E das colunas e os simulacros e das hermas,
Torres de nossos abalos,
Porém na glória te vejo,
Não vejo o laurel e o ouro de que estava repleta,
Nossos pais velhos. Agora fecha inerme,
Nua na frente do nu do peito de Minas,
Ai de mim! Quantas feridas,
Que a lividez há no sangue! Ô qual te vejo,
Formosíssima senhora! Eu pergunto ao céu,
E ao mundo cabe decidir;
Quem te reduziu a tal? E a vez pior,
Que das cadeias têm carregado nos braços;
A tal desagrado há chegado de desordena cabeleira assim
Vejo sentada na terra, abatida, desconsolada,
Ocultando o passado,
Entre sinos chora.
Chora, que farta razão tens, meu São João,
Para ganhar essas gentes cá nascidas
Em boa fortuna ou má.
Se foram teus olhares de fontes vivas.
Nunca poderia em canto
Igualar-te a teu dano e ao teu opróbrio,
Que fosse senhora, agora surge escrava.
Quem te canta ou te escreve,
Que recordando teu esplendor,
Não diga: Foi-te o grande o tempo, agora não sois aquela?
Por quê Por quê? Onde foi tua força velha,
Aonde as armas, e o valor das suas continências?
Quem te destinou à forca?
Quem te traiu? Sendo a arte da fatiga,
Que grande poder
Pode despojar-te do manto e da áurea cinta?
Como caíste e quanto
De tanta altura se fez um baixo lugar?
Nada luta mais por ti? Não te defende
Nenhum dos teus? As armas, aqui estão armas: Eu só
Combaterei, sucumbirei eu só.
Dá-me o céu, que sejas logo,
Nos Lenheiros peitos ao sangue meu.
Onde estão teus filhos? Ouço barulho de armas,
De carros, vozes, e de fanfarra:
Em estrangeiras terras
Combateram teus filhos.
Escuta-me São João, escuta-me. Eu revejo, ou só imagino,
Num flutuar de crianças e de sinos,
O incenso e o pó no fulgurar das igrejas
Como no Ofício de Trevas.
Não te consolas? E os temerosos olhares
Não te atreveste a volver ao duvidoso evento?
Por quem luta aqueles campos
A juventude de São João? Os inúmeros, os inúmeros:
Lutaram entre outras terras dos Italianos.
Ô desgraçado daqueles que na guerra morrem,
Não por nossas causas, mas por piedosa
Esposa e dos filhos caros,
Senão por inimigos dos outros
E por outras gentes, já não posso dizer por que morreram:
Prezada terra, minha,
Minha vida que tive de devolvê-la!
Ó felizes e prezados, e benditos,
Das velhas cidades em que se morrem,
Por essas serras corriam as gentes da comunidade,
E vós sendo das outras preclaras e gloriosas,
Sendo que desaplicas gargantas,
Em que no Porto e nos Rios das Mortes mui menos fortes
Fizeram em poucas almas francas e generosas!
Já creio que nas plantas e nas rocas do doiro,
Com indistintas vozes
Ou quando daquelas orelhas,
Cobriram os invictos bandarras,
De corpos que de vossa Graça eram devotos.
Então vil ouro
Reluziam entre essas serras e Lenheiros,
Retorno ao escarnio de vossos descendentes;
Sendo que na colina do Lenheiro, cá morrendo,
Se subtrai a sorte na sagrada legião,
São Francisco se alcançava
Olhando o céu, a colina e a terra.
Sendo que de lágrimas banhadas das pálpebras,
Do peito alheio e de vacilante pé,
Tombavam em suas mãos e lira:
Ditosos sendo vós,
Que ofertais ao peito a inimiga quimera
Por amor da que Deus lhe fez em luz,
Vós, há quem o Lenheiro adora e ao mundo admira.
Sendo-lhe as armas e o perigo
Que há no amor os carregou num destino certo?
Como lhes são gratos esses filhos,
A hora extrema lhes pareceu, que sorridentes,
Correis ao transe doloroso e duro?
Parecia que a dança e não há sorte marchar-te,
Cada um de vós, sendo do esplêndido banquete:
Tanto que vos esperava o oculto
Tártaro e onda fenecida;
Não estavam vossas esposas e filhos de vossos lados
Quando se fez áspera orelha
Sem beijo pereceis e sem canto.
Ó primeiro dia, silêncio memorável,
Quando nossos olhares se viram na prima vez,
Nos fizeram silenciar e temer nossa voz
Porque sentimos no agora o inexorável,
De nosso coração todo esse peso adorável,
Do amor menino que vai nascendo, ó doce peso,
Nascer conosco que tocamos em nossos dedos.
Te recordas por acaso? Contudo, não me recordo,
Faz falta alma minha, que me acorde?
O que nunca hei deixado de ser, ó minha,
Sendo que precise que desande que andado,
E, contudo, quereis que cante o meu beijo,
Senão frutos, dons, olhares, braços,
Que não havendo sempre alma que resguarde!
POETA, CRÍTICO, TRADUTOR IVO BARROSO E POETA ERIC PONTY

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