«Na Áustria, continua a ser debatida em todas as instâncias a situação desastrosa criada pelas medidas tomadas até agora e pelos planos adicionais do Governo que vieram a ser conhecidos», e continua a ser reconhecida por cada uma das frações, por unanimidade, a necessidade de o Clube, face à crise que ameaça gravemente os interesses do Estado, tomar posição com a maior veemência e a mais firme determinação, em conformidade com os seus princípios políticos orientadores». Mas qual é o sentido simples deste discurso rebuscado? Que os liberais alemães, movidos por um medo pálido dos radicais, apenas se aperceberam de que os seus mandatos estão em jogo; permanece obscuro — e oculto na construção sintática rebuscada dos seus comunicados — como é que, na verdade, concebem a resolução da questão linguística. O que é, portanto, «considerado urgentemente necessário, face à gravidade da situação política e à especial importância das decisões a tomar»? Nada mais do que isto: que os senhores, para começar, aprendam um alemão melhor ou façam com que os seus jornalistas o aprendam e que, se já não agem de forma lógica, pelo menos escrevam de acordo com as regras gramaticais. Que a representação do partido, no sentido mais amplo, se ocupe da condução desta ação e que o Comité Executivo seja encarregado das medidas preliminares para o efeito. É isso que, acima de tudo, é necessário. Sempre que termina um período do Conselho do Império, chegam os períodos muito piores dos comícios partidários; o § 14 constitui apenas a barreira sobre a qual a torrente de frases vazias passa a todo o vapor com ruído redobrado, e a grande opinião pública já se mostra impaciente, depois de, até agora, se ter afastado com tédio da batalha de frases, na qual a Constituição e a gramática alemã vão por água abaixo.
Felizmente, a vida constitucional austríaca continua a ser assegurada por aqueles dois jornalistas, um dos quais não sabe escrever corretamente e o outro também não sabe escrever incorretamente. Os povos da Áustria, que têm de se aborrecer diariamente com a leitura de todas aquelas resoluções e relatórios de situação de extrema importância, respirariam de alívio se lhes dissessem que o senhor que defende jornalisticamente a «garantia comum alemã» e cujo alemão é, de longe, pior do que a «situação dos alemães na Áustria», se chama Mendel Singer, e o outro senhor, que entre Viena e Praga «passeia os postulados dos checos», chama-se Penižek. No fim de contas, não passa, portanto, de um conflito profundo entre Singer e Penižek que abala o Estado austríaco nas suas bases mais sólidas. Como é que, ai de mim, esta Áustria mudou desde que Mendel Singer passou para a oposição, desde que ele, que outrora seguia cada governo de chinelos pelos corredores, passou a abastecer a imprensa austro-alemã com material explosivo! Em Penižek vemos o verdadeiro fator de poder, em prol do qual se planeia uma alteração do sistema centralista; e quando, certa vez, teve de ser expulso da tribuna dos jornalistas pelo presidente devido a comportamento impróprio, o governo, para lhe poupar a humilhação da exclusão, adiou imediatamente a sessão e mandou os representantes do povo para casa em vez dele.
Eis que voltam os senhores, donos de grandes propriedades e de mentes estreitas, avançando com as suas armas retóricas e disparando contra os pardais políticos que gritam aos quatro ventos a incompetência do governo. Todos vencedores do campo de batalha do comunicado. E quando o § 14 já há muito tinha sido consagrado nos seus direitos fictícios, os industriais ainda acorreram ofegantes e proclamaram enfaticamente no «N. Fr. Pr.»: «— vivas preocupações — - consideração dos interesses do Estado no seu conjunto - -- medidas ponderadas - -- aprofundadas - - - discussão conjunta -- Então, o Governo reúne forças para elaborar um plano, prepara os seus jornalistas para todas as eventualidades< e, uma vez que a ociosidade é a mãe de todos os vícios, pretende promulgar uma lei linguística ao abrigo do § 14. Mas também os liberais alemães não ficam de braços cruzados, emitem imediatamente um comunicado e declaram que se trata aqui apenas de uma indiscrição e que, caso o Ministério estivesse realmente disposto a pôr finalmente ordem e, nesse contexto, talvez também a ter em conta os desejos dos alemães, nunca, em hipótese alguma, poderiam dar o seu apoio a tal medida. As reivindicações de política nacional do povo alemão são e continuam a ser, afinal, um segredo editorial do senhor Mendel Singer e, mesmo que por vezes sejam discutidas em Praga, na residência do senhor Schlesinger, ou em Viena, na casa do Dr. Gross, não devem, por isso, chegar ao conhecimento do Governo. Os deputados, conscientes dos seus compromissos de honra, permanecem também em silêncio perante os seus eleitores; nada podem revelar e apenas o olhar inquieto suplica pela preservação do mandato. E quando os deputados alemães que votaram a moção de censura se reúnem, todos ficam com a impressão de que o povo alemão na Áustria trava a sua luta desesperada sob a mais estrita discrição... Mais uma vez, há alguns dias, a amargura geral manifestou-se em comunicados mal redigidos, e um Governo composto por pessoas com tão fraca capacidade de expressão acaba por não estar à altura do verdadeiro espírito revolucionário. Que o Governo tenha em conta, a tempo, o bocejo generalizado da população, que chega aos seus ouvidos de forma ainda mais audível do que o grito de socorro de um povo oprimido!
KARL KRAUS - TRAD. ERIC PONTY
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA
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