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domingo, abril 20, 2025

LUAR - Jules Laforgue - TRAD.Eric Ponty

Pensar que nunca viveremos nesta estrela,
às vezes me dá uma pancada no epigástrio.
Ah, qualquer coisa por você, Lua,
quando dá um passo à frente
Nas noites de agosto, através do
encantamento do silêncio!
E quando você rola, desmontada, para o mar
Através das negras ondas das nuvens!
Oh, para subir, perdida, para saciar minha sede
Sua bacia de batismos beatíficos!
Estrela cega, farol fatal
De voos migratórios de Ícaros queixosos!
Olho estéril como o suicídio,
Nós somos o congresso dos cansados, preside;
Crânio congelado, zomba da calvície
De nossas burocracias incuráveis;
Ó pílula da letargia final,
Infunda-se em nossos cérebros duros!
Ó Diana da clamídia dórica,
Cubas de amor, pegue sua aljava e pique
Ah! com um golpe inoculador o ser sem asas,
Corações de boa vontade na terra!
A estrela lavada por inundações inauditas,
Que um de seus castos raios,
Esta noite para inundar meus lençóis,
Deixe-me lavar minhas mãos da vida!
Clima, fauna e flora da lua
Das noites, ó Lua da Imaculada Conceição,
Eu, verme das nebulosas de segunda mão,
Amo, dos telhados frescos de nossa Babilônia,
Projetar seu clima, sua flora e sua fauna.
Sem saber o que inventar para
lhe oferecer meus problemas,
Ó jangada de Nihil para os cais solitários
de nossas noites! Sua atmosfera é fixa, e
você sonha, congelado
Em climas de silêncio, eco do hipogeu
De um céu sem vida, onde nenhuma nuvem dorme
Por ventos que sussurram, no máximo,
que estamos mortos?
Montanhas de madrepérola e golfos de marfim
Refletem seus cibórios místicos,
Em enseadas onde, sobre palafitas, com um ar lento,
As sereias fazem suas esteiras, lambem seus flancos,
Pálidas de luxúria ao luar.
Ali, aqueles golfinhos alegres com seus gêiseres de mercúrio.
Sim, este é o outono encantatório e permanente
Sem termômetro, perfumando mares e continentes,
Lagoas cegas, lagos oftálmicos, fontes
De Letes, cinzas de ar, desertos de porcelana,
Oásis, solfataras, crateras extintas,
Serras árticas, cataratas de ar de zinco,
Altos platôs calcários, pedreiras abandonadas,
Necrópoles menos antigas que suas gramíneas,
E dólmens em caravanas, - e tudo muito
Encantado por ter cumprido seu tempo,
para sonhar no frescor.
Salve, sapos enrugados distantes, de sentinela
Nos picos, batendo os dentes para essas pombas-tartarugas
Jovens intrigados com suas melodias! Olá, cetáceos
Brilhantes! E vocês, lindos como navios de guerra,
Cisnes de outrora, nobres testemunhas de cataclismos;
E vocês, pavões brancos que se criam em auroras prismáticas;
E vocês, fetos abobadados, contemporâneos sem cabelos
Esfinges de problemas com bigodes de bronze
Que, no bater das cavernas basálticas,
Ruminam por fim! Como um chique imortal!
Sim, renas com chifres de cristal, ursos polares
Grave como os Magos, vocês vagam,
Braços estendidos em direção aos méis do silêncio divino!
Porcos-espinhos sem rumo bifurcam suas lanças pálidas;
Sim, borboletas com lombos de joias
Abrindo suas asas com as duas abas dos in-folios;
Sim, hipopótamos gelatinosos nas pálidas flotilhas de 

rebanhos que exploram o cérebro;
Pitões nos intestinos de cérebros mortos abstratos,
Bancos de elefantes mofados que um sopro esmigalharia!
E vocês, flores fixas! Mandrágoras com rostos,
Cactos obeliscos com frutos de sarcófagos,
Florestas de velas maciças, parques de polípteros,
Palmeiras de coral branco com resinas de aço!
Lírios marmorizados com sorrisos histéricos,
Que começam a cuspir albos musicais
A cada cem anos, quando você está prestes a tomar leite!
Cogumelos construídos como palácios!
Ó Fixe! Não sabemos mais a quem dar a palma
E que lição de calma!
Tudo parece emanar do mesmo ato de fé
No Nada cotidiano, sem como ou por quê!
E nada sombreia ou se desintegra;
Não nasce, nem amadurece; tudo vive de um feitiço
Sem lar, que mal induz a um gasto
Do que por amores brancos, lunares e distraídos...
Não, você acabaria com uma dor de cabeça,
Com o riso idiota dos mármores egípcios
Por muito tempo tudo isso estagna em um espelho morto!
E você logo se esqueceria de como sair dele.
E ainda assim, ah! é quando você volta a ele outra vez
E sempre, quando entende Madrepore.

 Jules Laforgue - TRAD.Eric Pont

ERIC PONTY POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA

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