Desperta, ó luz do canto
Desperta, ó luz do canto,
Ó luz da lembrança!
Ao redor do céu há uma nuvem angustiante
De luto, já o suficiente.
Não deve, em meu coração,
Haver também escuridão.
Para isso, à noite, temos velas,
Quando o sol se põe.
Substituir o brilho do sol,
Ó vela, tu não podes;
Mas o olho não pode se deleitar
Em nenhuma outra luz.
Eu hesito em relação ao coração, por quanto tempo ele
Fica sem o ímpeto da alegria;
Desperta, ó luz do canto,
Ó luz da bem-aventurança!
Desperta, doce exuberância,
Ó luz da lembrança,
Até que, com o ímpeto apaziguado,
Eu adormeça no crepúsculo!
Que minhas lamentações fluam docemente
Que minhas lamentações fluam docemente,
Como os cristais no riacho da primavera,
Que saltitam com alegria na margem,
Onde, da beira, duas flores se inclinam
E, em silêncio, se contemplam no espelho azul sereno,
Mas, convidadas
A banhar-se, recuam timidamente,
E se aconchegam, como se tivessem vergonha;
Mas as ondas que precisam passar, em sua passagem,
turvam com tristeza seu brilhante olhar;
saúdam dolorosamente ao seguirem adiante,
gostariam de permanecer, mas são obrigadas a partir.
Que minhas lamentações oscilem docemente,
como os ramos se estendem pelo solo,
ansiando pela chama da vida,
Em direção ao tronco que se eleva ao céu,
Que se inclina quando tocado pelos suaves
Ventos da primavera, mas os ramos orgulhosos
Ele ergue novamente, sem ter piedade dos pobres,
Que se esforçam em vão
Para desabrochar, aproveitando cada sopro de ar,
Suportes falsos que apenas as erguem,
Para, com tremor, deixá-las cair
No solo úmido, onde se desesperam.
Minhas lamentações devem gemer docemente,
Como os sons dos graciosos rouxinóis,
Que, acima de tudo, Rosa, são levados a amar-te,
E que não percebem as multidões de flores,
Que se aglomeram ao redor dos cantos,
Se aglomeram ao redor, mas apenas para te louvar, a ti,
Ressoa a melodia: “Rosa, no aposento nupcial,
Acorda, desperta! Sai do perfume dos sonhos
Para os aposentos, para que a terra áspera
Se torne suave, para que a pálida
Vermelhidão da morte se retire, quando, com cantos nupciais,
Nosso bater de corações te corar as amuras.”
Friedrich Rückert - Trad. Eric Ponty
POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA

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