Pesquisar este blog

terça-feira, setembro 16, 2025

A QUESTÃO DO CÉU - Ch'u Tz'u - Trad. Eric Ponty

 

A autoria de As Canções de Ch'u é tradicionalmente atribuída a um mestre poeta chamado Ch'ü Yüan (c. 340 a 278 a.C.) e vários seguidores que escreviam no seu estilo. No entanto, há dois textos importantes em As Canções de Ch'u que claramente têm fontes antigas na tradição oral. O primeiro é “A Questão do Céu”, que é completamente diferente dos outros poemas de Ch'u Tz'u. A sua forma (quatro caracteres por linha) é muito semelhante à do Shih Ching anterior, assim como a sua linguagem, e, por outro lado, é bastante reminiscente do Tao Te Ching. Tal como o Tao Te Ching, deriva de uma tradição de sabedoria caracterizada por expressões breves e enigmáticas. E uma vez que essas declarações foram reunidas num único texto por um editor-tradutor posterior (talvez o próprio Ch'ü Yüan), ele ganhou um ar de colagem que lembra o Tao Te Ching.

Da nossa própria perspectiva cultural, «A Questão do Céu» é sem dúvida o mais interessante dos textos de Ch'u Tz'u devido ao seu caráter fragmentário e enigmático. Houve muitas tentativas de explicar essas características, como se fossem algum tipo de acidente textual ou histórico. Mas alguém conscientemente e intencionalmente reuniu essas expressões nesta forma e chamou o texto de poema, e isso faz sentido porque o enigma (esse espaço aberto na consciência) está no cerne da poesia e da espiritualidade chinesas. De fato, a sua natureza enigmática e filosófica torna “A Questão do Céu” indiscutivelmente o texto de Ch’u Tz’u mais densamente influente para a tradição chinesa. O mistério permeia todos os aspectos do poema. A “questão” do título aponta para a característica mais essencial do poema: é uma lista de perguntas, questionamentos sobre o universo, alguns dos quais sem resposta. 
 
A linguagem do poema é, por si só, especialmente sucinta e evasiva, mas isso é particularmente verdadeiro no caso das palavras interrogativas que se repetem várias vezes, pois são totalmente ambíguas. Enquanto temos de fazer uma escolha, o chinês permite qualquer uma ou todas as possibilidades: o quê, porque, onde, como, bem como várias formulações que utilizam essas palavras. Por exemplo, pode ser traduzida de várias maneiras, entre elas:

O que [porta] se cerra para originar a crepúsculo da noite?
Como ela [o céu] se cerra, causando a crepúsculo da noite?
Onde ela se cerra, causando a crepúsculo da noite?
Por que ela se cerra, originando a crepúsculo da noite?
Como ela poderia se encerrar, acarretando a crepúsculo da noite?
Como seu encerro poderia ocasionar a crepúsculo da noite?

Assim, uma única pergunta pode abranger desde uma expressão de admiração pelos fenômenos cosmológicos até ao ceticismo em relação à explicação humana desses fenômenos. O título não ajuda a esclarecer o mistério do poema. Composto por apenas duas palavras, céu (t'ien) e pergunta (wen), ele pode ser interpretado de várias maneiras: «perguntas sobre o céu», «questionando o céu», «perguntas do céu», «o céu pergunta» e assim por diante. Independentemente de como essas duas palavras sejam interpretadas, deve-se lembrar que, após a reformulação de Lao Tzu (veja aqui), céu significava não apenas “os céus”, daí o interesse cosmológico do poema, mas também “processo natural”. Deste último significado vem a sugestão mais profunda do título — que a realidade empírica é fundamentalmente enigmática, como sugere o poeta Tu Fu, da dinastia T'ang, quando fala das «questões que os picos abrigados pelas nuvens botam».
 
 A QUESTÃO DO CÉU

1
Desde a origem remota de todo antiquíssimo,
quem nos conta a história?
2
Antes que o céu e a terra tomem forma,
como tu se aprofundas no que está lá?
3
Quando a luz e a crepúsculo ainda são um laivo,
quem pode ver por meio de tua fonte?
4
Quando tudo é um caos primordial,
como tu vês a forma das coisas?
5
Brilho ardente e escuridão total
e nada mais: como isso adveio?
6
E quando o yin e o yang deram à luz pela primeira vez...
o que foi enraizado e o que foi demudado?
7
Nove pontos de bússola celestial armados,
corretamente medidos e ajustados.
8
então, como o firmamento foi criado?
, no princípio, foi posto em oscilação?
9
Como pôde ser enlaçada tua vasta rotação?
E como teu eixo foi erguido ali?
10
Como teus oito pilares foram assentados no lugar?
e por que o Sudeste está se dobrando para baixo?
11
Os limites de tuas nove regiões.
como elas poderiam se juntar, ou se arredar?
12
E as tuas voltas para frente e para trás,
quem sabe quantos podem ser?
13
O que torna o céu inteiro e completo?
E de que forma ele é dividido em doze palácios?
14
Como o sol e a lua estão ligados?
E como as estrelas dispersas são calhadas?
15
Erguendo-se das essências do Abismo Fervente,
retornando para serenar no Golfo do Negrume,
16
Da luz da manhã até a crepúsculo da noite:
a marcha do sol dura quantos quilômetros?
17
Então o radiante da noite - por qual poder
pode se extinguir e logo regressar à vida?
18
Uma lua Cheia? E o que ela ganha
com um coelho dentro de teu ventre contemplando?
19
A Mãe Estrela nunca acasalou - então como é que
ela deu à luz nove filhos das estrelas?
20
Onde vive o grande Ancião Estrela do Vento?
E onde moram os quentes ch'i- brisas?
21
O que se fecha para originar a crepúsculo da noite?
O que se abre para originar a luz da manhã?
22
Antes que as estrelas anunciem o ato de nascer da primavera,
como o sol do Espírito Esplendor está abrigado?

Ch'u Tz'u - Trad. Eric Ponty

   ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

Nenhum comentário: