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segunda-feira, outubro 26, 2026

Sua tez de poeta perfaz pela tarde - A Voz do Poeta - Eric Ponty

 

 Sua tez de poeta perfaz pela tarde
e se encontra em cada anoitecer
quando o garoto fecha o caderno
e sai da escola e vê uma estrela
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
nos galhos tocos das árvores mortas
e nos verdes canteiros de margaridas
nos detalhes de pedra dos casarões 
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
na imensidão do horizonte oculto
na densidade das serras obliquas
nos telhados jamais visto por cima
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
na página esquecida de um livro
ou nos versos defeituosos queimados
nas fotografias dos jornais de ontem 
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
na face do anjo que segura a lanterna
no rosto marcado de um discípulo
mesmo naquela tez saturada de Cristo
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
na imaginação de uma madrugada
onde santos e demônios se digladiam
onde pássaros saídos do vôo partem
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
no assovio desafinado de um carteiro

no cantarolar de uma menina de azul
na fileira sagrada de uma formiga
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
na densidade chapada do cotidiano
no olhar rotineiro e amorfo das pessoas
dos transeuntes em abismo sem remissão 
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
na densidade do vento sobre as folhas
nas melodias de um piano rotineiro
na contra luz do sol numa janela
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
nas ondulações das brancas nuvens
na sua cor claro escuro no horizonte
no azul mais profundo marinho céu
seu semblante está em sua tristeza.

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
no olvidar no ouvido antigos versos
e recitar novas e belas efígies alvas
murmurar certas passagens mudas
seu semblante está em sua tristeza.  

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
no dobre bronze dos sinos antanhos
no repique do repicar na surdina
no encontro fortuito de dois enterros 
seu semblante está em sua tristeza.  

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
nos relógios que pararam de sofrer
nas lapides que cessaram de lembrar
no ruído árduo que sai do presente 
seu semblante está em sua tristeza.  

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
nos lábios rubros e quentes amados
da amada que se deixa de ser amada
e da musa que adentra a rua vazia
seu semblante está em sua tristeza.  

Sua tez de poeta perfaz pela tarde
e dialoga com o voo dos pássaros
que livres se distanciam desta urbe 

e se fundem na superfície do céu
seu semblante está em sua tristeza.  

Toda sua tristeza nasce do semblante
E nele está inscrita a filigrana da tarde
o voo proscrito dos pássaros que rugem
o gozo agônico e enternecido de musa
na tez de poeta que perfaz pela tarde.
Eric Ponty
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

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