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sábado, outubro 24, 2026

AS CINCO MUSA - A VOZ DO POETA - ERIC PONTY

 I

Corpo de mulher, essência de uma deusa grega
você chega a este meu mundo, com a tez clara,
onde é possível se ouvir no sussurro deste tempo
os cantos de deusas de um dia de outrora Grécia.

Suas mãos são duas alças de um paraquedas  
que não deixa findar na minha solidão poética
que esculpe como a polpa do barro vermelho
cerne da essência da crença deste ocidental.

De mim, desta minha meditação solitária, eu,
deste eu tamanho como as serras de minério 
fundo e ermo, ego fundido no veio da rocha
esculpido no talhe desta pedra ou da madeira.

Na minha perspectiva eu avisto paisagens
planejo caravelas e mares e fados longínquos, 
fundo um dique para que as águas da consciência
não a acobertem com suas marés taciturnas.

Minha voz é um eco cheio de minhas memórias
que perpassa pelo clima frio e seco serrano
que dialoga com os movimentos dos pássaros
e bate lentamente como um sino de bronze.
  
II
      
Você se parece com o mundo telúrico e eterno
seu corpo é como uma ágata rara, de clara lua,
sumo do cantarolar dos pássaros pela aurora,
fundo e murmúrio de um riacho recém nascido.
        
Meu eu indivíduo de transeunte e selvagem 
que procura a polpa da terra e cerne da pedra
esculpindo pela rocha esta forma mais finda
estátua do marmóreo bronze destas serras.
    
Solitário eu meu canto eu estava no horizonte
estava só como um abismo ermo e taciturno
de onde não era possível perspectivar a manhã 
com seus ares de leve e alva brisa entranhada.

Em meu peito se acasalaram os pássaros
e a noite adormeceu como uma jovem morena
enquanto lá fora sussurrava o tanger da aurora
e o meu canto era o repicar de uma picareta.

Ah musas claras deste meu panteão sem Apolo,
de onde sobreviver é a grande Odisséia humana
e as rezas são apenas ecos de um dia terminado
eu me ajunto e me uno a este seu chamado.

III

Eu estava meditando só por entre os pássaros
e estes levantaram vôos levando consigo o meu eu
fundiram-se o azul céu como sua tonalidade
este fundo e forma essências do mesmo horizonte.

Em mim se fez uma noite tão escura como o breu
na imensidão deste fundo infinito havia os ecos
o rugir das estrelas e das constelações mortas
enterradas sem epitáfios dentro dos negros buracos.

Na imensidão deste meu eu tão noturno e só
não tangia o seu corpo moreno de tez clara
este branco leite de uma via-Láctea sucumbida
que em mim se fez como uma canção poderosa.

Ah musas eu quero sobreviver às suas setas
forjar minha uma nova essência desta alma  
como um sobrevivente de uma batalha abissal
fazer meu neste cantar tão presente do agora.

IV
 
É rubra e de cabelos de um milharal ao sol
de amarelo rumor que tange pelo cotidiano
de tez dissimulada e de palavras de ternura
numa verde praça de um Barão qualquer.

Tenho receio da ação do tempo e das horas
que possam em seus ponteiros ferir sua tez
ofuscar estes cabelos amarelos que douram
ao sol do tempo ao refletir esta minha solidão.

Quero o verbo hermético, de fundo marinho,
velado livro de um Valéry de um cemitério,
onde uma flecha zênica paira no ar estático,
como um sol sem movimentos ao meio-dia.

V

Perplexo e solitário eu estava só num beco
e este meu eu escapou de mim como ave,
um pássaro negro que adentra no espaço,
este não traz o agora da guerra, a poesia
que perpassa como um sussurro ao ouvido.

Este eu forjado pelas entranhas noturnas
pode dialogar com o eco da noite e tanger
com a aurora, por uma fina e tênue brisa,
que se lança como raio de eco de um galo
pelo delineamento e linhas de uma serra.

Na solidão apareceu-me como uma deusa,
como de um oásis de um deserto olvidado
e narravam antigas histórias sucumbidas,
de onde seu nome era recitado como salmo.

ERIC PONTY

  

   POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

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