Cantar, todo mundo
canta, mas cantores só há uns dez ou doze.
A boutade, dizem, é de Frank Sinatra, cujas
notabilíssimas habilidades no ofício vocal - me parece - não foram contestadas
até hoje.
Parafraseando a tirada do grande cantor norte-americano, pode-se dizer também
que não há tantos poetas assim no mundo - aqui e alhures, ontem e hoje.
Desconfio que nunca haverá muitos poetas, ou pelo menos muitos grandes poetas.
Pelo menos, estou convicto, não tantos quanto sugere o crescente número de
coletâneas, editadas, por artes de estratégia mercadológica, justamente
sob títulos hiperbólicos.
O exercício poético muitos o exercem, ou imaginam exercitá-lo. Mas fazer grande
poesia é graça concedida a uma minoria; a uma casta de eleitos, portanto.
Schiller, a propósito, já advertiu que não basta criar bons versos para que seu
autor se considere um poeta. Ora, fazer versos, quase todo mundo, em algum momento
da vida, já fez. Fazer POESIA, no entanto, é estrada percorrida pela
minoria a que nos referimos acima. Só ela, essa casta de eleitos, tem o mapa da
trilha. Quem o detém, quem sabe lê-lo, interpretar suas coordenadas, conduz os
demais, ou seja, a todos nós, que formamos essa maioria alijada, como
criadores, do território poético, só o percorrendo, se sensível às Musas,
como visitantes, como viandantes. Aos carentes de sensibilidade, o passeio por
esse território não passará de mero turismo - se tanto.
Eric Ponty tem o mapa da trilha. É um autêntico poeta. Poeta amadurecido (Ripeness is all. A maturidade é tudo, disse-nos o
supremo bardo no "Rei Lear"). Poeta, dono de seu ofício. Poeta que
atingiu o pleno domínio do fazer poético.
Sua virtuosidade poética, Ponty já mostrou e demonstrou no magnífico ”Menino
Retirante Vai Ao Circo Em Brodowski" (Editora Musa, São Paulo,
2003). Neste Livro com sua tradução, nosso poeta só faz reafirmá-la. Por
exemplo quando traduz o poema em versos alexandrinos “Albatroz” de Charles
Baudelaire:
Às
vezes, quando prazer, os marujos da equipagem
Fazem
ardil albatroz, grãos aves dos mares,
Estes
viajantes leves seguem no azul das viagens
Navios
deslizam sobre os mistérios dos mares.
E
quando os marujos possuem sobre os tabuões,
Magoados
e perplexos, aos reis Ares livres
Lastimosos
deixam rastro ao longo dos flancos
Grão
asas alvas, atraindo remos baldios barcos.
Este
movimento, como é grotesco e frouxo!
Uma
vez é belo, como imoral e inepto!
Marujo
a pica um cachimbo em seu bico bruxo,
Outro
zombar passo mancando seu andar adepto.
O
poeta é um rei semelhante às nuvens
Que
zomba arqueiros, ama um dia tempestuoso;
Ansiando
chão, dentre os bandos vai piando lutuoso,
Não
podem andar, suas asas estão na passagem.
Essa defesa podemos traduzi-la como o reconhecimento de
que os poetas habitam uma província onde a lógica não se curva docilmente aos
princípios que regem o mundo empírico (nada é mais real do que o nada, pregava
o pré-socrático Demócrito). Os poetas sabem disso. Por isso sua lógica
particular. Particular, mas não arbitrária. Particular porque só eles têm a
"chave do reino".
Croce e Vossler, a lembrança me vem agora, polemizaram em torno da frase:
"A mesa redonda é quadrada". Para o pensador italiano, a frase se
resumiria a uma ausência total de sentido, ilógica, enquanto o crítico alemão a
viu como verdadeira, pois estética e gramaticalmente válida, pouco lhe
importando que logicamente impossível. Vossler, como tantos outros, antes e
depois dele, percebeu que o poeta é aquele que cria realidades. Poetas são
criadores de mundos. Por isso, nos poemas traduzidos por Eric Ponty,
músico, além de poeta, segue o conselho wagneriano de que o poeta outra coisa
não faz a não ser estimular o entendimento, levando o leitor a efetuar novas
combinações em cima das matérias já conhecidas por meio da percepção sensorial.
Se, como
nos diz Ponty num dos poemas traduzidos de William Shakespeare, cujo abrevio de
Próspero de à Tempestade:
Agora está magia não
sendo às minhas,
Só eu me transporto
estás minhas forças,
Que são paupérrimas. Sem
as complacências,
Retenha-me aqui, deixar-me
em paz,
Partir a Nápoles. Com
todas às coisas,
Já com este ducado
reconquisto
Apesar não perdoar ao traidor
jamais,
Não ficarei enfeitiçado
só
Nesta ilha, cheia deste
encanto,
Libertai-me com este vosso
aplauso.
Vosso alento preenchei
minhas velas,
Ou então fracassará está
minha ideia,
Que foi agradar. Sem
nenhum domínio,
Sobre os espíritos com seus
feitiços,
Me vencendo este meu
desalento,
Se não me alivia alguma
reza,
Tal sentido que emocione
então
Ao céu me perdoei-me
tais erros.
Igual por pecares rogais
clemência,
Libertai-me também vossa
indulgência.
Sendo também não é menos verdade que devemos ouvir o que
os poetas nos têm a dizer (poucos decifram melhor o mundo do que os
poetas, vizinhos que são dos filósofos). Eric Ponty, no apogeu de sua força
criadora, muito nos tem a dizer através destas traduções devendo ser creditado
por sua reflexão sustentada, por uma voz lírica, e convite para ver a vida não
como sujeito estéril, mas como uma dinâmica complexa que tem seu próprio
extraordinário design e imago de verdade.
É urgente que ouçamos sua voz, através da tradução do
poeta-tradutor Ponty, e, qual é uma das mais talentosas de seu tempo.
João da Penha, jornalista e professor aposentado,
colaborou em publicações culturais como Encontros com a Civilização Brasileira,
Cult e Tempo Brasileiro. Autor, dentre outros livros, de O que é
existencialismo (Brasiliense, 2011, 17. ed.) e Períodos Filosóficos (Ática
2000, 4. ed.), traduziu para revistas e jornais poemas dos russos Sierguêi
Iessiênin e Alieksandr Blok, e contos de José Maria Argüedas, Júlio Cortázar e
Gabriel García Márquez, publicados em Os primeiros contos de dez mestres da
narrativa latino-americana (Paz e Terra, 1978). Como ler Wittgenstein. São
Paulo: Paulus, 2013.
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