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sábado, março 14, 2020

XIII SONETOS William Shakespeare – Trad. eric ponty


I
Desejamos ver que o mais belo abunde
para que a beleza em flor não morra,
pois até o fruto pródigo sucumbe
sendo justo que um retorno o suceda;
porém em ti mandam teus formosos olhos
e ao ser tu o alimento de tua chama,
semeadura a fome ali donde há de todo
e sóis tua própria presa maltratada.
Tu que hoje adornas com tu encanto o mundo
e anuncias sem igual a primavera,
mesquinhas ao vigor de ti capulho
e ao não gastar derrotas tuas reservas:
tenha dó e não deixes que tu gula
se parta ao pão do mundo com a tumba.
William Skakespeare – Trad. eric ponty

II
Quando um assedio de quarenta invernos
te sulque o belo prado de trincheiras,
tua roupa, que agora é ostensiva e nova,
será uma piscadela que já não interessa.
E quando te perguntem onde jaze
o esplendor de teus bem longe anos,
não diz que em teus olhos espectrais,
pois soará a artifício o da bochecha.
Darás más digno emprego a tua postura
si podes contestar: «Este filho meu
redime minha velhice, quadra minha suma;
meu patrimônio está em seu parecido».
chegada a velhice, sua jovem vida
acalentará teu sangue que se esfria.
William Shakespeare – Trad. eric ponty
III
Contemplaste ao espelho e diz a teu rosto
que já se reproduza sem demora;
si não renovas tua frescura em outro
ao mundo e a uma mãe infeliz.
Pois que donzela fará tão altaneira
para vedar seu rosto a tua semente?
E quem tão vaidoso que prefira
privarmos de beleza com sua morte?
Tu eras a viva imagem de tua mãe
e ela vê em ti o frescor de seus abris;
também tu na tua velhice poderás olhar-te
e ver a idade de ouro que agora vives.
Mas si preferes que não te recordem,
não engendres e tua imagem contigo morre.
William Shakespeare – Trad. eric ponty
IV

Encanto derrotado, por quê gastas
Tua herança de a postura só em ti?
Natura não provem apenas nada:
Tão só presta a quem dão sem fim.
Por que, então, belo egoísta, abusas
Dá largueza com que te hão munido?
Efêmero usuário, por que apuras
Tamanha suma e não obtive folga?
Se tu único cliente é tua persona,
Acabarás findando-se teu encanto;
Assim, quando por fim chegue tua hora,
Com que reserva farás adequar teu saldo?
Sem uso, tua beleza é coisa morta;
Usada, se converte em teu testamenteiro.
William Shakespeare – Trad. eric ponty
V
As horas obsequiosas que talharam
O rosto que cativa os olhares
Serão as mesmas que, como tiranos,
Desgracem o que agora irradia graça.
O Tempo inexorável transfigura
Ao agraciado estio em férreo inverno:
A seiva gelada, os ramos nus,
O belo manto neve, o campo ermo;
Se a essência estival no permanece
Prisioneira em seu cárcere cristalina,
A beleza e seu efeito, ambos dois morrem
A um tempo, sem deixar memória viva.
As flores, ao que hibernem, destiladas
Não brilham mais conservam a sustância.
William Shakespeare – Trad. eric ponty
VI
Não deixes, pois, que o tosco inverno borre,
Se não te hás descongelado, teu verão:
Induza uma vasilha; busca onde
Incrementar tu erário e não o enterraras.
Esse uso não é usura mal admirada
Pois cheia de alvoroço a quem paguem
E a ti te beneficia da criança
De um igual a ti, ou dez se cabem.
Serás dez vezes mais feliz que agora
Ao verte refletindo em outros dez;
A morte não poderá com tua persona
Pois si eles vivem, vives tu também.
Mas não desfrutes só teu legado
O herdarão teu encanto os gusanos.
William Shakespeare – Trad. eric ponty

 VII
O olhas! Quando a terna luz renasce
E assoa por oriente seu elmo,
Todos os olhos rendem homenagem
A sagrada majestade do astro.
E quando, já em sua idade mediana, alcança,
Robusto e jovem há um, a etérea acima,
Não deixam de adorara-lo os olhares
Que seguem sua adorada travessia.
Mas quando se retira lentamente
Em seu reluzente carro, como um velho,
Os olhos que o honravam já se mexem
E deixam de segui-lo em seu trajeto.
Tu que estás no zênite do caminho,
sem filhos morreras inadvertido.
William Shakespeare – Trad. eric ponty
VIII
Se tu eras música, te condena ouvi-la?
Se o doce é doce e és gozos ao gozo,
Por que amas o que tomadas com aversão
E tomadas com prazer o ignominioso?
Se não te és grato ouvir a maridagem
De notas que harmonizam e se somam
É porque ti renegam com voz suave:
Não és só para ti esta partitura.
As cordas, como sabes, se dispõem
Por melodiosos pares e ao pulsara-las,
Ao tempo que nos cantam um acorde,
Parecem pai, filho e mãe amada.
E sua canção, sem letra e com donaire,
Te canta: tu, solista, não eras nada.
William Shakespeare – Trad. eric ponty

IX
Acaso o medo ao canto de uma viúva
Te fará dilapidar tua vida iluminas?
Se morres sem deixar progenitura
O mundo chorará como una esposa
Prisioneira da viuvez e não de vida,
Pois tu não deixas pisar ao marchar-te,
Em tanto que outras viúvas, quando olham
Os olhos de seus filhos, vem ao pai.
O que no mundo gasta um maroto
Vai duma mão a outra, não se perde.
O belo, derrocado, dura pouco;
Não usados, se destrói para sempre.
Não bate amor ao próximo em o peito
de quem se impõe um crime tão abjeto.
William Shakespeare – Trad. eric ponty
X
A nada queiras: não queiras nega-lo,
Pois nem si queira cuidas de ti mesmo.
Sem dúvida te amam muitos, sem travar,
Nenhum há sido nem és correspondido.
O ódio criminal que levas dentro
Te incita a conspirar contra tua casa
E a fazer-te demolir seu nobre teto
Quando o nobre és ver que se repara.
Depõe teu empenho e eu, minha incerto:
Amas mais ao ódio que ao amor?
Se, como tua presença, amável e doce
O tente, quando menos, compaixão.
Faz, por conosco, outro igual; é justo
Que a beleza viva em ti o teu.
William Shakespeare – Trad. eric ponty
XI
Ao tempo que tuas minguas crescerás
Em um dos teus, ao que deixas;
Sei que, de jovem, saibas dar
Será tua propriedade quando envelheces.
Nele há sensatez, beleza, aumento;
Sem ele, necessidade, velho, estrago:
Pensando como tu, cessará o tempo
E ao mundo durará sessenta anos.
Que aqueles que natura desatende,
Os espessos, ferros, safos, se suprimam;
Na troca, o mais dotado mais obténs:
Com parte-o com cresce então vivas.
Natura te talhou como seu emblema;
Imprime mais, não deixes que se morra.
William Shakespeare – Trad. eric ponty
XII
Se vejo no relógio que o tempo voa
E que se soma ao dia em noite turba;
Se olho que se acostam as violetas
E há cães na cabeça que eram loiras;
Se nas árvores copas que ofereciam
Sua sombra aos rebanhos não há folhagem,
E o trigo, em fardos, já ceifado, arrepia
Os carros com suas barbas outonais;
Então ponho em dúvida tua formosura,
Pois tu também serás pasto do tempo.
Os belos e os gráceis renunciam
E morrem então crescem outros novos.
O tempo seca tudo: quando engendres
Lhe farás plantado cara ao que te leve.
William Shakespeare – Trad. eric ponty
XIII
Se foras tu a ti eu! Espero, aí, amor,
Tu só serás teu então vivas;
Dispõe a abandonar esta ilusão
E chega em outro tuas fracionais finas.
Assim conseguirás que não termine
Esta beleza que detenhas, posto
Que quando o doce rebento te imite
Serás de novo tu, ao que haverá morto.
Tão digna residência não merece
Que um mal tutor a deixe abandonada
A expensas do inverno e suas correntes
E o frio eterno da morte vácuo.
Não esbanjes, pois, amor e dá
ao teu filho o que tu tenhas: um pai.
William Shakespeare – Trad. eric ponty


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