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sexta-feira, novembro 04, 2022

Três Sonetos de Torquarto Tasso e o Intertextual - Eric Ponty

 I 

Teóricos recentes argumentaram que as obras são feitas a partir de outras obras: tornadas possíveis pelas obras anteriores que elas retomam, repetem, contestam, transformam. Está noção às vezes é conhecida pelo nome imaginoso de "intertextualidade". Uma obra existe em meio a outros textos, por meio de suas relações com eles. Ler algo feito literatura é considerá-lo feito um evento linguístico que tem significado em relação a outros discursos: por exemplo, feito um poema que joga com as possibilidades criadas por poemas anteriores ou feito um romance que encena e critica a retórica política de seu tempo. Agora, feito ler um poema feito literatura é relacioná-lo a outros poemas, com parar e contrastar o modo feito ele faz sentido com os modos feito os outros fazem sentido, é possível ler os poemas feitos sendo, em algum nível, sobre a própria poesia feita nestes três sonetos primeiros Torquato Tasso – Rime:

Fortuna vença se estiver sob peso,
De tantos cuidados, enfim, caírem;
Ganhar, e do meu descanso e bem,
Troféu profano está pender no templo.

Ela, que me fez mil altos impérios,
Tão vil e igual às arenas mais baixas,
Meu mal cá se vangloria em minhas mágoas,
Conta, e me chama por sua ira ofendida.

Portanto, a natureza estilo mudam,
Será mudo meus risos em prantos?
Presságio espera por meu eterno mal?

Chora, alma triste, chora; e sua amargura,
chorando uma tenebrosa revolta,
Exílio seja então do nosso inferno.

 II

A linguagem resiste aos enquadramentos que impomos. Qualquer conjunto de textos que pudesse realizar tudo isso seria realmente muito especial. 0 que é a literatura que se pensava que pudesse realizar tudo isso? Uma coisa que é crucial numa estrutura especial de exemplaridade em ação na literatura feito este soneto por Torquato Tasso:

Já completou o grande planeta eterno,
Que eu ao tormento afligido pelo escárnio,
De suspiro cruel da Fortuna era,
Sendo indigno é o que pretendo ar.

Ao meu redor ou em outros, eu percebo:
Belo é bem, se olhar pra vós, peito interior;
Mas quê? Prêmios só vergonha e martírio,
Belo é que, visto no mundo, exemplo.

Por honra: Estátua ambos são escultores,
E vivem respirar uma e outra imago,
Belo ídolo não prestai atenção,

Vero desejo; mas vós, ai de mim!
Fé e o coração que são altar e templo,
Em meio tais tormentas e dilúvios!

A estrutura das obras literárias é tal que é mais fácil considerar que nos contam sobre a "condição humana" em geral do que mencionar que categorias mais restritas elas descrevem ou iluminam. A literatura é um instrumento ideológico: um conjunto de histórias que seduzem os leitores para que aceitem os arranjos hierárquicos da sociedade? Se as histórias aceitam sem discussão que as mulheres devem encontrar sua felicidade, se é que vão encontrá-la, no casamento; se aceitam as divisões de classe feito naturais e exploram a ideia que trabalham para legitimar arranjos históricos contingentes. Ou a literatura é o lugar onde a ideologia é exposta, revelada feito algo que pode ser arguido? A literatura representa, por exemplo, de uma maneira potencial intensa e tocante, do arco estreito de opções históricos oferecidos às mulheres e, ao tornar isso visível, alça a possibilidade de não se aceitar isso sem discussão. Ambas as asserções são inteiras plausíveis: que a literatura é o veículo de ideologia e que a literatura é um instrumento para sua anulação. Aqui novamente encontramos uma complexa oscilação entre as "propriedades" potenciais da literatura e a atenção que realça essas propriedades.

A literatura é o ruído da cultura assim feito sua informação. E uma força entrópica assim feito um capital cultural. E uma escrita que exige uma leitura e envolve os leitores nos problemas de sentido. A literatura é uma instituição paradoxal porque criar literatura é escrever de acordo com fórmulas existentes - produzir algo que parece um soneto ou que segue as convenções do romance - mas é também zombar dessas convenções, ir além delas. A literatura é uma instituição que vive de expor e criticar seus próprios limites, de testar o que acontecerá se escrevermos de modo díspar neste soneto de Torquato Tasso: 

III

Alma real, que por gracioso véu,
brilhar sol brilhar por meio cristal,
E olhos e rosto adornados de luz,
Donde tão brilhante é do quarto céu.

Tu, quem se liga com amor zelo casto,
De pérola em ouro, ao glorioso dueto,
Reze pra que ele me desenhe onde há sol,
D´ocioso escuro no qual só tormento:

Abarbar de tristeza e desconfianças,
Lenheiro sofre, serra quebra em choros,
Não temeu à morte, mas longo estrago.

Cárcere aberto e meus lábios cantar,
Desatar nós, em nó doce apertar,
Dissolverei dos votos deste templo.


Estamos lidando com o que poderia ser descrito feito propriedades das obras literárias, traços que as marcam feitura da literatura, mas também com o que poderia ser visto feito os resultados de um tipo particular de atenção, uma função que atribuímos à linguagem ao considerá-la literatura. Parece que nenhuma das duas perspectivas consegue englobar a outra de modo a tornar-se uma perspectiva abrangente. As qualidades da literatura não podem ser reduzidas as propriedades objetivas ou a consequências de maneiras de enquadrar está linguagem.
 ERIC PONTY

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