Pesquisar este blog

segunda-feira, outubro 26, 2026

TRÊS SONETOS - PIERRE LOUYS - TRAD. ERIC PONTY

 Pierre Louÿs

Á PAUL AMBROISE VALÉRY 

Vou brandir tua mão em silêncio, então, meu diácono,
E pisaremos juntos por passagens difíceis.
Terei o girassol resplandecente entre os dedos;
Tu carregarás lírio como um vaso de nácar.

Partir-se: eu ao Chipre, vós ao São João de Acre,
Para tocar bom Símbolo ou ver a Santa Cruz,
Briosos nada sabe em triunfo em nome dos reis,
Mas súditos do sonho azul e da vã aparência.

Vão me deixar fugir para a ilha das íris;
Adorar fazer amor, apesar bacanal,
Pelas marcas descalças onde Kypris soia vagar;

Mas, na noite mística e do Santo Sepulcro,
Verão os Três Pregos sobre o altar, e nossos olhos
Melhor nossos frágeis dedos se unirão aos deuses.

AS FILHAS DO DEUS

Á André Walckenaer.


Haviam enfeitado em cachos com flores lótus
E ensopado os cabelos com perfumes intensos
Flancos flexíveis ondeavam ondas de veludo
Olhos remotos pulsavam pedras preciosas.

Cobras prateadas cingiam em seus braços nus
Colares desciam sobre teu seio cinzento
Respirações meigas erravam como brisas
Em vozes tristes e suas risadas ingênuas.

E as cores ruivas da flor em teus cachos noturnos
Tremiam com sonolência taciturna
Na ponta de dedos alvos, com unhas carmim.

E os tapetes azuis, silente, arte passagem
Onde as filhas do deus, sobre flores de verbena,
Seduziam umas às outras ao longo da hora ociosas. 

Clitóris 

Achegado sob o calor destas ninfas discretas,
Tal qual pistilo em carne em um lírio dolente,
Tal clitóris, coral vivo, dum coração escuro,
Tremer ao lembrar-se das bocas olvidadas.

Toda a Mulher vibra e se concentra então nele,
Sendo a fonte do cio sob os dedos da virgem,
É o polo eterno para onde o desejo converge,
No paraíso do espasmo e o Coração da Noite.

O que ele sussurra aos flancos, que toda a carne ouve;
Ao menor de teus latejos, seios se erguem;
E tuas batidas surdas inflamam nesse corpo. 
Ó Clitóris, rubi simbólico que se move
Brilhando qual uma joia no peito de um deus
Erga-se, negro de prole, diante das bocas ruivas!

 À CIGARRA


Cigarra sussurrante, ébria de gotas de orvalho 
Tu tocas uma música campestre na solidão.
E, pousada na ponta das folhas, com tuas patas
serrilhadas, sobre tua carapaça bronzeada, 
fazes vibrar a canção da lira.

Ora, amiga, canta algo novo para as Ninfas 
habitam nas árvores; para responder a Pã, canta teu canto;
De modo que, tendo fugido de Eros, no sono do meio-dia
eu durmo, aqui, aleitado sob o plátano frondoso.

 A ÁRVORE


Tirei a roupa para subir em uma árvore; 
Minhas coxas nuas acariciavam a casca lisa e úmida;
minhas sandálias pisavam sobre os galhos.

No topo, mas ainda sob as folhas e à sombra do calor, 
sentei-me a cavalo sobre uma forquilha aberta, 
balançando os pés no vazio.

Tinha chovido. Gotas de água caíam e corriam pela minha pele. 
Minhas mãos estavam manchadas de musgo, 
e meus dedos dos pés estavam vermelhos, 
por causa das flores esmagadas.

Eu sentia a bela árvore viver quando o vento passava
por entre ela; então, apertava ainda mais as pernas
e abordava meus lábios abertos na nuca coberta de folhas de um galho.

PIERRE LOUYS - TRAD. ERIC PONTY

  

 POETA - TRADUTOR - LIBRETISTA 

Nenhum comentário: