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quarta-feira, abril 22, 2020

POETA, DE FATO - João da Penha


Cantar, todo mundo canta, mas cantores só há uns dez ou doze.
                    A boutade, dizem, é de Frank Sinatra, cujas notabilíssimas habilidades no ofício vocal - me parece - não foram contestadas até hoje.

                   Parafraseando a tirada do grande cantor norte-americano, pode-se dizer também que não há tantos poetas assim no mundo - aqui e alhures, ontem e hoje. Desconfio que nunca haverá muitos poetas, ou pelo menos muitos grandes poetas. Pelo menos, estou convicto, não tantos quanto sugere o crescente número de coletâneas, editadas, por artes de estratégia mercadológica, justamente sob títulos hiperbólicos.

                     O exercício poético muitos o exercem, ou imaginam exercitá-lo. Mas fazer grande poesia é graça concedida a uma minoria; a uma casta de eleitos, portanto.

                     Schiller, a propósito, já advertiu que não basta criar bons versos para que seu autor se considere um poeta. Ora, fazer versos, quase todo mundo, em algum momento da vida, já fez. Fazer POESIA, no entanto, é estrada percorrida pela minoria a que nos referimos acima. Só ela, essa casta de eleitos, tem o mapa da trilha. Quem o detém, quem sabe lê-lo, interpretar suas coordenadas, conduz os demais, ou seja, a todos nós, que formamos essa maioria alijada, como criadores, do território poético, só o percorrendo, se sensível às Musas, como visitantes, como viandantes. Aos carentes de sensibilidade, o passeio por esse território não passará de mero turismo - se tanto.

                    Eric Ponty tem o mapa da trilha. É um autêntico poeta. Poeta amadurecido (Ripeness is all. A maturidade é tudo, disse-nos o supremo bardo no "Rei Lear"). Poeta, dono de seu ofício. Poeta que atingiu o pleno domínio do fazer poético.

                   Sua virtuosidade poética, Ponty já mostrou e demonstrou no magnífico ”Menino Retirante Vai Ao Circo Em Brodowski" (Editora Musa, São Paulo, 2003). Neste Livro com sua tradução, nosso poeta só faz reafirmá-la. Por exemplo quando traduz o poema em versos alexandrinos “Albatroz” de Charles Baudelaire:

Às vezes, quando prazer, os marujos da equipagem
Fazem ardil albatroz, grãos aves dos mares,
Estes viajantes leves seguem no azul das viagens
Navios deslizam sobre os mistérios dos mares.

E quando os marujos possuem sobre os tabuões,
Magoados e perplexos, aos reis Ares livres
Lastimosos deixam rastro ao longo dos flancos
Grão asas alvas, atraindo remos baldios barcos.

Este movimento, como é grotesco e frouxo!
Uma vez é belo, como imoral e inepto!
Marujo a pica um cachimbo em seu bico bruxo,
Outro zombar passo mancando seu andar adepto.

O poeta é um rei semelhante às nuvens
Que zomba arqueiros, ama um dia tempestuoso;
Ansiando chão, dentre os bandos vai piando lutuoso,
Não podem andar, suas asas estão na passagem.

                          Essa defesa podemos traduzi-la como o reconhecimento de que os poetas habitam uma província onde a lógica não se curva docilmente aos princípios que regem o mundo empírico (nada é mais real do que o nada, pregava o pré-socrático Demócrito). Os poetas sabem disso. Por isso sua lógica particular. Particular, mas não arbitrária. Particular porque só eles têm a "chave do reino".

                       Croce e Vossler, a lembrança me vem agora, polemizaram em torno da frase: "A mesa redonda é quadrada". Para o pensador italiano, a frase se resumiria a uma ausência total de sentido, ilógica, enquanto o crítico alemão a viu como verdadeira, pois estética e gramaticalmente válida, pouco lhe importando que logicamente impossível. Vossler, como tantos outros, antes e depois dele, percebeu que o poeta é aquele que cria realidades. Poetas são criadores de mundos. Por isso, nos poemas traduzidos por Eric Ponty, músico, além de poeta, segue o conselho wagneriano de que o poeta outra coisa não faz a não ser estimular o entendimento, levando o leitor a efetuar novas combinações em cima das matérias já conhecidas por meio da percepção sensorial.

                Se, como nos diz Ponty num dos poemas traduzidos de William Shakespeare, cujo abrevio de Próspero de à Tempestade:

Agora está magia não sendo às minhas,
Só eu me transporto estás minhas forças,
Que são paupérrimas. Sem as complacências,
Retenha-me aqui, deixar-me em paz,
Partir a Nápoles. Com todas às coisas,
Já com este ducado reconquisto
Apesar não perdoar ao traidor jamais,
Não ficarei enfeitiçado só
Nesta ilha, cheia deste encanto,
Libertai-me com este vosso aplauso.
Vosso alento preenchei minhas velas,
Ou então fracassará está minha ideia,
Que foi agradar. Sem nenhum domínio,
Sobre os espíritos com seus feitiços,
Me vencendo este meu desalento,
Se não me alivia alguma reza,
Tal sentido que emocione então
Ao céu me perdoei-me tais erros.
Igual por pecares rogais clemência,
Libertai-me também vossa indulgência.


                Sendo também não é menos verdade que devemos ouvir o que os poetas nos têm a dizer (poucos   decifram melhor o mundo do que os poetas, vizinhos que são dos filósofos). Eric Ponty, no apogeu de sua força criadora, muito nos tem a dizer através destas traduções devendo ser creditado por sua reflexão sustentada, por uma voz lírica, e convite para ver a vida não como sujeito estéril, mas como uma dinâmica complexa que tem seu próprio extraordinário design e imago de verdade.

            É urgente que ouçamos sua voz, através da tradução do poeta-tradutor Ponty, e, qual é uma das mais talentosas de seu tempo.

João da Penha, jornalista e professor aposentado, colaborou em publicações culturais como Encontros com a Civilização Brasileira, Cult e Tempo Brasileiro. Autor, dentre outros livros, de O que é existencialismo (Brasiliense, 2011, 17. ed.) e Períodos Filosóficos (Ática 2000, 4. ed.), traduziu para revistas e jornais poemas dos russos Sierguêi Iessiênin e Alieksandr Blok, e contos de José Maria Argüedas, Júlio Cortázar e Gabriel García Márquez, publicados em Os primeiros contos de dez mestres da narrativa latino-americana (Paz e Terra, 1978). Como ler Wittgenstein. São Paulo: Paulus, 2013.


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