Sou um retardatário, confesso, mas não um omisso. Sem pretensão astuta a divindade, tardo mas não falho. Retardo por motivos alheios à vontade. Mazelas e desmazelos me impedem, tantas vezes, de chegar em tempo hábil, de desvencilhar-me, com a lepidez de outros, das incumbências e de
atender até aos desejos mais ardentes. Sou assim, talvez tenha assim nascido, não há como mudar. Pode ser também questão de hábito, mas o sábio Cícero já ensinava que o costume é uma segunda natureza. extremamente difícil, talvez impossível, também subvertê-la. Faço estas observações porque somente agora me é dada a oportunidade de ler o número 2, do ano 2, de Orion, a Revista de Poesia do Mundo de Língua Portuguesa, referente a dezembro do ano passado, que me traz a alegria de bons autores que atuam na língua de Camões. À guisa de informação, esclareço que a publicação tem apoio cultural da Fundação Calouste Gullbenkian, do Instituto Camões e de José Mindlin. O volume nos apresenta "coisas importantes", como acentua Maria Helena Nery Garcez, inicialmente, mesmo chamando a atenção para notícias tristes, entre as quais a barbárie sucedida com a "brava gente do Timor Leste", cuja situação horrorizou antes e ainda não foi inteiramente controlada, como se confirma pelos trágicos acontecimentos da primeira quinzena de setembro. Pois a revista, que é de um mundo, que são muitos, envolvendo comunidades múltiplas deste planeta, mas fala português, traz mais de um brasileiro e, para contentamento nosso, mais de um mineiro. Evidentemente, além dos outros de Portugal e demais antigas colônias, embora não compareça representante da sofrida Angola.
Desta terra em que se conjurou insistentemente, em que tanto sofreu em busca da liberdade, aparece gente da melhor qualidade. Entre elas, Eric Ponty, cujo nome disfarça um autor de São João del Rei, poeta, ensaísta e tradutor, que declara em "Canção para o Timor Leste": Longe deles, observo o dobrar dos anos defuntos,/nas varandas do céu, em trajes surrados,/emergindo do fundo para a alegre lembrança/de um tempo estranho pela sua forma finita,/construído neste espaço bidimensional, plano".
Manoel Hygino dos Santos(*)
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