorto.

Este universo findo e amorfo
que está tão só e cru em nós
que por soberba olvidamos
este nosso torpe nascimento
do qual quando perecemos
e retornamos ao invólucro.

XVI

P/ Lucien Freud


Aturdido posso admirar os passos soturnos
esta face de homem perante este cosmos
cujos prédios, casas, fabricas e consultórios
são vistos como prisões de um eu submerso.

Tão lancinante a pictórica retina me enche
de um mórbido sentido cujas cores reais
perpetram e se perpetuam pelos quadros
ao alastrar de um lençol alvo que deixa luzes
como num pictórico de um ilusionista David.

Os homens e as posições dos corpos nus 
refletindo inutilmente sem um lago doirado
onde Narciso um dia quedou-se do eu
como se sentimento oceânico ali houvesse
ou se seu avô tivesse advindo ao cenário
posto a valise e o chapéu como diálogo
para que este universo auto-pensasse a si 
antes mesmo de tornar a se refletir como luz.

Doem estas efígies tão clássicas do pincel
que o cotidiano se adere e se aglutina
como que saído de túrgidos espaços
de uma lua que relembra um fúnebre sonho
onde o personagem está o tempo todo ali
sem esvair-se em realidades infinitas.

XVI.II

Algumas partículas esvaíram-se,
neste personagem que se põe
que se depõe ante o olho
que a luz obsequiosa
eternizada do verniz; uma efígie
que agora seduz o cotidiano.

Esta alva partícula
que se escreve no cotidiano,
cujo personagem 
como que solitário
ao ego que adere
como ave espessa
no crânio nítido
cujo corpo fenece
ao extinto gesto antanho
jazi nu.

O personagem adere ao plano
que perpassa nas alucinações
onde a angústia existe
como um peso sísifico.

Como não há abstrações
surge todo o primeiro plano
e como o plano já se adensou
adensa-se a dor que sai da retina.

Como não há mais retina
o personagem se tranca a si
dentro do olhar do espectador
para que a angústia oceânica
seja perpassada pela rotina
deste Sísifo que agora se refaz.

XVII

P Edvard Munch



Carros trafegam na mesma direção
palavras têm a mesma direção
cores têm a mesma direção
músicas têm a mesma direção
e rotina nivela o sentido e a rotina.

Ninguém grita mais alto que o grito
pouco significam os berros expressos,
rotinas.

Na mesma ponte perto do hospício
tudo se transfigura, mas nada muda
no implacável Cosmos do cotidiano
no cosmo desta implacável rotina.

XVIII


Luzes, sussurros! Perspectiva agora
o que somente os iluminados viram
outrora através das efígies infernais
como transeuntes desta avenida.

Não se fez serena agora a alma
cujos pássaros levaram para voar
a sombra que em ti te assustava?

Homens toscos nos ais d´almas,
pictóricos e mesmo quase imortais
como os santos de outrora agora;
e ainda leva consigo esta máscara
apenas o murmuro de eterno riso.  

ERIC PONTY

  


 

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