Uma conhecida fábula indiana, da qual existem várias versões, conta, numa delas, que três cegos se aproximaram de um elefante para “vê-lo” pelo tato. O primeiro tocou-lhe uma das orelhas e concluiu que o elefante era um pássaro de enorme envergadura, com asas destituídas de penas. O segundo, agarrando-lhe uma das presas, convenceu-se de que o elefante era um peixe de focinho afilado. O terceiro, abraçando-lhe a perna, imaginou o elefante como uma torre de carne encimada por descomunal cabeça. Tudo isto vem a propósito das formas de “ver”. No caso, temos “visões” fantasiosas de quem não vê, no sentido mais vulgar da palavra. Mas as maneiras de ver de quem vê, dependendo de quem seja esse vedor, podem revelar “visões” ainda mais mirabolantes que as dos três cegos indianos. E quando quem vê é um poeta e um artista plástico, essas visões podem atingir o nível do inimaginado.
Eric Ponty viu o elefante, ou melhor, viu vários elefantes e escreveu sobre o que viu. Mas sendo poeta, e um poeta muito especial, as maneiras de ver de Eric Ponty têm equivalentes literários semelhantes às visões tácteis dos cegos indianos. Sérgio Campos viu as visões de Eric Ponty. Sérgio Campos é um artista plástico muito especial. Texto e imagem nos dão visões oníricas, surrealistas, visões diferentes ou para além daquelas que nós, os pobres mortais, podemos apreciar com os simples olhos da face.
Essas visões deram lugar a um livro. Um livro também para as crianças? Porque não. As crianças são capazes de devaneios semelhantes aos sonhos dos poetas, de imaginações que suplantam as suposições sensoriais. Mas é também um livro para adultos, pela sua beleza, sua poesia, sua capacidade de nos ajudar a ver algo mais que a realidade concreta e dimensional dos nossos olhos.
IVO BARROSO
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