MANHÃ
II
Amor, quantas maneiras dum beijo,Que solidão andante para a tua empresa!
Ainda os trens sós jazem a rolar à chuva.
Maio ainda não amanheceu em Taltal.
Mas tu e eu, meu amor, estamos juntos,
juntos desde que roupas até às raízes,
juntos de Outono, de água, de ancas,
até que sejamos só nós, só eu juntos.
Pensar custou tantas pedras que rio impregnou,
Desembocando a boca da água de Boroa,
pensar que arredios por trens e nações.
Tu e eu se nós tivemos de nos amar,
Toda gente confusa, com homens e moças,
com terra que implanta e educa os cravos.
Donde os cheiros latejantes subiram,
De vez em quando um pássaro vestido,
Com água e lentidão: fato de inverno.
Recordará todos os dons desta terra:
Da fragrância irascível, lama dourada,
Ervas daninhas do mato, raízes loucas,
Sortilégios em espinhos como espadas.
Recordará o bouquet que lhe trouxe,
Ramo de sombra e água com silêncio,
Ramo como uma pedra com espuma.
Daquela vez foi qual nunca antes e sempre:
Vamos aonde nada se fez nos aguarda,
Achamos tudo do que está tua espera.
PABLO NERUDA - TRAD. ERIC PONTY
POETA,TRADUTOR,LIBRETISTA ERIC PONTY
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