Prezado Eric,
É com gosto que recebemos e tivemos a oportunidade de avaliar o seu projeto “Vuzes quasi distantes”, na última semana.
O Conselho Editorial da Ipê Das Letras estabelece critérios rigorosos na publicação de seus originais, procurando fazer desta uma análise objetiva. Queremos, independentemente do parecer final, passar ao autor todas as considerações, cientes de que o olho e cérebro humano vão estar sempre sujeitos à subjetividade. Desta forma, a crítica a que procedemos, é feita com o intuito de acrescentar valor e ajudar nesta fase de edição com nossa casa editorial.
Somos um grupo internacional com 15 anos de trabalho no mercado editorial e definimos, ao longo de todos esses anos, os critérios que consideramos evidenciar as potencialidades da obra.
Esta análise crítica é puramente informativa e não poderá ser utilizada para outros fins ao longo do processo editorial. Para cada ponto foi realizada a respetiva análise (de acordo com o contexto da obra), pelo que encorajamos o diálogo e a oportunidade de conversarmos mais acerca de todo o projeto que temos planejado.
“Vuzes quasi distantes” é mais do que uma simples tradução: trata-se de um esforço curatorial e estético que reconfigura o contato contemporâneo com vozes literárias do passado, sobretudo a de Michelangelo Buonarroti e, em seguida, de Petrarca. A obra estabelece uma ponte viva entre línguas, épocas e sensibilidades, oferecendo ao leitor lusófono não apenas o acesso a textos originalmente escritos em italiano e latim, mas também uma experiência de recriação interpretativa, onde a fidelidade literal cede espaço à fidelidade poética. O título já antecipa o seu espírito: “quasi distantes” são essas vozes — não inteiramente afastadas, nem perfeitamente próximas — que ecoam através da mediação da tradução com tonalidades próprias.
Estrutura e propósito
A organização da obra revela uma intenção dupla: apresentar ensaios e reflexões críticas (como no longo texto sobre Michelangelo, de forte inclinação estética e filosófica) e, paralelamente, oferecer versões poéticas de sonetos e madrigais italianos. A primeira parte da obra é dominada por uma reflexão intensa sobre o gênio de Michelangelo, fundindo crítica de arte, filosofia da forma e comentário histórico com um lirismo ensaístico notável. É um texto que desliza entre a análise minuciosa e a contemplação emocionada, situando-se em um registro próximo ao do ensaio literário de tradição europeia.
Nas partes seguintes, vemos a tradução de poemas de Michelangelo e, eventualmente, de Petrarca, apresentadas com certo grau de literalidade poética, preservando o ritmo afetivo dos versos originais. Essa disposição permite que a obra seja lida tanto como objeto de apreciação estética quanto como instrumento de acesso cultural e literário.
Temas e abordagens
No centro da reflexão que abre a obra está a ideia da “força doce” que define a arte de Michelangelo —
a coexistência entre potência e ternura, tensão e graça. A análise percorre não só os aspectos
plásticos da escultura e pintura do mestre renascentista, mas mergulha em sua psicologia criativa,
sugerindo que a doçura de sua arte reside, paradoxalmente, no vigor com que ela é formada. O
ensaísta observa com clareza que “não o Juízo Final, mas a Ressurreição é o verdadeiro tema de sua
obra”, apontando para um traço espiritual e existencial profundo, que transcende o religioso para
alcançar o humano.
Nos poemas traduzidos, esse mesmo espírito se faz presente: o amor, o desejo, o conflito entre carne
e alma, a finitude e a eternidade se entrelaçam com vocabulário denso e imagens fortes. Há uma
ênfase recorrente na contradição interna: o amor que fere, a beleza que condena, o fogo que purifica,
a morte que redime. São temas clássicos tratados com a intensidade renascentista, mas acessíveis ao
leitor contemporâneo por meio de uma tradução que opta, frequentemente, pela transparência
emocional sobre a formalidade métrica.
A seção final, dedicada a Petrarca, amplia o escopo da obra e a conecta à tradição humanista. O
ensaio biográfico e crítico sobre o poeta de Laura é mais do que contextual: é uma tentativa de
leitura moderna, revelando o conflito entre a fama alcançada e a angústia espiritual que permeia sua
obra. O texto observa que Petrarca, mesmo coroado e venerado, permanece como “um exilado
permanente”, o que reconfigura sua poesia amorosa como expressão de uma ausência essencial, mais
filosófica do que sentimental.
Linguagem e estilo tradutório
A tradução dos poemas se destaca por sua ousadia e inventividade. Longe de uma literalidade rígida,
os versos mantêm ressonâncias do italiano original, mas fluem com uma sintaxe por vezes
fragmentária, carregada de ambiguidades e desvios que ecoam o espírito dos textos-fonte. A escolha
por manter algumas estruturas arcaicas ou distorcidas (“minha culpa, do início branco”; “alma fez
primeva”; “de sincera cintura que se amarra”) não é mero acidente, mas uma decisão estética
coerente com a intenção de preservar a estranheza da origem. A leitura exige atenção, mas
recompensa com um sentimento de resgate: as vozes de Michelangelo e Petrarca não estão apenas
traduzidas — estão reinterpretadas.
O uso do português é cuidadoso, ainda que permeado por estruturas que desafiam o leitor comum.
Em vez de domesticar os textos, a tradução opta por manter um certo mistério, uma distância que
obriga o leitor a decifrar, como se se tratasse de vestígios antigos recém-revelados. Essa opção
estilística contribui para a atmosfera da obra, que se propõe desde o título como evocação de ecos e
não como discurso direto.
Destaques literários
Entre os trechos mais notáveis, está o longo ensaio sobre Michelangelo, no qual se afirma que seu Adão na Capela Sistina “mal tem força suficiente para levantar o dedo para tocar o dedo do criador; no entanto, um toque das pontas dos dedos será suficiente.” Essa imagem, conhecida e poderosa, é aqui retomada com uma delicadeza reflexiva que traduz o gesto em conceito: a criação, para Michelangelo, não é um clímax heroico, mas um sopro sutil, uma promessa de vida no limiar da matéria bruta.
Nos sonetos, destacam-se aqueles em que a experiência da dor é encenada como forma de transcendência. O soneto 46, por exemplo, reflete sobre a criação escultórica com imagem autorreferente: “Se meu bruto martelo às duras rochas, / Formam dum aspecto ou isto ou aquilo…
”.
Essa linha evidencia o tema do fazer artístico e a maneira como o escultor-poeta se funde com sua obra, moldando sentimentos e ideias como quem extrai vida da pedra.
Conclusão
“Vuzes quasi distantes” é uma obra de atravessamentos: entre línguas, tempos, formas e sensibilidades. Ao reunir ensaio, tradução poética e reflexão biográfica, o volume constitui um raro exercício de mediação cultural que privilegia o afeto estético e a densidade simbólica. A tradução não busca a transparência imediata, mas a ressonância fiel — fiel ao espírito, à música e ao mistério das obras originais. O leitor que se dispõe ao mergulho encontrará, aqui, mais do que textos históricos: encontrará vida. A vida densa, áspera e doce que pulsa nas obras de Michelangelo e Petrarca, revitalizada por um trabalho tradutório de coragem e sensibilidade.
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