Contra o céu febril de um outono, ela ergue
O orgulho de seu perfil estranho e de sua garganta;
Em seu vestido, o sangue do cisne que ela degola;
E em seus olhos azul claros, ternura sorri maliciosa.
Ele gira ao redor dela, como neve virgem,
Penas, cujo troféu os ventos levam embora;
A onda de sua pele, de sua camisola desabotoada,
Jorra como espuma, transborda e se espalha.
Gota a gota, espirrando a seiva exuberante
De seus seios fecundados em noites de feridas amargas,
O hálito quente de suas narinas inchadas
Faz cair aos seus pés delicados o leite morno do sonho.
O vestido se ajusta em pregas na cintura;
- Vestido de linho manchado e cinto dourado fosco; -
Em seu ombro robusto, uma marca púrpura;
E sua boca cantarola uma canção contrária à natureza.
Ela sobe sem pressa pela trilha verde e canta,
Canta palavras requintadas ao acaso, ao som de um tema vaga;
E segue, muito pálida, pelo caminho que ziguezagueia
Em direção ao cume eterno, onde a aurora lenta se torna alva.
E eu lhe digo, maravilhado: “Estranha deusa,
Que sobes ao cume com esse ar majestoso,
Por que teus pés apagam o brilho da grama?
Por que essas flores que tua mão de arcanjo murcha assim?”
O nojo segue teus passos como um cão faminto;
Tua sombra esteriliza e teu hálito queima;
Tu afugentas diante de ti a aurora, que recua:
A alma está sem ideal, a rima sem resposta.
A noite sobe atrás de ti pela encosta do cerro, noite densa,
Noite fria que penetra no coração, noite de pavor
Onde paira a loucura erótica que exalta
Teu reinado impuro e o pecado de sua demência.
Por que, enquanto rezo e imploro em vão
A ti, o Enigmático de olhos azuis como ametistas,
Que quebras o instrumento e fascinas o artista,
Temes esses brilhos de incêndio que se avistam a Leste?
Teus cães uivam; lá longe, sopra um vento estrondoso;
Por que esse brilho pálido em teus olhos? Tu, a amante
Impenetrável, cujo amor único nos assombra,
Ó tu, cujo capricho exalta e desonra?
Hécate tríplice, que cresces e diminuis;
À tua única vontade, mãe da glória ou da infâmia,
Por que te deténs, hesitante e pálida,
Rígida e com os olhos fixos, lá longe, nos cumes nus?
Eis que surge o dia real no céu de outono:
A sombra recua como uma maré impura
E o azul inocente, imaculado,
Cresce como uma praia que emerge e cintila!
Ártemis está de pé no cume escalado,
Envolvida em sua clâmide arcaica e olha
Para a planície deslumbrante e a floresta tagarela,
Inalando o aroma revigorante que emana da Vida;
A sombra de seus cabelos é como uma auréola,
A doçura de seus olhos, como uma confissão sem vergonha,
A voluptuosidade casta de seu peito domina
Os desejos pervertidos e a paixão louca.
Ressoa a grande lira nas mãos do corifeu,
Virgem, o dia resplandece nos frisos do antigo templo;
Para ti, do universo que tua misericórdia contempla,
O amor de sua alma sedenta se eleva em hino!
FRANCIS VIELÉ-GRIFFIN-TRAD. ERIC PONTY
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA
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