Para Maria Ângela de Resende, Cláudio Leitão, Guilherme de Resende eternos
Me encontrava em uma selva escura,
Com a senda direita já perdida,
Ah, pois dizer qual era é coisa dura,
A selva selvagem, áspera e forte
Que em o pensar renova apura!
É tão amarga que algo mais é morte,
Mas por tratar do bem que ali achei,
Direi de quanto ali me deu na sorte.
Repetir não sabia como entrei na via,
Ela, pois, me vencia sonho o mesmo dia
Em que o veraz caminho abandonei.
Mas atrás chegar ao cerro que subia
Ali onde aquele vale terminava
Com pavor a minha alma confundia,
Ao olhar que cumpre, vi que me estava
Vestida das extensões do planeta,
Que boa passagem todos assinalava.
Ficando a apreensão um pouco quieta
Que de meu coração dolorido
Em o lago durou a noite que me inquieta.
E como aquele que com alento ardido,
Do oceano saído a ribeira dum rio,
Olhar a água que quase lhe há perdido,
Minha alma, que fugitiva então era,
Voltou-se a contemplar de novo o passo
Que não atravessa nada sem que morra.
Atrás repousar pouco corpo cansado,
Meu caminho segue por um tal deserto,
Mais abaixo sempre o pé que não dá passo.
E, apenas o caminho me ouve aberto,
Um leopardo leviano ali surgiu,
De pé manchado todo recoberto;
Parado em frente minha, frente me dava,
Cortando desse modo meu caminho,
E eu, para volver, já me retornava.
Era ao tempo primeiro matutino
E se eleva ao sol com suas as estrelas
Que estiveram com o quando o divino,
Amor movia daquelas coisas belas,
E esperar bem podia, e com razão,
Ao que a fera esbravejava visse
Agora da aurora e a doce estação;
Mas não sem temor me produzisse
A efígie, que vi então, que dum leão.
Me pareceu ele contra mim viesse,
Alta a testa e com remotos olhos,
Que dar ares de que o ar lhe temesse,
E uma loba, que em todas suas garras
Guardar semelhava em sua brancura
E há muitos buscou duelo emboscada,
Me chegou de inquietude com a bravura
Vinha reluzir em qual sua perspectiva
E perdi minh´esperança desta altura.
E, como a aquele que goza na jornada
Dá ganância e, quando chegado dia
De perder, chora tua alma contristada,
Assim besta, que havia me vencia,
Me esforçava sem trégua, lentamente,
Ao lugar em que ao sol não se brilhava.
Então me deslizava ao pedinte,
Já me olhava sendo descoberto
Há quem por mudo porque silencia.
Quando ao contemplei no grande deserto,
«Tenha piedade —eu lhe gritei— de minha,
Já sejas sombra ou sejas homem certo! ».
Respondia-me: «Homem não, que homem já fui,
E por pais lombardos sendo gerado,
Dá mantuana pátria. Eu nasci qual filho,
Sobre Júlio, ao que tarde, e hei morado
Na Roma regida pelo nobre Augusto,
A que a falsas deidades hei adorado.
Poeta fui, cantei então ao justo homem
Filho de Aquiles, que de Troia vindo
Quando o soberbo leão ficou robusto.
Mas por que moves em teu amargo signo,
Por que não vai ao monte benigno
Que de todos os gozem sendo caminho? ».
Es tu aquele Virgílio e desta fonte
De quem brota caudal da eloquência?
Lhe respondi com vergonhosa frente—.
Dos poetas a honorável e ciência,
Vaga-me ao largo estudo e grão amor
Com que busquei em teu livro sapiência.
Olhava teu mesmo mestre, teu meu autor:
És tu somente aquele do que hei tomado
Do belo estilo que me dirá honradez.
Olhando besta havia atrás me deparado,
Sábio famoso, e arrojando-me seu ultraje;
Por ela penso e venhas me hão observado. »
«Te convêm empreender distinta viagem
—Me respondeu me olhando que chorava—
Para deixar enfim este lugar selvagem:
Que esta, por a que gritas, besta brava
Não cedeu a nada ao passo por sua via
E com a vida de que planeja revoga;
Sendo sua natureza tão ímpia no trato,
Nunca sacia sua consciência odiosa
E, detrás comer, tendo fome, todavia.
Com muitos animais que se desposa,
E muitos mais serão até ao momento
Em que de Lebre morta espantosa.
Não serão terra e ouro seu alimento,
Senão amor e sapiência reunida;
Tenderá entre mago, mago nascimento.
Verá Itália tuas forças ressurgidas
Por quem, virgem, Camila falou morte,
E Euríalo, Turno e Niso, em feridas.
Dum povo e doutro lhe recheará sorte,
Que fará de dar com ela no Inferno,
De que a inveja primeira que a diverte,
De onde, por teu bem, penso e discerno
Que me sigas e eu lhe serei teu guia,
E hei de levar-te até ao lugar eterno,
Onde ouvirás espantosa gritaria,
Verás almas tão antigas dolorosas:
Que segunda morte chorar a porfia,
Verás gentes também que são grandiosas
Nas chamas, que esperam conviver
Dum dia com suas almas venturosas,
Das quais, se aspiras a ascender,
Mais que a minha existe uma alma pura:
Com ela, a irei-me eu, te verei ir;
Aquele imperador que aí na altura,
Posto que fui rebelde a sua doutrina,
Que eu não cheguei a sua urbe busca,
Ao todo desde ali regi e domina,
Ali estão sua cidade e sua alta sede;
Feliz daquele há quem ali destina! ».
Dizendo eu: «Poeta, pois eu sou pode
Aquele Deus tu nunca terás perito,
Deste mal livre, e de outro maior, fique;
Leva-me onde agora hei prometido,
E as portas de Pedro vejas um dia
E a os de ânimo triste e afligido».
Ao eco andar, e eu detrás lhe seguia.
POETA,TRADUTOR, LIBRETISTA ERIC PONTY
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