A VIDA DOS SOMBROS
I
Os quartos, que pareceriam cenários inanimados,
— Um aparato de silêncio com tecidos inertes —
Possuem, no entanto, uma alma, uma vida também, sem dúvida,
Uma voz fechada às influências do exterior
Que difunde seus pensamentos em halos de sons abafados…
Alguns, fastos, alegres, com um ar de indiferença!
Outros, o sorriso resignado de uma sala de visitas
Que fez voto de pureza entre as Visitandinas;
Outros ainda, grande luto pelas traições de um coração,
Molhando as bugigangas com lágrimas voláteis;
Quartos que ora são bondosos como uma irmã,
Ora recebem com olhos hostis,
Quando se perturba seu sonho no fio nu do espelho,
Seu sonho de Ofélia no espelho de águas paradas!
Elas têm uma vida estranha que se intensifica
Com as lembranças que os retratos antigos, ao entardecer,
Na testa de Ofélia, em guirlandas murchas,
Vão desfolhando no espelho languidamente,
Lembranças quase mais cor-de-rosa de outros anos!
Quartos repletos de sonhos! Elas vivem de fato
Em sonhos mais belos do que a vida ao redor,
Transformando tudo em símbolo, vendo
Em cada cortina pálida uma comungante
Com babados de musselina se desdobrando
Que comunga à beira das janelas, sob a lua!
E vendo no lustre uma alma de cristal
Que, ao menor impacto, contrai seus ramos um a um,
Sensível de vidro a quem o ruído causa dor.
Quartos cheios de sonhos e que, visionários,
Entre sua organização rígida e meticulosa,
Tomam as grandes poltronas por idosos com frio
Em círculo pelo quarto e debilitados.
II
Que doçura é unir nossa alma a esta vida
Dos quartos, que pelo menos são benéficos para nossos males;
Pois, para nos consolar, não são necessárias palavras
E seu silêncio, entre lençóis frescos, nos acalma
— Como um doente que se deita em uma cama refrescada!
Ah! Que nos acalmem! Ah! Que dor em nossos membros!
E esse imenso tédio que nada conseguirá abalar!
E essa dor em nossa alma no exílio… Mas os quartos
São acolhedores, são mães que conhecem bem
O coração do nosso coração, até mesmo nas nuances…
Elas têm doces mimos e bálsamos! Quão
consoladora é a paz delas, que influencia a alma;
E que esquecimento repentino de tudo! Que consolo
quando o vago suspiro das coisas nos embala ali,
respiração lenta e que, rítmica, adormece
como o som das águas, ou de um jardim sob uma chuva forte!
III
Sim! É suave! É o quarto, um porto tranquilo e afastado
Onde meu sonho, cansado de estender suas velas ao vento,
No espelho tranquilo e pálido se acomodou.
Ai de mim! Sem mais esperar pelos rastros das estrelas,
E pelas partidas para as ilhas, meu sonho dorme
No espelho profundo, como em um canal seco;
E será que devemos desejar uma rajada de vento que expulse
Para o mar aberto, essa alma ancorada no gelo?
IV
Minha alma, durante toda essa longa e triste tarde,
Sofreu com a morte iminente de um buquê!
Ele estava, longe de mim, no quarto ao lado,
Para onde meu medo o afastou, já quase murcho,
Um buquê de flores murchando, que se acreditava estarem a salvo
Ainda por mais um dia, na misericórdia da água,
Gloxínias nevadas com faixas malva,
Um buquê que, no quarto, apagava seu brilho
E perdia o brilho neste domingo à noite!
Minha alma, você sofreu e se esforçou
Para ver sua vida, igualmente murcha e inclinada,
Agonizando junto com essas doces gloxínias.
Ora, buscando a mim mesma nessa analogia
Passei esse final de dia amargurando-me
Com o espetáculo vão e a psicologia
Dolorosa das flores pálidas que estão prestes a morrer.
Vaso triste: hospital, fria alcova de vidro
Que um pouco de vento, pela janela aberta, areja
Mas que as faz morrer mais depressa, em espasmos suaves,
As pobres flores, na água vã, que são tuberculosas,
Espalhando, como em súbitos acessos de tosse,
Suas corolas sobre os tapetes melancólicos.
Doçura! Morrer assim sem sobressaltos, como se adormecesse,
Pois as flores não estão tristes diante da morte,
E desaparecer com esse crepúsculo sereno
Que, com um raio amarelo, mal se torna ácido.
V
O espelho é o amor. A alma gêmea do quarto
Onde tudo nele: o lustre em flor, os baús antigos,
A estatueta com as costas de bronze arqueadas,
Reflete-se em um hino nupcial silencioso.
Pois o amor, afinal, não é deixar de estar sozinho e não é
Duplicar-se por meio de outro melhor do que a si mesmo?
Ora, o quarto se duplica no fundo do espelho silencioso
Com um reflexo de sonho e de juventude;
Mas as coisas, no entanto, entre a moldura de ouro
Parecem sofrer com sua vida inativa;
O espelho que as ama limitou seu desfrute
A um recuo de vida exíguo e cativo;
E o amor absorvente e profundo do espelho
Entristece de infinito o quarto, que suspeita
De um desentendimento entre eles ao anoitecer,
Sentindo que o espelho não o contém por completo.
VI
No canto escuro do quarto, o piano
Sonha, aguardando as mãos pálidas de uma noiva
Cujos dedos são irrepreensíveis e sem anel,
Mãos suaves que curem sua dor
E que amenizem um pouco seu abandono de viúvo,
Pois ele estremeceria sob mãos grossas
Já que nele ainda dorme a esperança de uma nova felicidade.
Após tanto silêncio, após tantas elegias
Que o luto pelo ébano aprisionou por tanto tempo,
Que êxtase seria, se, em uma suave noite de primavera,
Alguma donzela atraída por sua melancolia
Ressuscitasse nele todos os ritmos latentes,
Um ramo de lírios feridos que seu toque lento desata;
Água pálida do teclado, onde seu gesto divertido
— Refrescado como se tivesse brincado em águas límpidas —
Faria surgir um cortejo branco e dócil,
Cisnes vestidos com o luar como escapulário,
Cisnes de Lohengrin nadando no marfim!
Ai de mim! O piano permanece sozinho e melancólico
E desfalece de tédio nesta noite afligida
Em que, no quarto, morre uma rosa suprema.
A noite cai; o vento sopra forte; ninguém veio
E, resignado em meio à sombra que o submerge,
Ele reprime no teclado, agora vazio,
As possibilidades de música e alegria!
Georges Rodenbach - Trad. Eric Ponty
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA

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