PARA ADAIR TIRADO - IN MEMORIAM
Amo o soneto porque é feitio antigo,
Para falar os doces sempre novas;
Porque antigo de não sei quantas trovas,
Um falar virginal alvo comigo.
O soneto é mais claro do que relvas,
Sim, perspectiva, eu nele apenas digo,
Inteiro é nobre em mim, feito que aprovas,
E é meu sereno á vida, e sendo meu ligo.
É alvo e leve, e tem sagrados de arte,
Uma leveza, enfim, tão cintilante,
Que, digo um dia lavrarei cantar-te.
Os teus diáfanos rútilos, dos versos,
Pus num soneto, e desde aquela cante,
Só sei compor-te, com destreza em versos.
II
Este soneto é todo teu, aclara,
Que ele traduziu sua humilde fúria,
Verso por estrofe estranha trajetória,
Desta musa afeição cintila e rara.
Leves, saudades, sanhas; nem notara,
Tanta fúria afinal na nossa hilária;
E este trecho, é grande dedicatória,
Onde a fala alma inteira se declara.
Abre esta relva, e encontraras senão
Teu coração de amor findo e falando,
Cantando e sorrindo o meu coração.
E se o falar mais claro a sós,
Sendo igual estivesses me olvidando,
Dizer de amor com tua própria foz!
III
Há tanto tempo que não aclara assim,
Num dia veste um céu escarcéu tão cinzento,
E ouço a chuva a ruir tal qual lamento,
Longe o rumor monótono sem fim.
Que entranha percepção de isolamento,
Nem atroz voz ouço ao longe de mim,
Só então ouço apenas lá por fora, o lento
A desfolhar as dores no jardim.
Ninguém diz meu redor, ninguém me fala;
E me largo a ficar com tédio imenso,
Desta sombria penumbra só desta ala.
Que inquietude tão oca há dentro em mim,
Não sei pra existo, não sei bem pra penso,
Há tanto tempo que não aclara assim!
IV
Nada é ainda! A testa florescente alma,
N'esses teus ainda dos vazios ensaios,
Olha este crânio, que recebeu em flama
Do sol do fado então derradeiros raios!
Mas só tu, ao seu presente e ao já rachado
Imerso dando as costas, passa agora
Os dias que lhe faltam abismado
Temperanças dos tempos seus de outr'ora.
Ao passo, entanto, ele assim recebeu
Como um labor da sorte àquelas horas,
Convulsões do mundo não concebeu.
Linda é esta lida, tu verás, tão brusca,
Quando de longe nós podemos vê-la,
Que nos parece d´alma porque ofusca.
ERIC PONTY
POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA
Nenhum comentário:
Postar um comentário